Rússia Etapas Históricas I: o país soviético

5 dez 2017
11h32
atualizado às 11h35
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Por pouco mais de 70 anos a Rússia passou pela maior experiência de engenharia social que se tem notícia na história da humanidade. Tratava-se não só de dotar o país com uma macro-estrutura energético-industrial para fazer dela uma potência. Insistir numa sociedade da mais absoluta igualdade social e forjar um “homem-novo” livre das influencias religiosas e de qualquer sistema de exploração conhecido (feudal ou semifeudal, capitalista, colonialista,). Era um projeto assombroso entre outros motivos por não haver nenhum exemplo do passado que servisse como modelo a ser copiado. Ninguém, nem bolcheviques nem os outros partidos da esquerda européia, sabia como implantar uma comunidade baseada na solidariedade, fraternidade e na abolição da propriedade. Nem Marx deixou qualquer pista para que seus discípulos russos chegassem a ela (ele sempre se negou “a dar receitas para o futuro”).

Poster revolucionário que retrata manifestações na Praça Voskresenskaya de Moscou
Poster revolucionário que retrata manifestações na Praça Voskresenskaya de Moscou
Foto: Divulgação

O único rasgo sugerido por ele na sua “Crítica ao programa de Gotha” (Kritik des Gothaer Programms, de 1875) era o da “ditadura do proletariado”, período de transição que, superando o capitalismo pela revolução social, garantiria a implantação do tão almejado socialismo, que terrível conseqüência causou.

Sem dar margem a erros, pode-se afirmar que o governo comunista instaurado em 1917 andou às cegas para cumprir o programa idealizado (abolição da propriedade privada, estatização das indústrias, nacionalização das propriedades estrangeiras, comércio e bancos, alfabetização em massa, etc.). Após o Decreto do Poder Soviético sobre a expropriação das terras anunciado um dia após a tomada do poder por Lenin (26.10.1917), erros colossais foram cometidos pelos expoentes do regime, particularmente os promovidos por Stalin durante a sua longa ditadura (1924-1953). A URSS durante algum tempo assemelhou-se a um navio sem bússola que navegava sob impulso do improviso sujeito as mais diversas intempéries, internas ou externas.

De um modo sintético podemos determinar as fases por qual o regime soviético-bolchevique passou nos seus 70 anos de existência na seguinte ordem:

Revolução de Outubro de 1917

Cartaz bolchevique exaltando o soldado vermelho
Cartaz bolchevique exaltando o soldado vermelho
Foto: Divulgação

Sustentado pelas brigadas de operários armados, a Guarda Vermelha, e regimentos de soldados e marinheiros que não queriam mais a continuidade da guerra, Lenin neles se apoio para dar o Golpe de 25 de Outubro (7 de novembro pelo calendário gregoriano atual). Fechou a assembléia constituinte e proclamou o Governo dos Trabalhadores e Camponeses (Rabotche-krest'yánskaya gubernia). Um grande êxodo então se deu. Pessoas talentosas, cientistas, médicos, administradores, gerentes, intelectuais liberais e da esquerda moderada (mencheviques) tiveram que percorrer a triste estrada do exílio. Para muitos, uma condenação perpetua.

Decretos do Poder Soviético deram a dimensão da transformação concebida pelo comitê central bolchevique, o Politburô. O que era privado desapareceu e as propriedades e os investimentos estrangeiros foram expropriados. O novo regime negou-se a pagar as dívidas do czar, o que colou o país na lista dos caloteiros, posição da qual foi removido somente na década de 1960 durante o governo de Nikita Kruschev (1956-1963).

Aos nobres e demais proprietários de terra – as ‘classes espoliadoras’ - só restou a fuga ou o “exílio interno”.

Por negociar a paz a qualquer preço com o II Reich Lenin, acusado pelos mencheviques e social-revolucionários, se viu alvo de um atentado na saída de uma fábrica em Moscou (levou dois tiros, mas sobreviveu com dificuldades até sua morte em janeiro de 1924). Outros bolcheviques por igual sofreram ataques fatais.

Ao colocar o Terror Vermelho, imposto por Félix Dzerjinski, chefe da Tcheka (a policia de combate à contra-revolucão) na ordem do dia, o radicalismo da ação chocou o mundo de então. A revolução russa de 1917 ultrapassava em muito o extremismo da revolução francesa de 1789. Alguns meses depois, a partir de março de 1918, o país se incendiou assolado pela extensão e violência da guerra civil.

Muitos socialistas ocidentais, especialmente para os social-democratas alemães (Karl Kautsy e Rosa Luxemburg) criticaram Lenin apontando-o como introdutor de uma outra forma de opressão substituta do Czarado. O líder bolchevique os repudiou como “renegados”. Já o pensador italiano, o marxista Antonio Gramsci (artigo no Avanti, em abril de 1917) assinalou que a Revolução Russa se fazia “contra o Capital”, no sentido que ela não estava seguindo o processo histórico determinado por Karl Marx: primeiro era preciso haver o desenvolvimento capitalista, em seguida à formação do proletariado industrial e da consciência da luta de classes resultante. O embate entre burgueses e proletários culminaria na tão esperada revolução redentora de toda a humanidade.

Tal exposição da trajetória dos acontecimentos pode ser considerada como “ortodoxa”, ligada estreitamente ao pensamento “convencional” extraído de Marx. Os bolcheviques não respeitaram isto. Portaram-se como uma seita não-ortodoxa, abrindo o caminho de acordo com as circunstâncias que os cercavam naquele momento de rejeição à Grande Guerra (1914-18).

Lenin tinha ciência de que a Rússia não apresentava um desenvolvimento capitalista como havia nos países ocidentais, nem a classe trabalhadora era preponderante (os camponeses é quem compunham 80% da população em 1918, os operários mal perfaziam 3%). Ainda assim acreditava que aquele era o momento. O desespero das massas contra a guerra, o colapso do exército russo e o desaparecimento do Czarado (Nicolau II e sua família foram mortos a tiros em Ekaterinburgo, em julho de 1918, para que não caíssem nas mãos dos “brancos” que lutavam pela restauração imperial) e a fragilidade da economia mundial, criaram as possibilidades para inédita ascensão ao poder de um regime do “proletariado urbano e rural”.

Ainda que durasse pouco, o seu gesto atrevido de empalmar o antigo trono dos Romanov serviria como um exemplo para o proletariado internacional nas futuras revoluções que inevitavelmente seguiriam a russa.

Comunismo de Guerra (1918-1921)

“Novo homem/liberta-te e volta/do espaço da morada universal” - Maiakovski

Envolvido numa guerra civil generalizada - a Grasdánskaia Voind - entre vermelhos e brancos que geograficamente abarcou grandes partes do país (Sibéria, Cáucaso, Ucrânia, Criméia, Russia Ocidental), a situação do Governo Revolucionário agravou-se mais com a intervenção estrangeira. Tropas de 14 nações (entre elas as da Grã-Bretanha, EUA, França, Japão, etc.), num total aproximado de 80 mil homens, ocuparam, entre 1918 e 1920, as bordas ocidentais e orientais do império russo para agir ao lado dos brancos que terminaram derrotados.

Para manter o esforço de guerra tanto os bolcheviques como os monarquistas saquearam a produção rural. O que fosse aproveitável e servisse como alimento foi requisitado. O resultado desta praga bíblica de gafanhotos não tardou. Os mujiques (camponeses), nos dois anos seguintes, entre 1920-1921, cientes que nada receberiam das cidades, passaram a plantar sementes apenas para o seu sustento e dos seus próximos. As vastas extensões da Rússia ficaram reduzidas ao silêncio e os arados trancados nos celeiros ou em paióis aguardando um melhor momento para voltar à ativa. Como registrou o lírico Alexander Blok, "Todos os sons pararam. Você não pode ouvir que já não há nenhum som?".

A fome e seu infeliz complemento de doenças e pestes atingiram o país em cheio provocando mais de três milhões de vítimas. A situação de penúria geral resultava do fato de nada se encontrava para comer nas cidades e menos ainda de manufaturas havia para comprar na área rural. Exemplo infeliz desta situação apavorante foi a morte do já citado lírico Alexander Blok, a quem Gorki considerava o maior poeta vivo da Rússia, por inanição, em 1921, enquanto o canibalismo era praticado nos lugares mais distantes da estepe e da tundra por habitantes reduzidos à loucura. O tifo teve então seu momento de devastação, levando consigo, além de milhares de gente do povo, o jornalista americano John Reed, um entusiasta da revolução (autor do hoje clássico “Os dez dias que abalaram o Mundo”, 1919).

Ao tempo em que tal ocorria, a Rússia revolucionária viu-se isolada do mundo pela política de quarentena idealizada pelo presidente Clemenceau da França. Nem prego, nem grão, nem um modesto empréstimo, poderia afluir para o país dos sovietes.

Para culminar com a desgraça, os marinheiros da base naval de Kronstadt, em Petrogrado, um dos pilares do levante de 1917, tidos por Trotski como “a flor da revolução”, insurgiram-se em março de 1921 contra a situação de privação e pavor submisso em que os russos se encontravam. Exigiram eleições, liberdade de imprensa e de organização. Foram batidos, rendidos e fuzilados. Lenin entendeu o recado, ainda que os vermelhos fossem vitoriosos, havia que afrouxar o terrível garrote imposto pela guerra civil.

Nestes três anos a Rússia, nomeada a partir de 1922 como URSS (União das repúblicas socialistas soviéticas), que passara por três guerras sucessivas - a Grande Guerra, a Intervenção Estrangeira, a Guerra Civil - culminando na epidemia de tifo e outras pragas, estava exaurida. Esforço algum a mais podia ser solicitado ou exigido pelos governantes num quadro de depressão e pauperismo geral. Como observou Isaac Deutscher “o país estava cansado do heroísmo, das grandes visões, das altas esperanças e dos gestos amplos” (in Trotski, vol. 2). A revolução deixara de encantar a milhões, russos e estrangeiros simpatizantes que desembarcaram no país para participar do grande evento. Quando os críticos ocidentais afirmavam que a Rússia implantaram “a socialização da miséria” não estavam longe da verdade. Ponto expressivo do desencanto encontra-se no livro da anarquista báltico-americana Emma Goldman intitulado “Minha desilusão com a Rússia” («My Disillusionment in Russia» , 1923).

Nada mais longe das idealizações de um paraíso dos trabalhadores dos socialistas do século XIX frente à situação concreta apresentada pela URSS no final da guerra civil. Ao invés da opulência alimentar, grassava a carência de grãos e carnes, o despotismo partidário ao invés da democracia impunha-se em todas suas formas, nem liberdade de palavra, imprensa ou sindical eram permitidas, milhares de órfãos reduzidos ao abandono e ao banditismo selvagem perambulavam pelas estepes e matas. O feito de retirar a “nação dos sovietes” do sangrento lamaçal era o grande desafio que aguardava as gerações seguintes.

Num resumo desta época observa-se o desaparecimento do Czarado e da sua máquina administrativa, militar, política e cultural, Ao seu lado, afundando junto, deu-se o sumiço da Igreja Russa Ortodoxa, a mais antiga instituição da Rússia, ocorrendo o saque dos templos por todo o país e a prisão de padres e freiras despojados de tudo. Não foi diferente o destinos dos partidos, tanto os socialistas (mencheviques, esseristas, etc.), como dos liberais (cadetes), dissolvidos ou colocados na ilegalidades. O Partido Bolchevique desde então se assegurou por 70 anos como o único a ter o Monopólio do Poder.

NEP (Novaya Ekonomiceskaya Politika, a Nova Economia Política) 1921-29

“Um passo atrás para dar dois à frente” (Lenin sobe a NEP)

Para acalmar o campo, aquele oceano de 20 milhões de pequenas e médias propriedades lavradas pelo mujique (camponês) e pelo kulak (fazendeiro médio), os comunistas se viram, a partir de 1922, na obrigação de liberar, ainda que parcialmente, a produção rural da camisa-de-força anterior. O efeito logo se fez sentir visto o aumento da área lavrada e da multiplicação dos grãos e carnes. Um ano antes, em 1921, a colheita apontou apenas 50% do que a safra de uns anos antes Para muitos partidários Lenin recuara para um capitalismo tosco, não havendo nenhuma outra solução que equilibrasse a vida economia no momento. A carência de alimentos chegou com força às cidades e logo um mercado negro floresceu, para desespero dos bolcheviques. Era aceitar a NEP ou o imenso império de 20 milhões de km² e com 150 milhões de habitantes estagnaria na mais profunda miséria. Somente Lenin, liderança incontestável poderia levar a diante esta política, ainda que estivesse se recuperando do atentado de agosto de 1918, no qual levou dois tiros e sobreviveu sabe-se lá como.

Lenin e os camponeses
Lenin e os camponeses
Foto: Divulgação

A assim denominada Crise das Tesouras foi apresentada ao Politburô em 1923 por Trotski. O gráfico demonstrou a gravidade da nova crise que se avizinhava. Os preços agrícolas baixaram, mas isto não aconteceu com os da pequena e média indústria, devastada em todas as regiões. As lâminas da tesoura não se aproximavam, ao contrario uma se afastava cada vez mais da outra. A solução seria importar manufaturados da Europa para atender o mercado agrícola mujique-kulak.

Exatamente para evitar isto, o Politbyuro (O Politburô, órgão central do governo, com 7 integrantes) aprovou a estatização do Comércio Exterior, fechando a porta à demanda camponesa. Do mesmo modo os comerciantes e atacadistas europeus não estavam dispostos a ajudar um regime comunista, menos ainda os grandes investidores – a URSS se transformara num país paria, e como tal teria que seguir as aventuras do barão de Münchausen, personagem que saiu dos atoleiros puxando seus próprios cabelos.

Entrementes foi durante os primeiros anos da NEP que Lenin apresentou sinais mais graves de doença. Deixou um esboço – o Testamento de Lenin - dos seus camaradas advertindo-os da  índole brutal da Stalin, não indicando nenhum sucessor, fato que os temperamentos de Trotski e Stalin acirraram ainda mais o problema da nova liderança. Trotski apoiava-se na idéia de que a revolução de 1917 somente poderia ficar em pé se houvesse uma revolução similar no Ocidente. Os bolcheviques, particularmente Lenin, emparelhava-se com Trotski nesta questão. Ocorreu que as iniciativas revolucionárias em Budapeste (Bela Kuhn), Munique (Kurt Eisner) e Berlim (Karl Liebcknecht e Rosa Luxemburgo) fracassaram, esvaziando a posição de Trotski a favor de uma Revolução Permanente que, espalhando-se pelo mundo, soterraria o capitalismo e o colonialismo. Os fatos desmentiram os prognósticos otimistas, e, pior, o insucesso do “Outubro alemão” somente gerou a reação e revolta da extrema-direita com o surgimento dos “Capacetes de aço’” e dos nazistas de Hitler. itlerHitler.

O vazio deixado pela morte de Lenin, em janeiro de 1924, foi ocupado pela troika: o triunvirato composto por Stalin, Zinoviev e Kamenev. Trotski foi hostilizado por boa parte do partido em razão de temeram que ele, o ex-comandante supremo do vitorioso Exército Vermelho (Krasnaya Armyia), virasse num Napoleão, num ditador ou coisa pior. Havia ainda um outro imperativo que afastava Trotski do poder central, era judeu. Ele sabia perfeitamente que um país com antiga tradição de antissemitismo como na Rússia, preconceito arraigado por séculos, não desapareceria com alguns anos de revolução, jamais o aceitaria como chefe supremo. Era um “cosmopolita” como denunciaram seus adversários, enquanto Stalin, tido como medíocre, era percebido por sua simplicidade como mais próximo ao povo, um “russificador” do marxismo adaptando-o as condições da realidade do país, projetando-se como o defensor do “Socialismo num só país” (o que era uma heresia, pois os marxistas sempre afirmaram o internacionalismo do movimento).

Se bem que Zinoviev e Kamenev eram igualmente judeus (Gregory Radomilski e Lev Rosenfeld, respectivamente), nunca chegaram a ser cogitados como líderes nacionais. Stalin, nascido na província da Geórgia, rapidamente vestiu o manto do burocrata grã-russo, autoritário e impiedoso, palatável para a maioria da população exaurida e faminta que aos poucos saía do caos. Trotski isolado foi expulso do Partido Comunista, desterrado para a Ásia Central e, mais tarde, em 1929, para a Europa Ocidental. Terminou seus dias assassinado no México por um agente soviético, em 1940.

No decorrer da estabilização do regime comunista, a ditadura do proletariado transformou-se na ditadura do partido bolchevique, o próximo passo a ser dado era o que Stalin, afastando seus dois parceiros, deu: o ditador submeteu o proletariado, o partido e à nação como um todo.

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Fonte: Especial para Terra

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