Fed deve manter juros conforme guerra no Oriente Médio abala debate sobre política monetária
As autoridades do Federal Reserve, reunidas em um cenário de guerra que começou há menos de três semanas, devem manter a taxa de juros nesta quarta-feira, mas, mais significativamente, devem detalhar em um novo comunicado de política monetária e em novas projeções como sentem que a decisão do presidente Donald Trump de lançar um conflito aberto e sem prazo definido contra o Irã redefine as perspectivas para a economia dos Estados Unidos, a inflação e a política monetária.
Não há apostas seguras e, sem um ponto de parada claro para a campanha de bombardeio dos Estados Unidos e Israel, economistas dizem que os impactos domésticos e globais dependem de quanto tempo a guerra vai durar, da estrutura de qualquer governo iraniano que surja ao final dela e se os preços do petróleo subirão ainda mais além de US$100 por barril ou se recuarão logo para os níveis anteriores à guerra, abaixo de US$80.
O preço médio da gasolina nos EUA era de US$3,79 por galão na terça-feira, mais de 25% mais alto do que antes da guerra, de acordo com dados do grupo de defesa dos motoristas AAA. Por sua vez, vários outros preços podem aumentar: as companhias aéreas começaram a alertar sobre a alta dos custos de viagem com o aumento do preço do combustível de aviação, e uma autoridade da Casa Branca disse que os EUA estavam buscando outras fontes de fertilizantes agrícolas.
À medida que os consumidores lidam com os preços mais altos relacionados ao petróleo, eles podem cancelar compras ou tentar reduzir totalmente os gastos, enquanto os parceiros comerciais dos EUA na Europa enfrentam um choque inflacionário ainda mais acentuado.
Para o Fed, a perspectiva deixou de ser a confiança no crescimento econômico estável e na desaceleração da inflação e passou a ser um cabo de guerra entre pressões de preços potencialmente crescentes e novos riscos para o crescimento e o mercado de trabalho. As autoridades do banco central dos EUA apresentarão suas melhores estimativas sobre o que vem pela frente por meio de sua decisão de juros, do comunicado de política monetária e das projeções trimestrais atualizadas às 15h (horário de Brasília). O chair do Fed, Jerome Powell, dará uma coletiva à imprensa cerca de meia hora depois.
Diane Swonk, economista-chefe da KPMG, disse em uma análise feita na semana passada que o momento parece propício para que as projeções atualizadas do Fed se movam em uma direção estagflacionária. Ela disse que espera que uma inflação e desemprego mais altos sejam previstos para o final deste ano, e que a perspectiva para a taxa de juros seja ainda mais dividida entre as autoridades do banco central que defendem cortes para manter o mercado de trabalho nos trilhos e aquelas que defendem a manutenção de uma política monetária apertada - ou até mesmo a sugestão de aumentos com uma perspectiva de juros mais altos no final do ano.
"As previsões estão sendo feitas em meio a uma nuvem de incerteza. Eu esperaria que os participantes da reunião reduzam suas avaliações de crescimento, enquanto aumentam suas estimativas de inflação e desemprego", disse Swonk.
"O 'gráfico de pontos', que inclui as expectativas dos participantes quanto a aumentos ou cortes nos juros, provavelmente mostrará um pouco de ambos", com prováveis dissidências a favor de cortes por parte daqueles que acham que o Fed não deve ficar parado, mantendo os custos dos empréstimos estáveis em meio a um crescimento do emprego fraco e talvez em queda, e as projeções dos membros mais "hawkish", contemplando um aumento nos juros antes do final do ano.
A guerra do Irã marca o segundo choque potencialmente estagflacionário que Trump provocou nas perspectivas do Fed, já que, há um ano, os banqueiros centrais também consideraram as propostas tarifárias do novo governo como um golpe tanto para o crescimento quanto para os preços.
Embora o impacto inicial das tarifas de importação não tenha sido tão severo quanto o esperado, as empresas disseram que ainda estão no processo de repassar os custos mais altos, fato que já fez com que as autoridades, na reunião de 27 e 28 de janeiro do Fed, discutissem a possível necessidade de aumentos nos juros em vez de cortes.
O novo comunicado de política monetária será lido com atenção em busca de sugestões de que a política do Fed agora é "bilateral", com o próximo movimento nos juros sendo potencialmente um aumento.