Leonardo da Vinci, a inteligência da fraternidade

24 jun 2019
15h53
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“Leonardo pertence a essa grande família ocidental cujo antepassado é Platão, família que nunca deixou de existir até aos nossos dias (...) o desejo de conhecer, de construir, de unir, de servir. Essa inteligência da fraternidade (...) Ela fez de Leonardo um precursor em todos os domínios da arte e da ciência.” (Fred Berence- Leonardo da Vinci,p.7).

Leonardo da Vinci
Leonardo da Vinci
Foto: Reprodução

 

A acertada decisão do seu pai Piero da Vinci, notário do vilarejo de Vinci a poucos quilômetros de Florença, capital da Toscana, de se transferir para lá  foi definitiva no destino de Leonardo. Filho bastardo nascido em Vinci em 17 de abril de 1482, desde cedo manifestara  pendor para o desenho. Logo que se instalou o notário tratou de consultar o famoso artista Verrocchio, seu conhecido possuidor de uma bottega ( ateliê) na rua dos pintores e escultores da cidade.. Mostrou-lhe os desenhos do garoto para avaliar suas possibilidades. O mestre impressionou-se com o que vira. O jovem tinha um  talento a ser burilado. Era um artista nato.

Durante os quase dez anos seguintes, o aprendiz instruiu-se na pintura e escultura cercado pela atenção e afeto.. Sentindo-se confiante, percebendo  que nada mais tinha a aprender,, ao redor dos vinte anos abriu seu próprio ofício.  Por uma dessas estranhas ironias do destino Leonardo não foi bem sucedido. Ao passo que ganhava fama como excepcional desenhista e pintor, pesou contra ele um embaraço que carregou pela vida a fora. Ele tinha uma dificuldade, quase patológica em não cumprir os contratos assumidos. Vitima do seu perfeccionismo, para desespero dos clientes, nunca acreditava que o trabalho estivesse realmente pronto ( a famosa “Mona Lisa” ele nunca entregou, levando quase  10 anos para ele dar-se por satisfeito, o retrato nunca chegou às mãos do comerciante Gioccondo).

Não tardou para os possíveis interessados poucas encomendas fizessem. Certamente esta foi a razão dele mudar-se para Milão. A Florença dos Medici, família de banqueiros, verdadeiros monarcas da cidade,  pródiga para com as artes, nada lhe alcançou.  A política cultural tanto de Cósimo como de Lourenço de Médici era atender a demanda das outras cidades e reinos sempre solicitando lhes enviassem artistas e arquitetos. E eles prazerosamente apontavam os melhores no sentido de expandir o bom nome da cidade. Não há nenhuma referência de Leonardo ter sido indicado.

A corte milanesa de Ludovico Sforza, dito o Mouro, extravagante e perdulária, empenhava-se em promover festas e terminou aceitando o florentino como cenógrafo,  permitindo que as fantasias e imaginação dele tivessem livre trânsito. Exemplo disto foi a espetacular montagem da Festa dos Planetas organizada em 1497 para as núpcias  de Galeazzo, sobrinho de Ludovico, testemunhada por convidados e viajantes que a descreveram, estarrecidos, deslumbrados.

Ocorre  neste tempo todo o gênio dele voltara-se para outros interesses. Curioso até a morbidez, portador de um cérebro insaciável, omnívoro,  Leonardo mergulhou nos segredos da fabricação de máquinas para o teatro e para a guerra, além de preocupações com o urbanismo (estendeu-se até o plano para uma cidade perfeita  em Romorantin no centro da França,  concebida para Francisco I). Na patial lombarda associou-se a um hospital para dissecar cadáveres, alertando seus seguidores de como era duro suportar o cheiro dos mortos quando trancado a noite inteira no necrotério.  

Os esboços e desenhos dele de anatomia granjearam fama e serviram à formação dos jovens médicos. Seguiu de perto as recomendações do famoso L.B.Alberti (“Da Pintura”) que propunha ao artista ao fazer uma figura humana a desenhasse despida e a seguir a vestisse. Quando preciso saía em busca nos mercados, praças e outros logradouros públicos de tipos humanos para servirem como modelo. Para desespero dos contratantes, levou quase um ano para encontrar um para a cabeça de Judas e dar por acabada a “Santa Ceia” no refeitório dos monges da Igreja de Santa Maria das Graças, em Milão.

Simultaneamente, multiplicaram-se os protótipos de aeroplanos, tanques de guerra, submarinos, construção de canais e todo o tipo de engrenagem possível imaginar. Além disso, acompanhou atento o vôo das aves para esboçar desenhos de aeroplanos e até de um helicóptero. Aprofundou-se no estudo da água, das correntes de rio  e dos canais. Num dos seus retornos à Florença, em 1502,  chegou a associar-se a Maquiavel na tentativa de alterar o curso sinuoso do rio Arno. (*)

(*) Roger de Masters – Fortune is a river, NY , 1998.

Um dândi

Pode-se dizer que a natureza cometeu excessos com Leonardo. Além do talento extraordinário, homossexual assumido, fisicamente era um Adônis, sempre se vestindo com cuidado e requinte, em geral com um gibão cor de rosa que chegava aos joelhos. Sua aparência, os testemunhos são unânimes, abria portas onde estivesse e encantava os que dele se aproximavam.

Seus patrocinadores mais conhecidos, seus mecenas , Ludovico Sforza, o celerado César Bórgia féro opressor das cidades conquistadas, Juliano de Médici, irmão do papa Leão X, e o rei francês Francisco I, especialmente este último, foram seduzidos pela personalidade e pelo temperamento cativante “do florentino”, como o chamavam. Bem ao contrário do seu rival Miguelangelo, seu antípoda,  homem atormentado por seus demônios.

Esse convívio com os poderosos da sua época, ao contrário do seu amigo Maquiavel,  não despertou nele nenhuma vocação prática ou teórica para com a política. Mostrou-se um “alienado”.

Havia em toda Itália, estendido à França, o reconhecimento dele ser “um gênio”, percepção que a História confirmou, tendo-o como o maior símbolo do Renascimento, o artista e cientista por excelência, um sábio enfim. Curiosamente não deixou nenhum auto-retrato dos seus dias de esplendor. Os desenhos em que ele mesmo serviu de modelo – como auto-retrato Turim - , foram feitos na terceira idade, quando se tornou evidente o seu envelhecimento precoce. Situação que é estranha à sua vaidade, sempre consciente dele ser de uma espécie magnífica dotado pela divindade, um “uomo esemplare”.  (*)

 (*) Ainda que como todo renascentista fosse um declarado amante da beleza, Leonardo dedicou-se a deixar inúmeros croquis caricaturais de gente grotesca e de anciãos senis.

O tempo de Leonardo

A sociologia da cultura ainda está nos devendo uma explicação para a explosão criativa que dominou a próspera Florença naquela época. A sensação que se tem é de que em cada quadra, em cada esquina, brotava alguém fora do comum. Artistas como os já citados Verrocchio e Miguelangelo, de Rafael, de Brunelleschi,  Ghirlandaio, Botticeli, Perugino, grandes poetas e escritores como Dante e Boccaccio forjadores da língua italiana dos dias de hoje, pensadores como Pico della Mirândola e Marcílio Ficino, aventureiros como Américo Vespúcio, geógrafos como Toscanelli, cientistas como Galileu Galilei, e assim por diante.

O fato da cidade ser um sucesso financeiro, o maior do seu tempo, e um pólo da industria têxtil, não é suficiente para revelar o esplendor criativo de muitos dos seus habitantes. Outros centros urbanos por igual conheceram grande prosperidade sem que isso provocasse magnificência criativa ou  estética.

O tempo também era de ousadias, de “missões”. As impressionantes viagens de Cristóvão Colombo, Giovane Caboto e Vasco da Gama alargaram os horizontes europeus de um modo inimaginável. Leonardo foi contemporâneo da chegada dos navegadores ao Novo Mundo, e justo no ano do seu falecimento, em 1519, Cortés esmagava o Império Asteca e lançava os fundamentos do domínio espanhol por extensões jamais vistas, enquanto Fernão de Magalhães dava início a circunavegação da Terra. Era o começo da globalização.

As Obras

É um tanto enigmático que Leonardo no seu pedido de uma colocação ao serviço de Ludovico somente no tópico derradeiro do rol das suas habilidades, mencionou a pintura e a escultura. Os demais itens referiam-se a assuntos de guerra e máquinas bélicas. Pois foi justamente aquilo em que ele não prezava na mesma dimensão do seu prodígio como cientista e engenheiro, isto é sua mestria com as tintas e as cores é que o consagrou para sempre. Durante anos Leonardo manteve cadernos repletos de anotações e ilustrações, os zibaldone. Estima-se terem atingido mais de 13 ou 14 mil páginas ( das quais restaram 7.200), todas escritas do seu modo peculiar, da direita para a esquerda, obrigando a serem lidas com um espelho. Historiadores afirmam  tal costume dever-se ao receio dele ser espionado. Provavelmente, era uma das bizarrias comuns aos homens de exceção,  uma esquisitice ( transformados em dez códices, os cadernos fracionados viraram objeto de aquisição por museus, colecionadores e de milionários).

A todos espantou o fato dele não ter formação convencional. Quando garoto, deve ter cursado em Vinci uma “escola de ábaco”  por força do pai ser  notário, uma profissão dependente dos números, e nada mais do que isso. Autodidata convicto, apostava mais na prática do que nas consultas aos livros. Sobre isto deixou o dito “ é com a experiência que se sabe se o ouro é puro”. O saber das coisas devia-se a ele procurar em qualquer lugar que chegasse um conhecedor do assunto do seu interesse. Entrevistava artesãos, mecânicos, engenheiros, urbanistas, geômetras, geólogos, metalúrgicos,  artilheiros, pescadores,  soldados, e tantos mais que satisfizessem sua mente faminta,  amealhando um enorme conhecimento. O rei Francisco I confessou que Leonardo “sabia tudo”.

Os pilares de Leonardo

Dizendo-se “cansado dos pincéis” sua obra pictórica é pequena. Calculam em treze quadros e dois murais ( o da batalha de Anghiari acertada com o Grande Conselho de Florença foi abandonado inconcluso)  e mais outras seis em conjunto com outros artistas. Na escultura deixou uma amostra da monumental estátua eqüestre que Ludovico encomendara para homenagem seu pai Francisco Sforza. Se aprontada seria a maior do gênero em toda a Europa, mas foi cancelada pela urgência da guerra contra os franceses na invasão de Milão, em 1499. O imenso protótipo do Il Cavallo feito de argila foi destruído pelos arqueiros invasores que o usaram como alvo. Como tantas vezes na história o bronze armazenado para a estátua terminou nos fornos para fazer canhões. Ares sufocou Apolo. 

Os pilares das pinturas dele são a fixação das proporções dos corpos humanos ( certamente inspirado no cânone do escultor grego Policleto), a rigorosa perspectiva e o predomínio científico na composição de um quadro ou mural como se observa no painel da “Santa Ceia”.

Tudo o que pintou foi baseado em exigentes e  detalhadas pesquisas. Disto resultou a utilização do sfumatto ( esfumado) e do chiaroscuro ( o claro-escuro) que nos tempos seguintes será a tônica predominante no Barroco, contraste tonal radicalizado por Caravaggio.

Consagrou-se definitivamente pela “Mona Lisa”, um dos ícones mais conhecidos do Renascimento. Possivelmente o retrato mais visitado em toda a história das artes. Destaque do Louvre de Paris a famosa dama, La gioconda,  não cessa de atrair multidões de todos os cantos da terra.

Humanismo, individualismo e imortalidade

“A Itália foi o primeiro país que reconheceu o homem e a humanidade em toda a sua profundidade.”

 ( Jacob Burckhardt – La cultra del renacimiento em Itália, p.307.)

Leonardo pode ser apontado como o maior expoente estético do Humanismo, movimento intelectual que nascera do empenho do poeta Petrarca, no século XIV, para que todos se voltassem aos temas que diziam respeito ao Homem. Para tanto, devia-se recorrer às luzes da Antiguidade, ao legado greco-romano que fornecia material sem fim para os italianos e europeus em geral. O espírito estudioso e indagador do artista-cientista que tudo desejava observar, palmilhar, investigar, revolver, sem que fosse tomado pela pressa ou urgência. Símbolo do papel de centralidade do humano foi a famosa gravura dele do “Homem vitruviano, na qual uma figura masculina despida ocupa todos espaços limitado por um círculo e um quadrado.

Por igual, Leonardo pertenceu  a uma geração ímpar de artistas que, cientes das sua qualidades, onipotentes, passaram a tratar seus clientes de igual para igual. Exigiram ser sua profissão equiparada a dos médicos, dos comerciantes abonados, dos advogados, e que não os considerassem como antes apenas artesãos.  Fossem eles medalhões da nobreza ou o próprio Papa (como foi o caso de as relações turbulentas de Michelangelo com Julio II). Alguns galgaram a nobreza como o caso de Andréa Mantegna a serviço dos Gonzaga em Mântua, desde 1459.

Da Vinci também serve como exemplo do individualismo forjado pelo Renascimento com sua intensa atividade comercial e financeira, somada a uma competição eletrizante entre as cidades, os príncipes, os tiranos e o papado. Não devia seu saber a nenhuma instituição. Jamais freqüentara uma universidade ou algo equivalente e não estava ligado à corporação de ofício alguma como tantos outros daquela época. Ninguém, ao que se saiba interferiu nas suas criações. Era o típico homem que “se fez por si mesmo”.  Este individualismo emergente, desconhecido na Idade Média, provocou um fenômeno nas artes: a busca por retratos.  Em toda a Itália não havia pontífice. rei, príncipe, grão-senhor,  tirano,  condottieri, burguês, bela dona, ou alguém  considerado bem posto na vida, a não acertar posar para um pintor ou escultor.

A descoberta da excepcionalidade de cada ser criado por Deus que jogava a forma fora, como diziam, reforçaram o intento do popolo grasso, os graúdos, de se imortalizarem. Ninguém deles deixava este mundo sem uma imagem de si pendurada na parede do quarto ou da sala. Esta era a verdadeira forma de perpetuar-se na lembrança de todos. E tinham razão. A qualquer visita feita aos museus, palácios, catedrais, igrejas, mansões e casarões europeus os encontram nas paredes. De muitos nem se sabe mais o nome, mas lá estão eles nos olhando.

Um tanto antes de falecer, Leonardo aceitou o convite do rei Francisco I para repousar em  Amboise, na Tourene,  perto da corte. Acomodaram-no num belo solar, o Clos-Lucé de onde ainda deitou moda devido a sua excentricidade e bom gosto ao vestir. Um derrame o paralisou parcialmente. No desenlace, moribundo, recebeu a visita do monarca a confortá-lo. Na tela de Ingres, apoiado no travesseiro e no braço de Francisco, sua longa barba branca se sobrepunha às cobertas numa imagem da agonia de um sábio ou de um profeta. Confessou e cerrando os olhos entrou para a imortalidade. Era o dia 2 de maio de 1519.  Tinha 67 anos, um prodígio de sobrevivência naquela época. 

Fonte: Especial para Terra
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