Migração e revolta

12 fev 2019
19h16
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 Ainda que correntes humanas através de épocas imemoriais tenham se deslocada por regiões, continentes, oceanos e mares, as migrações de massas  (Volkerwanderung, em alemão) poucas vezes foram pacíficas. A maioria delas redundou em guerras de rapina ou conquista, deixando permanentes cicatrizes nas terras ocupadas. O caso mais conhecido na historia ocidental foi o das invasões bárbaras ocorridas entre os séculos IV, V e VI as quais, como um aluvião humano  (estimam em seis milhões de germanos), sepultaram para sempre o espantoso Império Romano, punindo a civilização, como disse Voltaire, com o “duplo látego: os bárbaros e os conflitos religiosos”. 

O ataque dos hunos
O ataque dos hunos
Foto: Voltaire

Quando o vagalhão amainou pelos séculos seguintes restaram pequenos reinos em guerra permanente entre si em meio às ruínas de cidades, vilas, aquedutos, palácios, banhos públicos, estádios, arcos do triunfo, fortalezas, templos, e tudo o mais que compunha uma das mais fantásticas organizações sócio-políticas do Ocidente. O império dos Césares estava em escombros. Talvez seja a recordação dessa tragédia ocorrida há quinze séculos atrás - denominada por Gibbon como á pavorosa revolução -tenha deixado profundas marcas no inconsciente coletivo 
dos europeus até os nossos dias.

"Exemplo da sobrevivência deste permanente estado de espírito paranóico ocidental é o famoso poema de Konstantin Kaváfis ‘A Espera dos Bárbaros”: 

O que esperamos na agora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
É que os bárbaros chegam hoje. 
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
É que os bárbaros chegam hoje. 

 

 
 

A grande migração de germanos e de eslavos
A grande migração de germanos e de eslavos
Foto: Voltaire


Ressurgência do antissemitismo

Hitler relata no “Minha Luta” (1925), que até certo ponto da sua vida não abrigara nenhum sentimento antissemita em especial. Era-lhe indiferente. Tudo mudou quando ele ainda jovem vindo de Linz para Viena , em 1907, deambulando pela capital imperial deparou-se com as praças repletas. Era uma multidão de judeus que as ocupavam.  Estavam acampados nelas pelo simples motivo de não terem outro abrigo. Pobres, maltrapilhos, esfaimados, o sofrido aspectos deles lhe provocou imediata repulsa. Certamente entendeu que aqueles pobres diabos nada tinha a haver com a população alemã, majoritária na metrópole dos Habsburgos.

Eles, aquela massa em trapos pretos, viera da Rússia Czarista foragida dos pogrom provocados pela Centúria Negra (Tchernosotentsi),  Organização semi-clandestina de defensores do regime do czar, uma espécie de Ku Klux Klan russa. 

Com o fracasso da revolução de 1905, com Nicolau II recuperando a autoridade em seguida ao vagalhão revolucionário ter sido contido, os judeus foram apontados como os instigadores do motim civil que se esparramou pelo país. Prova disto, era o número impressionante de intelectuais e revolucionários judeus que se envolveram no levante. O que confirmava as páginas do opúsculo “Os protocolos dos sábios do Sião “ ( panfleto apócrifo editado pela policia política do czar, a Okrana  denunciando o complô semita para dominar o mundo). Foi o que bastou para as centúrias e organizações correlatas devastar os bairros judaicos e as indefesas pequenas cidadezinhas (sthetel) do interior russo. 

O sinal já havia sido dado já em 1903, com o terrível massacre de Kishinev, capital da Bessarábia, e,  repetido em 1905 ocasião em que a turba liderada por padres ortodoxos e agentes czaristas vitimou o “povo do livro”  somando às centenas os mortos, feridos e desaparecidos  (o fato provocou enorme repercussão no Ocidente, condenando o regime do czar como primitivo e bárbaro).

A turba antissemita marcha para o massacre.
A turba antissemita marcha para o massacre.
Foto: Voltaire

Efeitos da migração


Não tendo para onde ir, os judeus adentraram nas terras dos Habsburgos em busca de segurança. Mal sabiam eles que lançaram as sementes de um reviver do antissemitismo que uns decênios depois se tornou num monumental genocídio. Além disso, como uma espécie de preliminar da liberação do ódio, uma histérica literatura antissemita difundiu-se tanto na Áustria como na Alemanha.


No Presente

 A sensação que muitos europeus, particularmente na Itália, na Espanha, na França, Alemanha, Escandinávia e Grã-Bretanha, Turquia e Grécia, têm sofrido deve-se a enorme onda de refugiados que atinge os seus portos. Desta feita não vieram do leste europeu como ocorreu na época os bárbaros, e sim da travessia do mar Mediterrâneo. Todos os tipos de embarcações aventuram-se nas mais precárias condições para alcançar a salvação de africanos e árabes. Lançaram-se em dois braços, o do Mediterrâneo, das Ilhas do Egeu e o do planalto da Anatólia (predominantemente sírios), rumo à Europa central.  Fogem da fome, da violência dos conflitos tribais, e da imemorial miséria daquelas áreas estéreis, desérticas e infelizes.

Responsabilidade

Estaria a Rússia equivocada em responsabilizar a política neocolonialista dos Estados Unidos adotada com particular vigor após os atentados às Torres Gêmeas e ao Pentágono, em 2001? Ocasião na qual o presidente G.W. Bush decidiu invadir o Afeganistão e, em seguida, atacar e ocupar o Iraque, a presença da força militar americana destruiu o frágil equilíbrio da “ecologia política” do Oriente Médio. 

Em decorrência dela não tardou para que as tiranias árabes por igual fossem afetadas (a revolta da dita ‘Primavera àrabe’ começou na Tunísia, em 2010, estendeu-se ao Cairo, a Trípoli, Damasco, alcançando até Sanaa no Iêmen). O repentino desaparecimento dos regimes autoritários em grande parte do Oriente Médio que forneciam uma barreira às migrações vindas da Àfrica Subsariana, foi uma espécie de desabar dos obstáculos. 

A desordem passou a imperar naqueles países que derrubaram seus tiranos gerando um clima de ‘terra de ninguém’. Em alguns casos como o da Líbia, o duro regime do coronel Kadafi viu-se substituído por intensa guerra civil de grupos tribais rivais. O caos reinante tornou o país ‘passagem’ para os que se atreviam desesperados em cruzar o deserto do Saara. As cenas desde então se pareceram – as marchas da miséria - ao êxodo dos povos bíblicos.

A ambigüidade da reação européia

Num primeiro momento houve sincera comiseração dos europeus frente à tragédia de grandes dimensões que assolava seus portos no Mediterrâneo,  acelerada a partir de 2015. A maior migração desde o fim da II Guerra Mundial. Milhares de homens, mulheres, idosos e crianças se apegavam aos inseguros barcos que os transportavam para o consideram a Terra da Promissão, a Europa rica e bem posta na vida. Os governantes ficaram perplexos. Mais e mais gente desembarcava nos portos mediterrâneos sem ter idéia do que os aguardaria, qual seria seu futuro. A globalização e a União Européia fragilizaram o rigor das fronteiras, deixando-as porosas e fáceis de ultrapassar. Além disso, a ideologia dominante dos Direitos Humanos impediu que os governos tomassem medidas mais rigorosas para deter a maré montante. O resultado deste fracasso não tardou em surgir
 
 

Socorro aos desesperados
Socorro aos desesperados
Foto: Voltaire

Reação xenófoba

 Praticamente em toda Europa, não só na Ocidental como na Europa Central pulularam partidos ou organizações antimigração, lideradas por políticos direitistas. Mesmo na Alemanha com seu passado marcado pelo racismo e intolerância ao estrangeiro, não se evitou o surgimento do Partido Alternativo para Alemanha (AfD, neonazista); na França faz tempo que o Front Nacional apresenta-se como crescente possibilidade de alcançar o poder; na Áustria o Partido da Liberdade (FPO) compõe o governo atual; no Reino Unido o Partido da Independência da UK (UKIR), chegou a desbancar o dos trabalhistas, que há um século disputa eleições nacionais; na Holanda é o Partido para a Liberdade , o Party voor de Vrijheid (PW), na Itália é a vez da Liga Norte ocupar o estratégico ministério da defesa; enquanto que na Hungria é a união cívica (FIDEZ) do primeiro-ministro ultranacionalista Viktor Orban quem mobiliza a reação antimigração. (*)

(*) Os europeus reclamam que os refugiados árabes e africanos não têm nada em comum com os valores vigentes em seu país. A maioria é de muçulmanos ou de fetichistas, são analfabetos e provém de áreas rurais paupérrimas os desabilitando a viver nas sociedades urbanas e industrializadas avançadas onde procuram abrigo, Não há entre eles e os europeus nenhum ponto em comum a não ser a identidade humana.


Deste modo, reproduz-se hoje a conflituosa relação dialética entre a multidão de refugiados e seus inimigos que tantas vezes infelicitou o Velho Mundo. Irônica e tristemente os que procuram por todos os meios escapar do horror em que viviam promovem com o êxodo em massa uma crescente e generalizada hostilidade a sua presença. Tão dilaceradora tem sido esta catástrofe humana que a própria política européia de união e integração começa a apresentar preocupantes rachaduras numa organização que até então parecia fortalecida e sólida. 

A aprovação dos britânicos do BREXIT que os afastará da Europa, e as negativas de alguns chefes de estado a aceitar cotas de imigrantes, particularmente os do leste, em seguir o determinado pela União Européia apontam para a gravidade do impacto causado pela questão da migração. 

Sintoma desta tensão na literatura é o livro de Michel Houllebecq, escritor francês de grande sucesso, militante anti-muçulmano, herdeiro ideológico do direitista Céline, “Submissão” (Submission), de 2015, denunciando a negligência das autoridades frente ao “perigo muçulmano” e a instável situação do país frente às levas de “bárbaros” . Segundo um editor parisiense, o romancista reabre o espaço da literatura direitista francesa que desde o fim da IIGM recolhera-se, esquecida (alias.  um dos fenômenos que ocorre hoje  é a republicação em Paris de autores fascistas que há muito haviam desaparecido de circulação) .


O Muro de Trump

Bem longe da Europa, há 6.000 km de distância, é os Estados Unidos quem cotidianamente estão envolvidos na ‘questão da migração’. Terra que sempre foi ao longo dos três séculos amparo dos desvalidos do mundo todo, a América sente-se assediada tanto pela recente pressão da chegada dos vindos da Oriente Médio ( foragidos do caos lá reinante desde a invasão de 2001-2003) como pela penetração dos ‘latinos’ ou ‘hispânicos’, habitantes do México, da Centro-América e da Venezuela, atormentados pela estagnação econômica, pelo baixíssimo padrão de vida, pela ausência de esperança de melhorias, em meio a desatinada  violência epidêmica que infelicita toda a região motivada pelas transações com drogas e outras tantas calamidades. Novas marchas bíblicas, a mais recente partido de Honduras, em 2018, pretendem penetrar a Terra da Promissão pela fronteira mexicana.

A disseminada sensação de desconforto com a presença dos ‘latinos’, apontados como os principais agentes do tráfico e do crime (formam 47 milhões ou 19,1% da população americana total), fez aflorar e projetar a imagem do empresário Donald Trump, eleito presidente em 2016 com a bandeira da antimigração. O propósito dele não se limita em reforçar as leis contra a presença dos ilegais e ameaças de expulsão. 

Foto: Voltaire

Durante a campanha eleitoral, retomando um propósito da presidência de George Bush, anunciou a construção de um muro – O Trump’s Wall -  ampliado na fronteira com o México que teria a extensão de 3.201 km. e um custo de U$ 5 bilhões. Partindo do Golfo do México pretende atingir o Oceano Pacífico na Califórnia. O espírito é o mesmo do erguimento da Muralha da China, proteger-se dos ‘bárbaros’.

 A resistência feita pelos democratas deve-se à obediência à tradição americana do país ser o refugio dos “bons e dos justos”, somada à compaixão cristã de mais de quatro séculos de acolhimento de migrantes de todo o mundo. Construir um muro simbolicamente significa uma grave e irreparável cisão na história do país  e uma ofensa à globalização.

Fonte: Especial para Terra

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