Rússia soviética Etapas Históricas IV: o futurismo

19 dez 2017
12h00
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Marinetti, o poeta ideólogo do Futurismo, foi convidado pela Sociedade da Liberdade Estética de Moscou a realizar um espetáculo nos começos de 1914. O seu desempenho angariou críticas dos que já posavam como os futuristas russos: Vladmir Maiakovski, David Burlyuk, Vasily Kamensky, Velimir Khlebnikov e Aleksey Kruchenykh (inventor do Zaum, experimentos lingüísticos baseados em neologismos, assonâncias, combinações ilógicas e  combinações de palavras e sons, denominados transracional e transmental, aplicados à fala russa um tanto como Marinetti o fez com o italiano).

O camponês (Malevich)
O camponês (Malevich)
Foto: Divulgação
V.Maiakovski (1893-1930)
V.Maiakovski (1893-1930)
Foto: Divulgação

Integrantes do grupo Hylaens, atrevidos, todos eles já haviam cerrado fileiras atrás do poema-manifesto de Maiakovski, escrito em 1912,  intitulado uma ‘Bofetada na cara do público’ que, provocador, lançado para escandalizar os russos, os conclamava ‘a jogar para fora do convés do navio a vapor da modernidade’, Pushkin, Dostoievski, Tolstoi, e outros nomes das letras nacionais... Para Maiakovski a arte era um instrumento de guerra, um martelo para forjar o futuro, sendo o poeta uma estrela a alumiar o caminho:

"Brilhar para sempre,/
brilhar como um farol,/
brilhar com brilho eterno/,
gente é para brilhar/,
que tudo mais vá para o inferno/,
este é o meu slogan
e o do sol."

Os futuristas russos, autodenominados budietliánie, irmanavam-se deste modo ao italiano na guerra aberta contra o que era passado e no desprezo à solenidade e ao acadêmico. Ainda que oposto ideologicamente a Marinetti (que, mais tarde,  tornou-se um entusiasta do fascismo), Maiakóvski se parecia a ele no gosto pelo espetacular, pelo recurso à modulação da voz e pela presença eletrizante com que dominava inteiramente o público durante suas apresentações. E, por certo, a mesma intenção de chocar a todos, como com o seu famoso poema ‘A nuvem de calças’ (1915).

Desde os 19 anos o poeta realizava apresentações sensacionais pelos teatros, cabarés artísticos e porões enfumaçados  de Moscou onde costumeiramente, vestindo uma escandalosa camisa amarela, além de ser maltratado pela crítica, era apupado e vaiado pelo público, a quem não tinha travas em ofender.

Arrogante, o colega dele David Burliuk, anunciava:

"Somos pessoas da nova e moderna humanidade, somos os mensageiros da verdade, os pombos da arca do futuro; somos obrigados a abrir uma nova vida à faca no ventre do burguês e do pequeno burguês. Somos os revolucionários da arte, temos que entrar na vida das ruas e das praças, devemos levar protestos por toda parte..."( in ‘Maiakovski, poeta da revolução’, pag. 107/8).

A eles aderiu o pintor cubo-futurista Kasimir Malevitch que, logo em seguida, em 1915, se inclinou pelo Suprematismo (‘eu apenas sinto a noite dentro de mim, e foi então que eu concebi uma nova arte a qual denominei de Suprematismo’). Do mesmo modo que Maiakovski assumiu a liderança dos poetas Futuristas,  Malevitch viu-se o chefe das escola de pintores  que consagrou nomes como os de Olga Rozanova, Aleksandra Ekster, Liubov Popova, Ksenia Boguslavskaya, Ivan Kliun e Ivan Puni. Todos envolvidos pelos mesmos princípios estéticos e na missão de ‘superar a velharia’.

Bofetada no Gosto do Público

Somente nós somos o rosto do nosso tempo. (...)

Ordenamos que se respeite o direito dos poetas:

1 - a ampliar o volume do vocabulário com palavras arbitrárias e derivadas;

2 - a odiar sem remissão a língua que existiu antes de nós;

3 - a repelir com horror da própria fronte altaneira a coroa daquela glória barata que fabricastes com as escovas de banho;

4 - a estar fortes sobre o escolho da palavra ‘nós’ num mar de assobios e de indignações.

E se em nossos rabiscos ainda restam rastros do vosso ‘bom sentido’ e do vosso ‘bom gosto’, nestas, todavia, já palpitam, pela primeira vez, as lâmpadas de nossa futura beleza da palavra autônoma.

O sucesso do Futurismo

Chama a atenção o fato do Futurismo ter angariado sucesso justamente em países periféricos aos centros mais desenvolvidos como era o caso da Itália e da Rússia. E a explicação sociológica disto é relativamente fácil. O discurso pró-modernidade somente poderia ter ressonância em países atrasados, fortemente marcados pela sobrevivência do feudal.

A um norte-americano, por exemplo, nascido e criado em meio aos arranha-céus de Chicago ou de Nova York,  vendo desde criança as ruas apinhadas de automóveis e outros veículos a motor, não tinha nenhum sentido fazer uma exaltação específica à modernidade. Eles já a viviam. Convencer um americano das conquistas do modernismo era jogar tempo fora ( o que, entretanto, não impediu que exposições do gênero viessem da Europa para serem vistas em Nova York).

‘Autoretrato’ de Kasimir Malevitch, 1933
‘Autoretrato’ de Kasimir Malevitch, 1933
Foto: Divulgação

Somente artistas e intelectuais de paises onde a antiguidade e o medievo ainda se faziam pesadamente presentes e o atraso era geral  é que poderia haver entusiasmo com os engenhos recém inventados e  assombro com as inovações tecnológicas.

Entre eles, italianos e russos, é que o radicalismo contra o que era antigo tomou vulto. As sagradas catedrais, os museus, as galerias, as famosas academias, os nomes ilustres das artes clássicas e das letras nacionais, tudo isso, tal “retórica passadista”,  foi entendida pelos Futuristas como opressiva e merecedora de ser descartada.

Era como se suas nações estivessem enredadas por enormes teias de aranhas e bolor de mofo  impedindo-as alcançar os novos tempos dominados pelas máquinas, pela volúpia da aceleração e euforia pela tecnologia. Que tudo aquilo do passado fosse destruído, que tocassem fogo naqueles prédios vetustos e tumulares, que se esquecessem dos quadros famosos e que se apagasse a literatura conhecida ou que toda ela fosse arremetida para a lixeira da história.

De certo modo, tanto Filippo Marinetti como Vladmir Maiakóvski eram intelectuais fáusticos que procuravam romper com as limitações dos espaços estreitos, os ‘abafados covis’ em que viviam, ‘cercados pelo resíduo imundo’, tentando ‘fugir para a luz’. Queriam era se  abrir para o mundo dando sua alma  em troca das ofertas dos Mefistófeles ideológicos que lhes surgiram em seguida pela frente.

Nada mais próximo a eles do que o dito do agente satânico descrito por Goethe que afirmou: ‘ Eu sou o espírito que tudo nega! E assim é, pois  tudo o que existe merece perecer miseravelmente.”  (Goethe – Fausto I)

A inclinação dos Futuristas italianos pelo fascismo e dos seus congêneres russos pelo bolchevismo foi  conseqüência lógica deste posicionamento simultaneamente destrutivo e revolucionário. Aliaram-se com o movimento político-ideológico que, no entender deles, tinha as proposições mais  extremistas e eficazes  em liquidar com o passado e assumir a Era Moderna na sua totalidade. Lenin e Mussolini   eram os tiranos da modernidade.(*)

(*) Maiakovski compôs o poema ‘Vladmir Ilitch Lenin’, em 1924, celebrando o líder recém falecido. Nada mais futurista do que o slogan de Lenin:  sovietes + eletricidade = socialismo

Marinetti, por sua vez,  descreveu o Duce, ‘ o futurista ideal’, com  «maxilas quadradas, crispadas, lábios proeminentes, desdenhosos, que escarram com soberba e agressividade sobre tudo o que é lento, pedante e choramingas’.

V.I.Lenin
V.I.Lenin
Foto: Divulgação
B.Mussolini
B.Mussolini
Foto: Divulgação

Leon Trotski, num artigo especial que dedicou ao Futurismo ( in Literatura e Revolução), ainda que simpático ao impulso revolucionário e irreverente deles, criticou-os acerbamente quanto a indiscriminada hostilidade ao passado, entendendo-a como fúria de niilistas boêmios. Ressaltou que a política cultural dos marxistas desejava manter um diálogo cultural e permanente com as etapas históricas anteriores preservando o rico acervo delas.

O que os marxistas pretendiam não era a destruição irracional do antigo, mas a ampla distribuição social da grande cultura gerada anteriormente. Grande cultura que até então estava circunscrita a uma elite de aristocratas e burgueses. A maior tarefa  da Revolução de 1917 era democratizar o aceso à herança cultural ocidental e não tocar fogo nela. Afinal, os trabalhadores não liam Puchkin, não entendendo o porquê de apagar o nome dele.

Bibliografia

Berghaus, Günter - Futurism and Politics: Between Anarchist Rebellion and Fascist Reaction, 1909-1944. Providence, RI, Berghahn Books, 1966.

Hewitt, Andrew - Fascist Modernism: Aesthetics, Politics, and the Avant-garde, Stanford, Ca. 1993.

Maiakovski, Vladmir - Poemas – São Paulo: Tempo Brasileiro, 1967,

Mikhailov, Aleksandr – Maiakovski, o poeta da revolução.Rio de Janeiro – São Paulo: Editora Record, 2008.

Schnaiderman, Boris – A poética de Maiakovski através de sua prosa. São Paulo: Editora Perspectiva, 1971.

Fonte: Especial para Terra

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