Londres: a essência das cidades

9 mai 2017
12h52
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A vida nas grandes cidades, especialmente em Londres, quase sempre provocou espanto em seus visitantes. Voltaire, Bernard de Mandeville e Engels, um francês, um holandês e um alemão, em épocas diferentes, deixaram seu testemunho contraditório sobre aquela experiência, inclusive com visões divergentes sobre o que trazia a prosperidade para  uma megalópole.

Londres à noite (tela de Ronald Tucker)
Londres à noite (tela de Ronald Tucker)
Foto: Divulgação

Luxo, a sinfonia do progresso

"Mas as cidades buscam somente o seu próprio bem;

Arrastam tudo em sua pressa precipitada

Despedaçam animais como madeira decadente

E consomem  incontáveis nações por nada.” - R.M. Rilke – Livro das horas, 1902.

Exilado em Londres em 1726, Voltaire fascinou-se pela grande capital. A tumulto das ruas apinhadas de povo, a cacofonia das vozes e das charretes e carroções com suas rodas gemidas, soou-lhe como a sinfonia do progresso. O curioso foi a quem ele atribuiu a razão daquela prosperidade nunca vista. A multidão toda, assegurou, trabalhava para satisfazer o capricho dos mundanos, dos bon vivants,  que graças às suas extravagâncias de ricos, seu gosto pelo luxo, faziam as coisas funcionar, dando emprego a milhares de laboriosos operários.

Voltaire, com esta inaudita tese, nada mais fez do que emprestar sua solidariedade e admiração a um outro escritor, estrangeiro na Inglaterra como ele, chamado Bernard de Mandeville. Era um médico holandês, residente fazia anos em Londres, que havia publicado em 1723 um escandaloso ensaio intitulado The Fable of the Bess (A Fábula das Abelhas), desancando os moralistas e os puritanos.

Mandeville chocou o mundo da época afirmando que quase tudo de bom que nos cercava vinha dos nossos vícios privados, exatamente o subtítulo que adotara para o seu livro: Private Vices, Public Benefits. Quem dá trabalho ao ourives, ao joalheiro e ao pintor,  senão a vocação de alguns ricaços pela ostentação e o desejo deles de  provocar  a inveja nos outros? Quem senão os exibicionistas mandariam construir prédios para óperas, contratar músicos e artistas, arquitetos e decoradores, para poderem ir pavonearem-se com suas chiquérrimas mulheres nos camarotes de luxo e nas salas de recepção? Era para chegar-se às mansões dos grandes que se construíam as estradas e erguiam-se as pontes.

É o pródigo quem faz a prosperidade

Assim, concluiu Mandeville, devemos levantar as mãos aos céus por existir essa raça: o magnata gastador é a principal fonte da prosperidade das cidades. A virtude coletiva do trabalho era mantida pela acintosa liberalidade do homem de fortuna. Era o vício do ricaço quem mantinha o pobre virtuosos e honrado. O profeta austero da Bíblia, que vivia de orações e augúrios, passando a pão seco e  água, admoestando a todos contra os perigos das tentações, e que havia destruído o bezerro de ouro, só havia produzido gente paupérrima morando em tendas no deserto. O pródigo moderno, por sua vez, entregue à dissipação e ao esplendor, construíra Londres! Paris, e tudo o mais! Ou como Mandeville encerrou um dos seus versos, intitulado“ o zumbido da colmeia, ou como um velhaco se torna honesto”: “Era a inveja mesmo, e a vaidade, quem eram os Ministros da Indústria”:

"The Root of evil, Avarice,
That damn'd ill-natur'd baneful Vice,
Was Slave to Prodigality,
That Noble Sin; whilst Luxury
Employ'd a Million of the Poor,
And odious Pride a Million more."
Envy it self, and Vanity
Were Ministers of Industry" -
B. Mandeville, Grumbling Hive: p.34, 1705.

Um provinciano espantado

Um século e tanto depois, um outro recém chegado a Londres vindo do exterior, o alemão Friedrich Engels, o companheiro de idéias de Karl Marx, deixaria outra impressão da cidade no seu livro Die Lage der Arbeitendem Klasse in England (A situação da classe operária na Inglaterra, de 1845), considerado um clássico da história social. Se ele por um lado  impressionou-se vivamente pela a pujança industrial e comercial visível nas margens do Tâmisa, ficando estonteado pela intensidade dos barcos à vapor que cruzavam o rio em todas as direções, chocou-se com o comportamento dos londrinos.

Lá, disse ele, ninguém atentava para o outro. Trafegando pelas ruas, os habitantes da capital  manifestavam uma “indiferença brutal” para com o que se passava ao seu arredor, cultivando apenas os interesses pessoais voltados para um desavergonhado “egoísmo mesquinho”, lembrando a ele a descrição da sociedade feita há muito tempo por Hobbes (a de que a sociedade nada mais era do que o produto de uma guerra social, “a guerra de todos contra todos”). Lá, na Inglaterra, os capitalistas se adonavam de tudo, gerando a miséria das massas.

Vindo de uma pequena cidadezinha alemã, de Barmen, na Renania, onde todos se conheciam e se cumprimentavam, era natural a reação de Engels ao aproximar-se daquela cornucópia de 3,5 milhões de habitantes.

Ele atribuiu aquela assombrosa concentração humana ao fato da cidade moderna acolher uma massa impressionante de interesses, tornados possíveis de serem realizados pela extraordinária conjugação da divisão do trabalho, da energia à vapor e da maquinaria. De certa forma, Engels, assim, se aproximou de Mandeville ao constatar que aquela fantástica engrenagem se movia por um vício predominante.

Evidente que não o do luxo dos mundanos, enaltecido pelo holandês blasfemo, e também por Voltaire, mas o da cupidez, a ambição do lucro, a paixão pela acumulação de bens e de riquezas que movia o capitalista. Portanto, tanto para um como para o outro, para Mandeville como para Engels, ainda que havendo um abismo ideológico os separando, fosse o ócio do perdulário ou a poupança do sovina, era o Pecado e não a Virtude quem soprava as velas do progresso. Era a ‘mão invisível’ que conduzia todos à prosperidade.

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Fonte: Especial para Terra

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