A Revolução Russa e o Terror Vermelho

19 nov 2018
12h13
atualizado às 12h34
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Aos 19 anos de idade, Yakov Kristoforovich Peters havia desistido de tudo. Abandonaria para sempre a militância revolucionária. Exilado em Londres desde o fracasso da revolução de 1905, ocorrida na Rússia czarista, ele optou por seguir outros caminhos. Todavia, alguns anos depois, com a eclosão da revolução da 1917, o destino fez com que ele voltasse atrás. No retorno à Rússia, aderindo aos bolcheviques, ele tornou-se um dos mais temidos diretores da CHEKA, a implacável polícia política comunista executora do Terror Vermelho, os fuzilamentos em massa que iriam ensangüentar para sempre a história da Revolução de 1917. 

O cavaleiro vermelho
O cavaleiro vermelho
Foto: Reprodução

Uma boa vida comum

Casado com uma moça inglesa de descendência judaica chamada Maisie Freemann, cujo pai era um banqueiro, Yakov Peters, que nascera na Letônia em 1886, província báltica do Império Russo, parecia ter apagado da memória qualquer vínculo que tivera no passado como militante clandestino da causa da revolução. Fora uma transformação e tanto: de pobre emigrado ele galgara à posição de ser um respeitável integrante da classe média britânica. Um homem responsável enfim, um funcionário exemplar que dia após dia sempre se fazia presente no escritório, sem atraso e sem queixas.

Não há nenhuma indicação, exatamente por causa dessa total mudança de vida, dele naquela época ter visitado algum outro exilado ou ter freqüentado algum clube ou taverna de refugiados russos que volta e meia iam parar na capital britânica.  Lênin, também se refugiara lá por um tempo, antes de Yakov, entre 1902 e 1903, habitando com sua esposa Krupskaia, um quarto e cozinha na Holford Square, 10, nas proximidades da King´s Cross.

Crise de consciência

Eis que num repente a pacata rotina dele mudou. Saindo de casa para trabalhar no começo de 1917 - ano em que ferozes e sangrentas batalhas continuavam a ser travadas no fronte ocidental entre os aliados anglo-franceses contra as forças alemãs – ele acompanhou da calçada uma ruidosa manifestação de irlandeses. Protestavam contra a execução de sir Roger Steward Casement, acusado pelo tribunal de Sua Majestade de traição e sabotagem contra a Coroa por ter ido até a Alemanha Imperial, em 1914, na busca de recursos para libertar a Irlanda do domínio britânico (em abril de 1916, dera-se o fracassado Levante antibritânico da Páscoa, em Dublin). 

Subitamente Yakov, em plena rua, sentiu um choque. O que  fizera da sua vida? Como pudera ele, assim no mais, ter-se descartado dos seus ideais da juventude? Tempos antes, na prisão londrina, esperando a hora de ser enforcado, estivera um homem, um ex-diplomata, alguém da elite, que não se importara em entregar-se ao carrasco em nome da causa que abraçara. Parecia que o fantasma de Casement saíra, com o pescoço quebrado pela corda, pelos ares para vir espicaçá-lo, ferindo-lhe a consciência.

Estonteado, passou o dia zanzando pelas ruas de Londres como se fora um zumbi, lamentado a existência de filisteu acomodado que estava levando.  Na volta, abriu-se para a mulher. Tinha que retornar a ativa. Acontecimentos sensacionais estavam por vir e ele, em nome dos seus ideais, não poderia ficar de fora.

Yakov Peters (1886 – 1838)
Yakov Peters (1886 – 1838)
Foto: Reprodução

De fato, quando a revolução russa de fevereiro de 1917, a que derrubou o czar Nicolau II, espalhou esperanças para todos os lados, Yakov, tomado de profunda nostalgia, despediu-se da mulher e da filha e jogou-se para dentro do furacão. Antecedera Lênin em Petrogrado em pouco menos de duas semanas. Este, em seguida ao saltar na Estação Finlândia, lançara as famosas Teses de Abril: os verdadeiros revolucionários não deviam colaborar com o governo provisório do príncipe Lvov recém implantado, moderado e excessivamente burguês. A guerra contra os Impérios Centrais ( II Reich e Monarquia Dual)deveria ser encerrada logo.  A revolução que estava na sua etapa burguesa devia encaminhar-se para a fase socialista. O proletariado chegaria ao poder não através de uma República Parlamentar, mas pelos sovietes, os conselhos de deputados operários e soldados, dirigidos pelo partido Bolchevique.. Tudo isso acompanhado pela exigência da reforma agrária, nacionalização das industrias e minas e pela unificação bancária nas mãos do estado.

Era uma declaração de guerra ao trôpego governo que estava emergindo dos escombros do regime czarista e um chamamento à revolução radical.

Enquanto Lênin reunia-se no Palácio Smolny com o comitê central do seu pequeno partido, Yakov apresentou-se ao soviete do regimento da sua terra natal, a Letônia, que ficaria famoso como o Krasnie Datbscskie Strelki, os Fuzileiros Vermelhos Letões, ou simplesmente strelnieki.  Não tardou em desempenhar-se como bom orador. Dotado de certa cultura e boa voz, apesar da sua pequena estatura, ele embalava os soldados com sua oratória cada dia mais extremada. Impondo férrea disciplina aos seus, logo o seu trabalho destacou-se naquele caos em que a Rússia inteira havia mergulhado. A Guarda Letoniana deitou fama como fiel devota dos bolcheviques e um dos poucos corpos militares de confiança à disposição integral de Lenin.  

Fundando a Cheka

Foto: Reprodução

Alguns dias depois de ter capitaneado o levante de 25 de outubro de 1917 (segundo o antigo calendário pré-revolucionário), que derrubou o governo provisório, Lenin, que não conservava nenhuma ilusão de que a revolução que agora ele liderava seria aceita por todos, determinou a criação da VCHEKA. Abreviatura de Vserossiiskaia chrezvychainaia komissiia po borbe s kontrrevoliutsiei i sabotazhem, ou “Comitê extraordinário pan-russo de combate à contra-revolução e sabotagem”, logo simplificado para CHEKA, que começou a entrar em ação no dia 20 de dezembro de 1917. 

O motivo daquela decisão extrema, de inesperadas conseqüências históricas, fora um relatório de um companheiro dele Vladimir Bonch-Bruyevich, secretário-executivo do Conselho dos Comissários do Povo. Denunciava ele a crescente confusão e inicio de pânico entre as fileiras do partido, bem como a generalizada insatisfação popular com o regime recém instalado no poder. 

Lenin então teria perguntado; onde esta o nosso Fouquier-Tinville? (o tristemente famoso acusador público do tribunal revolucionário, um implacável guilhotinador, símbolo do terror na Revolução Francesa, executado em 1795).

Num documento interno escrito em 7 de dezembro, ele justificara a criação da polícia política com as seguintes considerações: “Nós estamos para organizar o Terror...o Terror é uma absoluta necessidade durante os tempos de revolução...A CHEKA esta obrigada a defender a revolução e a conquistar os inimigos mesmo que sua espada eventualmente caia sobre a cabeça de um inocente.”

“Félix de ferro”

Félix Dzerzinski (1877-1926)
Félix Dzerzinski (1877-1926)
Foto: Reprodução

Para dirigi-la ele convocou Félix Edmondovich Dzerzinski (1877-1926), um dos mais íntegros quadros do partido bolchevique. Um homem a lá Robespierre, isto é, alguém considerado como incorruptível. Chegaram até a compará-lo ao monge Jerônimo Savonarola, o tirano puritano da Florença medieval, outros com o Grande Inquisidor de Dostoievski. Seja como for, o nome de Dzerzinski, apelidado de “Félix de ferro” (apesar da saúde debilitada pela tuberculose), passou a provocar medo por onde circulava. 

Certamente, naquele momento dramático, Lênin não pôde ter consciência de que estava lançando as bases de um dos mais terríveis pilares do Estado Soviético. Uma instituição policial tão poderosa e atemorizante que a estátua do seu primeiro diretor foi uma das últimas a ser removida da frente da praça Lubyanka, onde fica o edifício do antigo QG da KGB (última designação da policia política soviética antes da sua supressão) em Moscou, quando o regime, depois de mais de 70 anos de existência, caiu em 1991.

Organizando a equipe

Para fazer parte da comissão dirigente da CHEKA, Dzerzinski selecionou aqueles que lhe pareciam mais dedicados à causa. Viriam da elite do partido. Integrantes que, além de corretos e muito trabalhadores, somavam fanatismo e fidelidade absoluta a Lênin: tais como Vyacheslav Menzhinski (um aristocrata de origem polonesa tal como era Dzerzinski), Genrikh Yagoda (um ex-farmacêutico que se especializara no uso de venenos), o ex-comandante dos strelnieki, Yakov Peters, “o pequeno Peters”, e um outro conterrâneo dele chamado Martin Latsis. 

Cada um deles ficou encarregado de uma das cinco seções em que a organização viu-se dividida: a de investigação, a especial, a operacional, a de comando e a de subsistência. Estes homens seriam os mais temidos carrascos da revolução de 1917.

A partir de março de 1918, a contra-revolução encabeçada por ex-generais do regime czarista (Denikin, Yudenich e o barão Wrangel) começou a se espalhar pela Rússia inteira. Leon Trotski, um ex-integrante do partido menchevique que aderira a Lênin um ano antes, foi nomeado pelo Comitê Central em janeiro de 1918 como comandante-em-chefe do Krasnaya Armiya , o Exército Vermelho, para lhes dar combate. Todavia as maiores ameaças diretas à vida que os chefes bolcheviques passaram a sofrer vieram da própria esquerda. 

Os atentados de agosto de 1918

Justamente naqueles dois meses quando Félix Dzerzinski estava licenciado para fazer um secretíssimo tratamento de saúde no exterior, entre julho e agosto, é que dois atentados cometidos bem próximos um do outro, fizeram a CHEKA ir à loucura. Quase todos os testemunhos são unânimes em assegurar que naqueles primeiros sete meses de existência a organização não havia executado ninguém. Pois a hora das matanças começou então a soar. 

O primeiro deles, ocorrido no começo de agosto de 1918, vitimou Moisés Uritski, um ex-menchevique como Trotski que entrara para o partido de Lenin, e depois para a CHEKA, e que assumira a função de supervisor geral em Petrogrado. Quem deu-lhe o tiro fatal fora um jovem estudante, militante do partido SR (Socialista-Revolucionário), um esserista como diziam, chamado Kannegiesser. Compreensivelmente os colegas e subordinados de Uritski acusaram o ataque como se fosse diretamente orientado contra a polícia política.  

O segundo atentado, ocorrido no dia 30 de agosto de 1918, teve o próprio Lênin como alvo. Novamente fora um esserista quem disparou. Desta vez as balas partiram de uma militante muito conhecida nas fileiras dos revolucionários: Fanny Kaplan (anos antes ela fora encarcerada pelo regime czarista). 

Desde que Lenin determinara o fechamento da Assembléia Constituinte, em janeiro de 1918, na qual os socialistas-revolucionários tinham substancial representação, ela jurara matar o líder dos bolcheviques. Parece que também pesou na decisão dela as insultantes condições de paz do Tratado de Brest-Litovsk, acordado em 6 de março, que Lênin aceitara da Alemanha Guilhermina, o que para muitos russos cheirava a traição à pátria e parecia confirmar a história do trem lacrado. (*)

(*) No começo de abril de 1917, o Ministro do Exterior do IIº Reich organizara as pressas a viagem de um trem lacrado, cruzando pelo território alemão, levando 27 exilados russos que estavam na Suíça durante o período da guerra, com Lênin entre eles, para que logo chegassem na Rússia e provocassem tumultos para retirar o pais da guerra. 

Tiros contra Lênin

Fanny Kaplan, atirou contra Lenin, em 1918
Fanny Kaplan, atirou contra Lenin, em 1918
Foto: Reprodução

No momento em que Lênin saiu de um comício realizado numa fábrica em Moscou, ela disparou-lhe três tiros no instante em que ele se voltou para atende-la. Uma das balas acertou-o no ombro, mas a outra atingiu o pulmão. Lênin foi levado as pressas para ser atendido. Sobreviveria. A notícia chegou como um raio na sede da CHEKA.  De longe, das beiras do rio Volga, em Tsaritsin onde estava, Josef Stalin enviou-lhes um telegrama exigindo medidas extraordinárias: nada menos do que uma declaração de “aberto e sistemático terror em massa” contra os responsáveis.

Para açular ainda mais a fúria dos chekistas, eles haviam descoberto um complô organizado pelo SIS, o Serviço Secreto de Inteligência britânico, antecessor do M16, arquitetado pelos espiões Robert Bruce Lockhart e Sidney Reilly, atuando na Rússia, para ser acionado no momento em que o líder da revolução estivesse presente no Teatro Bolchoi, em Moscou, para um comício a ser lá realizado no dia 6 de setembro. Previam o seqüestro dele seguido do seu assassinato. Operação cancelada porque Fanny Kaplan se adiantou a eles.

Naquele momento, no verão de 1918, de todos os lados acossavam a revolução bolchevique: os contra-revolucionários “brancos”, os agentes estrangeiros e, por fim, os socialistas da extrema-esquerda. Os bolcheviques, tais como feras acuadas com olhos inflamados, então lançaram mão das garras e dos dentes afiados da CHEKA.

O Terror Vermelho

Chekistas em ação
Chekistas em ação
Foto: Reprodução

Os conhecidos militantes do partido Socialista-Revolucionários, em Petrogrado e Moscou, foram logo presos aos magotes. Agentes da CHEKA, em geral trajados com casacos negros de couro, com um gorro pontudo na cabeça, cercavam a quadra e invadiam os apartamentos atrás deles. Eram então levados em caminhões às aforas da cidade e por lá mesmo, sem passarem por qualquer tipo de tribunal ou vestígio sequer de procedimento judicial, eram fuzilados. A norma era o tiro no pescoço, tal como correu também com Fanny Kaplan. Nos bosques ao redor de Petersburgo e de Moscou, os chekistas previamente preparavam enormes valas nas clareiras para poderem enterrar a enorme quantidade de gente executada.

Outros ainda, antes de sofrerem o mesmo destino, eram arrastados aos porões da CHEKA onde sofriam brutais interrogatórios, como foi o caso de Maria Spiridinova, uma lendária ativista do SRs, que depois morreu na Sibéria. Neste trabalho destacou-se “o pequeno Peters”, que ficou com fama de torturador. 

Calcula-se que na primeira investida foram fuzilados sem nenhuma acusação formal, mais de 800 socialistas das mais diversas facções não-bolcheviques. Nem o regime do czar havia agido assim de modo tão implacável contra seus inimigos. No total, na Rússia inteira, estimou-se em 6.300 o número de mortos naquela primeira fornada do Terror Vermelho. 

As deportações, por sua vez, arrebanharam, além dos SRs,  os integrantes do partido Kadete (Constitucional-democratas), dos Mencheviques e dos Nacionalistas. Quando Gorki procurou interceder por eles, principalmente pelos escritores, Lenin respondeu-lhe que preferia manter “ intelectuais por alguns dias nas prisões ou mesmo semanas justamente para prevenir o massacre de milhares de trabalhadores e camponeses”.  Lembre-se, ponderou ele ao escritor, do que você me disse certa vez em Capri: “Nós artistas somos gente irresponsável.”

A expressão gélida

Uma jornalista que conhecera Peters antes da repressão tornar-se rotineira, observou as mudanças fisionômicas porque ele passara. Tornara-se um burocrata pálido, de olhar vítreo, sem nenhum expressão que não fosse a fria determinação em esmagar a contra-revolução. Ele que, no passado, assemelhara-se a gentleman inglês, depois dos fuzilamentos em série assumira os ares soturnos de um carrasco. 

O mesmo tipo de transformação psicológica e facial que teria sofrido Dzerzinski, afinal um homem vindo da intelligentsia, um ex-professor de literatura. Numa das raras vezes em que o chefe da CHEKA teria ingerido vodka além da conta (ele tinha ojeriza a bêbados), por ocasião da celebração da entrada do ano novo, ele teria dito a um Lênin estupefato: “Eu fiz por espirrar tanto sangue que eu não tenho mais direito de viver. Você precisa me fuzilar agora.”

Mal sabia ele que aquilo era apenas o começo da longa jornada de práticas de matanças que a revolução, convertida em Estado Soviético,  iria cometer pelas décadas seguintes.

Ana Akhmatova, a grande poetisa lírica russa, cujo marido, o poeta Gumilev seria fuzilado em 1921, registrou então o pavor que tomou conta da população:

“Foi quando apenas os mortos/Sorriam, satisfeitos com a paz/ Como um bracelete inútil/Leningrado balançava/ Em torno de suas prisões.....concluindo depois no poema Réquiem: “As estrelas da morte permanecem sobre nós/Enquanto a inocente Rússia se contorce/por baixo de botas ensangüentadas...”[ versos extraídos do livro de São Petersburgo: uma história Cultural,Record, 1997]. 


Bibliografia

Bernard Bromage, Bernard -  "Man of Terror: Dzerzhinsky". Londres: Peter Owen Publishers, 1956.
Conquest, Robert –The Great Terror: Stalin's Purge of the Thirties. Nova York: The Macmillan Company, 1968. 
Hingley, Ronald -  "The Russian Secret Service: Muscovite, Imperial Russian and Soviet Political Security Operations, 1565-1970". Londres:Hutchinson, 1970.
Leggett, George -  "The Cheka: Lenin's Political Police" Nova York: Oxford University Press,  1981.

Veja também:

 

Fonte: Especial para Terra

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