Troca de instituição exige esforço para se adaptar

Fazer novos amigos e se sentir acolhido já é uma dificuldade, que ganhou mais um componente: a distância de aulas remotas

19 out 2020
05h11
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Uma mudança de endereço, uma dificuldade de aprendizagem, a busca por mais desafios ou por valores semelhantes aos da família. Os principais motivos que levam pais a trocar os filhos de escola não se alteraram durante a pandemia. Tampouco acabou a necessidade de um acolhimento para o aluno novo da turma.

A diretora pedagógica do Colégio Vital Brazil, Suely Nercessian Corradini, sente que ano a ano as famílias estão se preparando melhor para o processo de troca de colégio. "Elas vêm trazendo perguntas mais refinadas. E sempre perguntam sobre como vai ser o acolhimento, tanto para os pequenos quanto para quem chega ao ensino médio", conta Suely.

Segundo a educadora, os pais estão certos e devem mesmo se preocupar com a integração social mesmo com os mais velhos."O maior medo de quase todos é passar o intervalo sozinho nos primeiros dias", diz.

Para que todos fiquem tranquilos, a escola tem um projeto de "tutoria", pelo qual o professor faz algumas dinâmicas para receber o aluno novo logo no primeiro dia, e algum colega de classe fica responsável por convidar o novato para tomar lanche junto. Durante as aulas remotas, em vez de companhia no recreio, os tutores têm procurado se aproximar oferecendo ajuda ao novo aluno nas tarefas e nos trabalhos em grupo.

Paciência

Claro que sempre houve crianças mudando de colégios no meio da jornada, mas há fatores culturais da atualidade que contribuem para que as trocas sejam mais frequentes. "Em outras épocas, as pessoas não tinham tantas opções. Também há certo imediatismo para tudo, e as pessoas não ficam com paciência para um processo mais longo", diz Lucila Sarteschi, coordenadora de ensino fundamental no Colégio Renascença.

Quando as mudanças são muito frequentes, é um sinal de alerta. "Se a criança pula de escola ano após ano, geralmente está com alguma dificuldade de aprendizagem. É natural que os pais mudem até achar a escola certa, uma que os abrace", afirma Lucila.

A coordenadora lembra, porém, que o mais comum ainda são os pais que procuram uma formação do começo ao fim da escolaridade obrigatória. "Nosso padrão é de alunos que entram antes mesmo de falar e saem daqui para a faculdade. Existe um projeto de formação de vida", diz.

Durante vários anos, Loretta Nigri quis que as filhas, Rachelly e Tiffany, de 12 e 8 anos, frequentassem uma escola bilíngue, para terem domínio do inglês. Embora todas gostassem do colégio, a mãe achou que este ano era hora de elas estudarem em uma instituição com valores judaicos - e as transferiu para o Renascença. "Sei que elas estavam felizes na outra escola, mas minha mãe e eu estudamos no Renascença; era importante elas também terem esse percurso. Escolhi a tradição e a cultura", explica.

As meninas tiveram apenas 40 dias de aulas presenciais, até as escolas serem fechadas. Ainda assim, a integração deu certo. "Elas encararam a mudança animadas e curiosas. A escola foi acolhedora. Hoje elas já têm um círculo de amizades com os colegas de classe, ainda que virtual", conta a mãe.

DEPOIMENTO - Raquel Rocha, mãe de Henrique, Eric e Júlia

'Tive de escolher virtualmente'

"Morávamos nos Estados Unidos e meu marido recebeu uma proposta de trabalho para voltar ao Brasil. Somos uma família que se muda bastante, as crianças já viveram em Minas; agora iríamos para São Paulo. Decidimos nos mudar antes de saber da pandemia. A mudança seria em maio, mas tinha me programado para visitar escolas em São Paulo em março. Não foi possível.

Tive de fazer todo o processo da escolha da escola virtualmente. Procurava uma com bastante tempo de inglês, para meus filhos não perderem o contato com a língua. Também queria algo diferente da metodologia tradicional. Pesquisei na internet e cheguei a quatro escolas. Perguntei para pessoas que eu conhecia na cidade. Três me falaram muito bem do Castanheiras.

Isso pesou bastante. Mas o que me fez decidir foi a receptividade que senti desde o primeiro contato. Fizeram uma visita virtual e explicaram as rotinas. Depois os coordenadores se reuniram com cada uma das crianças, para que conhecessem a escola, perguntassem o que quisessem.

No primeiro dia de aula, apesar de toda a distância, os professores fizeram com que se integrassem às turmas. Eles começaram no Castanheiras quando a gente ainda estava fora do País. Até conseguir voo foi complicado. Como o ano letivo no Brasil e nos Estados Unidos é diferente, nem sabia em que série entrariam. Minha caçula não lia nem escrevia em português. Mas estão indo bem. Tenho abertura para falar com professores e coordenadores, e está ajudando na adaptação."

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