Formar técnicos ou preparar para a universidade? Um debate que precisa de dados
O avanço do EMI representa uma conquista importante que deve ser defendida e aprofundada. O que falta, porém, é um esforço sistemático de acompanhamento e avaliação que permita compreender melhor seus impactos e orientar decisões futuras.
No debate público brasileiro atual é difícil encontrar alguém que seja abertamente contra a expansão do Ensino Médio Técnico. Governos ideologicamente opostos parecem convergir nessa direção. No estado de São Paulo, por exemplo, a gestão Tarcísio de Freitas anunciou que, em 2026, 321 mil jovens estarão matriculados em cursos de ensino médio integrado ao técnico. No plano federal, o governo Lula divulgou a criação de 100 novos campi de Institutos Federais, com previsão de 140 mil novas vagas, majoritariamente em cursos técnicos integrados ao ensino médio, com investimento de R$ 3,9 bilhões contemplados pelo PAC.
Independentemente de tais planos se concretizarem ou não, há uma convergência evidente: a expansão da educação profissional é tratada como um consenso político. Esse consenso costuma vir acompanhado de duas promessas recorrentes: oferecer educação pública de qualidade e ampliar a empregabilidade da juventude. No entanto, por trás dessa retórica, há duas perguntas que raramente são formuladas com clareza:
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O que caracteriza exatamente o ensino médio técnico integrado?
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O que acontece com os estudantes após concluírem esses cursos? Eles ingressam no mundo do trabalho como técnicos ou seguem majoritariamente para o ensino superior?
Buscar respostas para essas questões é essencial, especialmente porque elas envolvem uma política educacional de grande escala. Nos últimos anos, pesquisadores da área de educação têm investigado temas relacionados ao ensino médio técnico e às trajetórias dos egressos, produzindo análises importantes, ainda que pontuais. Apesar desses esforços, o tema permanece subexplorado quando comparado à sua relevância para a formulação de políticas públicas.
Conhecer o que essas pesquisas apontam - e, sobretudo, o que não conseguem responder - é fundamental para qualificar o debate sobre o rumo dos investimentos em educação no país. É nesse sentido que este texto se propõe: apresentar algumas considerações introdutórias que ajudem a ampliar a discussão, lembrando que políticas educacionais, pela sua escala e impacto, dizem respeito a toda a sociedade.
Antes de avançar, porém, é importante explicitar uma limitação: por disponibilidade de dados, a maior parte das reflexões aqui apresentadas refere-se aos Institutos Federais (IFs). Apesar disso, é plausível supor que alguns padrões observados nos IFs dialoguem com experiências de escolas técnicas de redes estaduais.
Do ponto de vista formal, o Ensino Médio Integrado (EMI) combina a Formação Geral Básica (FGB) - língua portuguesa, linguagens, matemática, ciências humanas, ciências da natureza - com componentes específicos do Itinerário de Formação Técnica e Profissional (IFTP). A legislação recente (Lei nº 14.945/2024 e resoluções CNE/CEB nº 2/2024 e nº 4/2025) reorganizou a distribuição das cargas horárias, mas a concepção geral permanece: ao final do curso, o estudante obtém simultaneamente o certificado de conclusão da educação básica e uma habilitação técnica, capacitando-o, ao menos em tese, para ingressar no mercado de trabalho ou continuar os estudos em nível superior.
Egressos do sistema integrado têm taxas superiores aos alunos do ensino médio regular
Na prática, contudo, muitas escolas técnicas, e em especial Institutos Federais, se consolidaram como instituições de alto desempenho acadêmico, com forte presença de pesquisa, extensão e preparação para vestibulares. Estudos de âmbito nacional apontam que egressos do EMI da rede federal têm taxas de ingresso e conclusão no ensino superior mais altas que as de estudantes do ensino médio regular. Assim, embora o curso seja técnico, a trajetória predominante parece ser a continuidade dos estudos.
Pesquisas específicas ilustram esse comportamento. Um estudo do IFSP - Campus Sertãozinho analisou 194 concluintes do curso Técnico em Automação Industrial entre 2011 e 2017. Entre os que responderam ao questionário (38 egressos), 90% ingressaram em cursos de graduação e 34% relataram exercer atividade remunerada, em geral relacionada à formação técnica.
Já uma investigação sobre egressos do curso Técnico em Agropecuária do Instituto Federal Catarinense também identificou alta taxa de entrada no ensino superior, mas baixa inserção no mercado como técnico em agropecuária. Em ambos os casos, a continuidade dos estudos é interpretada pelos pesquisadores como evidência positiva da qualidade da formação recebida.
Esses resultados sugerem um padrão consistente: os cursos integrados dos IFs são, de fato, de alta qualidade e criam oportunidades reais de acesso ao ensino superior. Do ponto de vista educacional, isso é excelente. Do ponto de vista de políticas públicas, por outro lado, esse cenário suscita questões relevantes. Afinal, essa política é frequentemente apresentada à população como uma via rápida para a empregabilidade técnica, e não como um preparatório para o vestibular.
Por que os alunos seguem para o ensino superior e não para o mercado?
Aqui emerge uma pergunta fundamental: por que os estudantes formados em cursos técnicos integrados optam, em sua maioria, por seguir para o ensino superior em vez de ingressar diretamente no mercado de trabalho, utilizando sua formação técnica?
Não se trata aqui de sugerir que haja uma escolha "correta" ou "esperada", mas de compreender as razões que orientam tal decisão. Fatores sociais e simbólicos, perspectivas de mobilidade econômica, expectativas familiares, diferenças salariais e a própria cultura acadêmica dos IFs certamente desempenham algum papel. O ponto central, no entanto, é simples: não sabemos o peso relativo de cada um desses fatores.
País não possui sistema de acompanhamento dos egressos do ensino médio integrado
Essa constatação conduz a um segundo ponto: o Brasil não possui um sistema nacional de acompanhamento sistemático dos egressos do ensino médio integrado, seja da rede federal, seja das redes estaduais. Há estudos pontuais - como os mencionados acima -, mas não há mecanismos permanentes que permitam avaliar trajetórias profissionais e acadêmicas, identificar padrões regionais, medir impactos da formação técnica ou compreender, com maior precisão, por que jovens tomam determinadas decisões. A ausência desses dados fragiliza, embora não comprometa por completo, qualquer tentativa de avaliar a eficiência das políticas de expansão do ensino técnico integrado.
Por fim, cabe mencionar que os IFs demandam investimentos significativamente superiores aos da média das escolas públicas brasileiras. Infraestrutura robusta, docentes em dedicação exclusiva, tempo integral e bolsas estudantis compõe um modelo de excelência difícil de universalizar no curto prazo. Isso torna ainda mais urgente definir com clareza qual é a função do ensino médio integrado e como seus resultados devem ser avaliados. Em um cenário de expansão acelerada, conhecer as trajetórias dos egressos não é apenas desejável, mas indispensável.
Em síntese, o avanço do EMI em redes estaduais e, sobretudo, nos Institutos Federais, representa uma conquista importante que deve ser defendida e aprofundada. Não há dúvidas sobre a qualidade dessa modalidade. O que falta, porém, é um esforço sistemático de acompanhamento e avaliação que permita compreender melhor seus impactos e orientar decisões futuras.
Se o país pretende investir bilhões em sua expansão, deve também investir na produção de evidências que ajudem a responder à pergunta que até agora permanece em aberto: o que acontece, afinal, com os jovens que passam pelo ensino médio técnico integrado? Apenas com a construção dessa resposta poderemos pensar, de forma madura, o tipo de desenvolvimento educacional - e econômico - que desejamos para o país.
Lucas David não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.