Sacrifícios Humanos

10 mar 2019
16h24
atualizado às 16h27
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“Como moscas para garotos travessos, assim somos nós para os deuses; eles nos matam para o seu prazer”.

Shakespeare

Por meio de um golpe preciso, cirúrgico, a faca do sacerdote-executor rapidamente abria o peito da vítima. Então, dilatando-o, extraía de dentro dele o coração ainda palpitante. A seguir, erguia-o, ainda banhado em sangue, para que o povo aglomerado lá embaixo da pirâmide sagrada o visse. Garantia assim o sacerdote, com aquele gesto, que o sol voltaria a nascer no dia seguinte e que as coisas boas da vida continuariam ocorrendo como sempre.

Foto: Reprodução

Tais holocaustos humanos eram periodicamente reclamados pelo Estado Sacrificial das culturas pré-hispânicas, que se estendiam desde a imponente cidade de Tenochtitlán, no México, até Guaiaquil, no Equador de hoje. Os tétricos espetáculos eram praticados tanto no alto das pirâmides gêmeas de Huitzilopochtli e Tláloc, os deuses da guerra e da chuva dos astecas, situadas na capital dos mexicas, como sobre uma simples pedra circular como se dava em outras regiões.

Na teologia indígena, para a estrela maior voltar todos os dias a nascer e abençoar a terra com seus raios redentores, fazendo o milho crescer, cobrava em troca das benesses enormes porções de sangue humano. Com aquele cerimonial macabro os sacerdotes satisfaziam o tonalli, os espíritos animados que tudo dominava ao redor deles e de quem os astecas acreditavam depender.

Entre seus sucessores modernos surgiu o Estado Tirânico que, não importando o símbolo ou a coloração ideológica, também impôs como sua razão de existir exigir um número impressionante de sacrifícios humanos. A distinção, porém, é que o suplício requerido pela Grande Causa, sustentáculo ideológico de qualquer Estado Tirânico, era feito em segredo, longe das vistas do povo. Os selecionados para o martírio eram, em geral, os que se opunham à tirania ou aqueles a quem ele simplesmente, por um ou outro motivo, desejava eliminar, gente que de alguma forma não se afinavam com o Espirito Oficial. Os inconvenientes então sumiam então na “noite e na neblina”.

Foto: Reprodução

Os sacerdotes-executores do Estado Tirânico eram agentes da polícia política instruídos nas artes de matar com sumário tiro na nuca, ou em operações de morte em massa como ocorria nos grandes campos de extermínio. Para satisfazer o apetite insaciável da tirania por carne e sangue, enquanto ela durava, alimentavam-na com um sem-fim de corpos esfaimados, torturados, seviciados, e, por fim, baleados.

Engana-se, porém, quem acredita que o atual Estado de Direito tenha dispensado a exigência dos sacrifícios humanos, considerando-os aberrações exclusivas dos estados do passado. Ao contrário, o que ocorreu é que o Estado de Direito, abdicando dele mesmo presidir o cerimonial lúgubre, transferiu o punhal ou a pistola das execuções para as mãos privadas. Quem neles faz às vezes de serem seus sacerdotes-executores são os criminosos comuns, assassinos soltos pelas ruas que escolhem suas vítimas aleatoriamente, ao seu bel prazer.

Treinados e instruídos dentro das prisões e logo postos em liberdade por legislações penais licenciosas que teimam em ignorar a existência do mal, ou por simples fuga, sob a bandeira da Ressocialização do Criminoso, eles exterminam democraticamente, a tiros, porretadas ou a facadas, milhares de pessoas por ano. Matam ao seu bel prazer homens, mulheres, crianças, jovens ou idosos. Trucidam-nos na rua, na praça, dentro das casas ou das escolas, nas agencias bancárias ou no interior dos ônibus, na venda da esquina ou no boteco. Para eles, cruéis homicidas, não há um local sacrificial especifico em que devam praticar os crimes, pois eles têm a franquia total dos espaços, pois o Estado de Direito, abre-lhe democraticamente o acesso às ruas.

Para melhor orientá-los no seu oficio de morte, atiçando-lhes e aperfeiçoando-lhes a habilidade, a televisão e o cinema, albergados e protegidos por um entendimento pervertido do direito de livre expressão, garantido pelo Estado de Direito, apontam-lhe todos os dias, a qualquer hora, as mais diversas formas e maneiras de tirar a vida de alguém (calcula-se que nos Estados Unidos os espectadores de televisão estão expostos de 6 a 8 mil assassinatos por mês). Enquanto o Estado Sacrificial dos indígenas exigia, estimou-se, 20 mil vidas por ano, o Estado de Direito do Brasil de hoje não se satisfaz com menos de 40 a 60 mil vítimas, que é a média anual dos assassinados no país. No Estado Sacrificial e no Estado Tirânico o medo vinha de cima, dos aparatos superiores, no Estado de Direito, tão mortífero como os anteriores, o pavor vem de baixo, dos subterrâneos periféricos da sociedade.

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Fonte: Especial para Terra

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