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Primeira prefeita mulher e negra quebra barreiras em Bauru

Jornalista Suéllen Rosim, de 32 anos, é eleita por partido de direita, o Patriota, e se coloca como representante da força feminina; no sábado, antes da votação, ela registrou boletim de ocorrência após ataques de cunho racista

30 nov 2020 18h35
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SOROCABA - A eleição da jornalista Suéllen Rosim (Patriota), de 32 anos, para a prefeitura de Bauru, cidade de 380 mil habitantes, quebra duas barreiras ao mesmo tempo. É a primeira vez, desde a fundação, em 1896, que uma mulher vai administrar o município. Nesse período, 52 homens se alternaram no comando da prefeitura e nenhum deles era negro. Mais votada também no primeiro turno, a jornalista derrotou, no segundo, o médico Raul Gonçalves de Paula, do DEM, por uma diferença de 19.167 votos. Solteira, durante a campanha ela se colocou como representante da força feminina.

Suéllen Rosim (Patriota), nova prefeita de Bauru.
Suéllen Rosim (Patriota), nova prefeita de Bauru.
Foto: Divulgação/Patriota / Estadão

Eleita por um partido de direita, alinhado com o governo do presidente Jair Bolsonaro, Suéllen disse que vai buscar o diálogo também com outras forças políticas, como o PSDB, partido que governa o Estado de São Paulo. "Temos abertura com o governo federal, até pela questão partidária, mas mantemos também uma boa relação com o governo do Estado. Acima das bandeiras partidárias está Bauru, a maior cidade do centro-oeste paulista."

Com o apoio do vice, o médico Orlando Dias, do mesmo partido, ela espera reforçar sua base eleitoral na Câmara, onde o Patriota elegeu apenas um dos 17 vereadores. A eleita disse que alguns vereadores de outras siglas já a procuraram para conversar. "Esse diálogo será essencial, pois agora se encerra a disputa eleitoral e se inicia um projeto para Bauru. Não vamos governar sozinhos, vamos trabalhar em conjunto pela cidade."

Nascida em Dourados (MS), Suéllen viveu boa parte da vida em Birigui, no noroeste paulista, onde seu pai, o pastor Dozimar Rosim, é suplente de vereador e sua família desenvolve projetos sociais. Após se formar em jornalismo em Araçatuba, cidade vizinha, ela se mudou para Bauru, onde trabalhou como repórter e apresentadora da TV Tem, afiliada da Rede Globo. Em 2018 deixou a TV e estreou na política como candidata a deputada estadual, ficando na primeira suplência do Patriota, com 36.049 votos. Em 2019, assumiu a presidência do partido em Bauru.

Racismo

Suéllen nem assumiu o cargo e já foi atacada com mensagens de cunho racista em aplicativo de mensagem. Tanto na véspera das eleições do segundo turno, sábado, 28, como nesta segunda-feira, 30, um dia após ter sido eleita com 89.725 votos, postagens feitas em um grupo de WhatsApp chegaram ao conhecimento dela através de uma amiga que participava do grupo. Sábado à noite, Suéllen foi ao plantão da Polícia Civil e registrou a ocorrência.

Uma das postagens, em poder da polícia, afirma que "não podemos eleger aquela mulher com cara de favelada pra ser nossa prefeita". E prossegue: "Essa gente de pele escura, com cara de marginal administrando nossa cidade, será o fim." Quando um participante avisa que isso é preconceito racial, a pessoa continua com o ataque. "Essa gente de cor, representada por essa tal Suéllen, não vai saber administrar a cidade, não tem competência. FATO (sic)."

À reportagem, Suéllen disse que espera que o autor dos ataques seja identificado e responda pelo crime. "Infelizmente fomos alvos desses ataques na véspera das eleições e hoje, 30, surgiu um novo comentário com o mesmo teor. A gente fica chocada, pois não espera que isso ainda seja uma questão que incomoda as pessoas. Mas isso é inaceitável. Como pode ter gente com o coração tão distorcido?", questionou.

Ela disse ter procurado "as vias necessárias" porque entendeu ter sido vítima de injúria racial. "É algo que a gente não pode deixar para lá, não deve se calar. Como prefeita eleita que representa, além do universo feminino, o universo das pessoas negras, tenho essa responsabilidade. A aceitação de uma mulher na política já é complicada, e o fato de ser negra implica na ocupação de um espaço muito importante."

A Polícia Civil informou que já investiga o caso a partir do número de celular da pessoa que, supostamente, fez os ataques. O suspeito não tinha sido encontrado até a tarde desta segunda-feira (30). A reportagem entrou em contato com o número citado, mas o aparelho estava desligado.

Estadão
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