O príncipe Harry

24 mai 2018
10h59
  • separator
  • comentários

“Não é sinal de vulgaridade, em mim, ter vontade de beber cerveja fraca?...com certeza meu apetite não é de natureza real, pois não me sai da ideia essa pobre criatura, a cerveja fraca.”

Príncipe Harry – 1ª parte do Henrique IV, de Shakespeare, 1597

Foto: Reprodução

Na corte dos Lencaster davam o príncipe Harry como um caso perdido. O rapaz era um dissoluto. Mais fácil encontrá-lo atrás de um caneco de bebida do que folhando um livro. Sentia-se melhor entre o populacho, tomando canecos nas tavernas do que entre os grandes da Corte. Expulsaram-no do Conselho. O pobre rei Henry IV muito doente, não tinha mais ânimo de colocar  freio e bridão naquele potro inquieto e arruaceiro que tinha como seu herdeiro. O pai achava que aquele filho, “com paixões tão baixas e selvagens” e “ações de tal vileza, impuras”, só podia ser uma punição dos céus.

Para o rei, o rapaz era o seu pior inimigo. Tanto é que o soberano, desgostoso, ainda penalizado no corpo por deformante doença, morreu na Sala de Jerusalém de Westminster, em 1413, como se estivesse, ainda que simbolicamente, em viagem de penitência por ter posto no mundo aquele estabanado. 

Gravidade maior ainda eram as amizades do rebento, as más companhias em que ele andava pelos lugares lúgrubes de uma Londres sórdida. Um bando de desocupados que se arrastava pelas tavernas  chefiado pelo pândego-mor Sir John Falstaff, um irresponsável, um divertido marechal da pirraça e da imprecação, um Sancho Pança criado por Shakespeare para acompanhar com disposição um príncipe aloucado. O rapaz, incorrigível farrista e licencioso, acompanhado daquele escudeiro gorducho e estróina, transformara os becos e vielas da cidade na sua província da Mancha, a qual ele percorria em suas andanças noturnas e dioturnas, com intimidade,  em busca de aventuras mil.

Afora as incontáveis escaramuças de bêbados travadas na Taverna Boar´s Head, a Cabeça do Javali, a maior batalha dos dois, especialmente a de Falstaff,  era com a estalajadeira,  Mistress Quickly, em torno das  eternas dívidas acumuladas por ele em pilhas de canecões de cerveja ingerida e não paga.

O fâmulo do príncipe, não satisfeito em desencaminhar o jovem, ainda lançava mão de todo o tipo de artimanhas para não pagar a pobre mulher um só xelim sequer da sua interminável conta, como ainda tentava convencê-la a ceder-lhe maiores patrocínios ainda. Certa vez, para encanto de Falstaff, Harry, em plena audiência,  esbofeteou o Lorde Juiz que repreendeu-lhe o comportamento, riu à larga do atrevimento do rapaz. Portanto, bem antes de assumir o trono da Inglaterra, o jovem Harry já sabia de cor todos os capítulos do livro do Diabo.

Encarregado pelo monarca de ser um recrutador para suas tropas, o dedo gordo de Falstaff convocava o que havia de pior para a guerra e, por outro lado, com a mão rechonchuda, recebia um suborno daqueles que queriam escapar à ordem unida. Mas, como todo escroque, era um velhaco simpático e alegre que fazia o príncipe chorar de rir e ninguém levava a sério as ameaças do rei em fazer com que o seu corpanzil, inchado pela orgia,  fosse algum dia pendurado na forca.

Imagine-se  a alegria do bufão quando soube que o seu pupilo em libertinagem, o jovem Harry, fora consagrado como novo rei da Inglaterra. Falstaff sentiu-se um filho da Fortuna, o homem de maior sorte em todo o reino, capaz de promover aos céus toda aquela chusma de safados que o acompanhava pelas tavernas. Correu para a abadia de Westminster para vê-lo coroado.  Grande engano. O ex-príncipe, agora rei Henry V, não só o renegou, como ordenou que o desterrassem, acusando-o, a Falstaff,  de ter “incitado-o em seus excessos”. O novo monarca  livrou-se da velha forma folgazã, encarando dali em diante a frieza majestática que todos, a Corte e o povo, esperavam dele. A surpresa foi geral. O príncipe estouvado e lúbrico tornou-se um grande rei, colocado por Shakespeare entre os grande monarcas da Inglaterra.

Pois é justamente a tal príncipe, depois rei guerreiro, vencedor dos franceses em Azincourt durante a Guerra dos Cem Anos, morto faz quase 600 anos atrás, que Harry, o segundo filho do príncipe Charles e da princesa Diana, tem sido comparado pela imprensa inglesa.

O garoto, quando recém completara 17 anos, envolveu-se numa farra com bebida e maconha no pub Rattlebone Inn, em Sherston, perto do palácio rural de Highgrove. Que, diga-se, além de ser um ninho de amores excusos, também ele transformou em abrigo de rodadas de baseado. O príncipe Charles, o pai, escandalizado, obrigou o garoto a fazer uma “viagem de terror” constrangendo-o a visitar várias clínicas de viciados em drogas. Os jornalecos ingleses, desprovidos faz tempo da munição que a falecida Diana lhes oferecia, foram ao delírio.

Arranjaram até um tal de Guy Pelly, um estudante universitário, como um sucessor de Falstaff, apontando-o como o desencaminhador do garoto. Causou furor uma imagem dele numa festa regada à cerveja portando uma braçadeira com o símbolo nazista. Colocaram-no no exército. Sem resultados, Nos últimos dias, ele  foi exposto a outra indeliadeza: fotos em que ele, numa orgia, aparece nu exercendo sua lubricidade principesca com mulheres desconhecidas.   Finalmente a vasta criadagem que habita a Grã-Bretanha, em êxtase,  volta a ter assunto a que comentar e uma razão para viver. O irrequieto Harry acabou de casar, dando alívio aos que estavam na espera de das suas aventuras travessas.

 

Fonte: Especial para Terra

compartilhe

comente

  • comentários
publicidade
publicidade