Sindicato orienta suspender rodízio de estudantes e escolas debatem plano para priorizar alunos

Recomendação é para receber os estudantes que mais precisam; colégios devem focar nos alunos mais novos

3 mar 2021
16h21
atualizado em 4/3/2021 às 09h17
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Com o agravamento da pandemia e recomendações para atender só os alunos que mais precisam, colégios particulares de São Paulo já debatem, internamente, mudanças em seus planos de atendimento e há até colégio que estuda interromper as atividades. O sindicato que representa as escolas privadas orienta que suspendam o rodízio de estudantes e passem a receber apenas os que mais necessitam das aulas presenciais. Parte dos pais que mandou os filhos para a escola no mês passado decidiu vetar o retorno pelo menos por enquanto.

O anúncio do governador João Doria (PSDB) era aguardado pelos colégios desde o início da semana. O crescimento do número de internações no Estado elevou o temor de que as escolas pudessem ser fechadas para conter a disseminação do coronavírus, o que não ocorreu. O governo estadual decidiu colocar todo o Estado na fase vermelha nas próximas duas semanas, em que só são permitidas as atividades essenciais, mas manteve as escolas abertas.

Apesar de permitir as aulas presenciais, o secretário Estadual de Educação, Rossieli Soares, fez um apelo para que os colégios atendam apenas os alunos que mais precisam. Ele citou a necessidade de atendimento presencial aos estudantes em fase de alfabetização, aos anos iniciais do fundamental e àqueles com dificuldades emocionais. O porcentual máximo de 35% da capacidade fica mantido. Escolas particulares de todo o Estado receberam a orientação de colaborar para evitar aumento de contaminações, mas não haverá regras gerais para definir quais são os alunos com maior necessidade.

O Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeesp) vai orientar que as escolas deixem de fazer rodízio entre todos os estudantes que querem frequentar as aulas e passem a focar apenas naqueles que mais precisam de atendimento presencial. Em fevereiro, a volta às aulas presenciais teve alta adesão dos pais e, para atender a todos, as escolas escalonaram os alunos, que passaram a frequentar o colégio apenas alguns dias na semana. Algumas escolas, por exemplo, conseguiram atender 80% dos seus alunos com aulas presenciais em esquema de rodízio.

"Agora, vamos priorizar a criança que realmente precisa, que o pai tem de trabalhar, que tem de deixar na escola", diz Benjamin Ribeiro, presidente do Sieeesp. Ele também destaca que deverá ser dada prioridade aos alunos até 9 anos de idade, que são os que têm mais dificuldades de interagir com a tecnologia. Já a maioria dos estudantes do ensino médio poderia, segundo ele, permanecer em casa em um primeiro momento. Para Ribeiro, é importante que as escolas sigam as orientações para evitar o fechamento em caso de lockdown.

Segundo Arthur Fonseca Filho, diretor da Associação Brasileira de Escolas Particulares (Abepar), as escolas estão reunidas para redefinir seus planos e devem cortar atividades secundárias, além de reforçar os cuidados com o cumprimento dos protocolos. Escolas com atividades em dois turnos, por exemplo, devem reduzir o atendimento. Também há a possibilidade, segundo Fonseca Filho, de que as unidades priorizem a educação infantil, que tem mais dificuldades com o modelo remoto.

No Colégio Uirapuru, em Sorocaba, dirigida por Fonseca Filho, todas as atividades do contraturno estarão suspensas a partir de segunda-feira. "É preciso ajustes em uma situação grave", disse o diretor. Na tarde desta quarta-feira, vários colégios faziam reuniões internas para definir o planejamento para as próximas semanas e enviavam enquetes aos pais sobre a intenção de mandar os filhos para a escola. O Colégio Equipe, na região central de São Paulo, já estuda interromper as atividades por alguns dias diante do agravamento da crise. A decisão não havia sido tomada na tarde desta quarta-feira.

Já o Colégio Augusto Laranja, na zona sul, vai reduzir o número de alunos que podem ir à escola e os horários das aulas. A escola trabalhava com porcentual de 50% e, agora, passará aos 35%, dando prioridade aos estudantes mais novos. Parte dos alunos que entrava às 7h30 e saía ao meio-dia vai deixar a escola 40 minutos mais cedo. A redução de horário é para evitar encontros entre estudantes na saída da escola.

"Vamos viver duas semanas difíceis, mas precisamos superá-las como um desfaio coletivo para voltar depois disso tudo e retomar essas atividades da maneira mais segura", disse o gestor Gustavo Laranja. Para definir quais estudantes poderão ir ao colégio, a escola pretende avaliar a necessidade e também estima redução na demanda com o agravamento da pandemia. "Com esse cenário ainda mais preocupante, quem fez a indicação de mandar os filhos pode ter uma nova leitura dessa situação. A demanda deve diminuir na semana que vem."

Segundo o secretário Rossieli Soares, cada unidade, em conversa com os pais e os professores, deve definir quais serão os alunos prioritários. Para a rede estadual, Rossieli estabeleceu que deverá ser dada prioridade aos estudantes mais vulneráveis e com dificuldades de aprendizagem. O Colégio Cantareira, na zona norte da capital, por exemplo, enviou comunicado aos pais para que se manifestem sobre "a real necessidade de virem para a escola neste momento crítico". As respostas vão orientar a reorganização das turmas. O Oswald de Andrade, na zona oeste, também deve fazer pesquisa com as famílias.

"Acreditamos que teremos um número de crianças que precisam vir para a escola porque alguns pais necessitam mandá-los e esse número deve ser maior entre os os menores", diz Soraya Ferreira de Andrade, coordenadora do ensino fundamental 2 e médio do Colégio Cantareira. Ela estima redução de 10% em relação ao número de alunos que já estava frequentando a escola.

As filhas da designer Camila Muffo, de 42 anos, fazem parte do grupo que não deve voltar à escola pelo menos nos próximos dias. As meninas, de 5 e 9 anos, retomaram as aulas presenciais depois que a família fez uma avaliação dos riscos. "Assumimos os riscos para priorizar os estudos", conta Camila. A decisão de suspender o retorno agora, diz, foi tomada, "com dor no coração" para reduzir a circulação de pessoas pela cidade. Camila trabalha de home office e consegue manter as crianças em casa. A família deve analisar os índices de contaminação para reavaliar a decisão, recebida com choro pela mais nova.

Como Camila, outros pais de alunos que voltaram a frequentar a escola em fevereiro já recuam da decisão de permitir o retorno diante do agravamento da pandemia. É o caso de Christina Borten, de 44 anos, que incentivou o filho mais novo, de 13 anos, a voltar para o Colégio Equipe, em função da necessidade de socialização. "Mas a situação mudou muito, tem cidades no Brasil que estão em fase preta, que eu nem sabia que existia."

Ela pesou o fato de que a ocupação dos leitos de UTI está alta e considerou que, em prol da saúde coletiva, poderia manter o filho em casa. "A diferença da semana passada é que uma pessoa que agora precisa de algo no hospital tem menos chance de ser atendida." Christina escreveu uma carta à escola manifestando apoio caso o colégio decidisse fechar as portas neste momento. Segundo o Equipe, apenas nesta semana, três famílias optaram por esperar para enviar os filhos.

Outros pais pretendem continuar mandando os filhos para a escola. O empresário Paulo Miguel Pinheiro, de 55 anos, diz não ter a intenção de suspender as aulas presenciais dos filhos de 12 e 5 anos. "Além de achar que é benéfico, é uma necessidade primordial para nós", disse Pinheiro. Ele e a mulher trabalham fora e não teriam com quem deixar o mais novo caso a escola fechasse.

"Nós dois trabalhamos fora, muitas vezes até um pouco depois do horário por conta do trabalho. É fundamental para nós que a escola continue recebendo as crianças", afirma ele. Os filhos estudam no Colégio Magno, na zona sul da capital. O mais novo tem aulas todos os dias e a mais velha, aulas semanais. Pinheiro também vê benefícios ao emocional das crianças. "Ele é pequeno convivendo com adultos, o nosso linguajar é de adultos e nossa paciência também. Em casa, meu filho ficava saturado, ficava muito tempo na internet, na TV. Na escola, fica o dia inteiro longe das mídias."

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Estadão
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