Gasto com defesa de membros europeus da Otan subiu quase 20% em 2025
Apesar da alta, EUA ainda gastam muito mais que todos os demais membros da aliança militar somados. Trump tem pressionado europeus a abrir os cofres. Alemanha investiu 2,4% de seu PIB.O gasto com defesa do Canadá e dos 30 países europeus que fazem parte da Otan subiu quase 20% em 2025, informou o secretário-geral da aliança militar, Mark Rutte, em relatório anual da entidade divulgado nesta quinta-feira (26/03).
Outrora dada como moribunda, a aliança fundada no pós-guerra e liderada pelos Estados Unidos ganhou relevância após a eclosão da guerra na Ucrânia.
O aumento dos gastos está em linha com a agenda do presidente americano Donald Trump, que tem pressionado europeus a assumirem sua própria segurança.
"Entre 2014 e 2025, a Europa da Otan e o Canadá mais do que duplicaram seus gastos anuais com defesa, com um aumento real de 106%. Somente em 2025, os aliados da Otan na Europa e no Canadá investiram um total de 574 bilhões de dólares [cerca de R$ 3 bilhões] em defesa, um aumento de 20% em termos reais em comparação com 2024", afirmou Rutte no prefácio do relatório.
Segundo o chefe da Otan, todos os aliados já estariam cumprindo a meta anual de gastar 2% do PIB em defesa, e três já alcançaram o novo objetivo de 3,5% estabelecido para 2035. "Isso mostra que os aliados da Otan reconhecem nosso ambiente de segurança alterado e a necessidade de cumprir nossas obrigações coletivas", disse.
EUA gastam mais que todo o restante da Otan
Com 838 bilhões de dólares (R$ 4,4 bilhões), os gastos de defesa dos EUA caíram ligeiramente em 2025 em comparação com o ano anterior. Ainda assim, superaram em muito a soma dos gastos dos demais membros, que totalizou 574 bilhões de dólares.
E enquanto a participação dos EUA nos gastos totais da entidade caiu de 64% em 2024 para 59% em 2025, os da Europa e Canadá somados aumentaram mais de 19% em termos absolutos pelo segundo ano consecutivo.
Bélgica, Canadá, Albânia, Espanha, Portugal, Itália, República Tcheca, Eslovênia, França e Montenegro gastaram entre 2% e 2,05% do PIB com defesa.
Na outra ponta, gastando 3,19% de seus respectivos PIBs com defesa, os maiores investidores europeus da aliança — Polônia, Lituânia, Letônia, Estônia, Dinamarca e Noruega — superaram os EUA proporcionalmente.
A Alemanha registrou 2,39% do PIB, aproximadamente o dobro de sua participação em 2014.
Meta de 5% do PIB até 2035
Rutte citou diversas vezes a "histórica" cúpula da Otan em Haia em junho do ano passado, chamando-a de um "momento decisivo para nossa aliança".
Na ocasião, em meio a críticas de Trump, os demais membros da aliança se comprometeram a elevar seus gastos com defesa a 5% do PIB até 2035 — sendo 3,5% para "financiar a defesa central" e mais 1,5% para "investimentos relacionados a defesa e segurança", como preparação civil, inovação, infraestrutura crítica e fortalecimento das indústrias de defesa.
Rutte disse que esse plano estava "tornando a Otan mais justa e redistribuindo melhor o peso da nossa segurança".
Ele alertou que a Rússia "continuou a testar a aliança" e segue sendo "a ameaça mais significativa e direta à paz e à estabilidade na área euro-atlântica". Também citou a invasão russa da Ucrânia, que, segundo ele, é apoiada por China, Coreia do Norte, Irã e Belarus.
"Um forte vínculo transatlântico continua essencial em uma era de incerteza global", escreveu Rutte, em meio ao descontentamento de Trump com aliados da Otan relutantes em se envolver nos ataques EUA e Israel ao Irã. "A América do Norte e a Europa sempre foram mais fortes juntas na Otan, e é assim que continuaremos seguros em um mundo mais perigoso."
Chefe da Otan não comenta sobre "desvio" de armas
A jornalistas, Rutte não quis comentar os relatos de que os Estados Unidos estariam avaliando desviar para o Oriente Médio armas da Otan originalmente previstas para a Ucrânia, por causa da guerra no Irã.
O chefe da Otan disse que os EUA continuariam a fornecer mísseis interceptadores e outros sistemas cruciais para Kiev, mas não confirmou nenhuma redução.
Segundo o jornal americano The Washington Post, o Pentágono estaria avaliando o redirecionamento de armas da Ucrânia para o Oriente Médio, para cobrir déficits de estoque.
Isso incluiria mísseis de defesa aérea adquiridos por meio de um programa de compras militares conjuntas da Otan para a Ucrânia, criado após a forte queda no financiamento direto dos EUA.
Esse mesmo programa tem sido responsável pela aquisição recente de grande parte das munições usadas pelos sistemas de defesa aérea Patriot e por outras capacidades de defesa aérea.
Segundo o Washington Post, o Pentágono informou ao Congresso que planeja redirecionar cerca de 750 milhões de dólares do programa para reabastecer os estoques militares dos próprios EUA, em vez de enviar mais ajuda à Ucrânia.
Ainda não está claro se os países europeus que participam do programa sabiam dessa possível mudança. Rutte não quis dizer se a Otan foi formalmente notificada.
ra (dpa, Reuters)