Fechamento de escolas leva famílias ao interior e muda rotina

Pais e filhos se readaptam à fase emergencial sem colégios e têm déjà-vu de restrições do ano passado

22 mar 2021
10h10
atualizado às 11h40
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Maria Luiza, de 4 anos, voltou a morar com a avó, em um apartamento no centro de São Paulo. Enquanto a menina vê televisão e corre - da sala para a cozinha - a mãe também faz suas corridas de aplicativo para colocar comida em casa. No início do ano, a família chegou a enxergar uma réstia de normalidade: o colégio municipal onde Maria Luiza estuda havia retomado as aulas e a mãe conseguiu, enfim, voltar a morar com a filha. O tempo logo fechou com a fase emergencial em São Paulo.

"Quando a escola abriu, pensei 'agora vai'. Hoje, já nem sei mais o que vai acontecer, não dá para fazer planos", diz Patrícia Cipullo, de 42 anos. O fechamento dos colégios diante do colapso do sistema de saúde impõe novas mudanças à rotina das famílias e frustra pais e alunos. Quem pode busca casa no interior, contrata professor particular. Trabalhadores essenciais sem chance de home office tentam minimizar os riscos de contaminação em casa e ajudar as crianças com os recursos que têm.

Patrícia apresenta cartilhas a Maria Luiza e compra o que pode em livrinhos para ajudar a menina a conhecer as letras. Das atividades colocadas na internet pela escola, a mãe abriu mão. "Não tenho tempo de abrir o portal. Achei melhor ir pelo meu método de ensino." Patrícia vai todos os dias ao apartamento da mãe, de 87 anos, para cuidar da menina e ensiná-la alguma coisa, mas evita dormir por lá para não contaminar a idosa.

"Mas de novo eu não vou para a escola?". Esta semana, a pergunta de Sofia, de 7 anos, foi a mesma de várias crianças. Na casa da escritora e tradutora Daniela Baez, de 43 anos, o jeito foi fazer uma mesa de trabalho compartilhada. Mãe e filha sentam juntas e, entre um texto e outro para revisar, Daniela dá atenção às tarefas de Sofia na escola virtual, montada novamente no apartamento.

A menina, no 2.º ano do fundamental do Pentágono, na zona sul, chegou a ir para o colégio todos os dias no mês passado. "Tinha na cabeça que haveria um momento em que as crianças ficariam em casa porque alguém da turma ficou doente. Mas não imaginei que fosse ficar trancado de novo." A mãe já percebe mudanças no comportamento da filha como aumento da ansiedade e dificuldade para comer. Para que Sofia e o irmão, de 10 anos, se movimentem, a família contratou um professor que dá aulas particulares - uma espécie de funcional para crianças - na quadra do condomínio, de máscara.

Já Priscilla Lepri, de 45 anos, escapou com o marido e Matheus, de 7, para o interior paulista, em um condomínio com árvores e um lago, assim que soube da fase emergencial e do fechamento da escola. Entre uma aula online e outra, o menino dá um pulo na piscina. "Nas horas em que ele não tem aula, pode pescar, andar de bicicleta. Estamos vendo muitas crianças perdendo a parte motora por estarem aprisionadas dentro de casa. Me sinto privilegiada."

Mãe de gêmeos de 8 anos, a diretora comercial Martha Colpaert, de 42, também não descarta ir para uma chácara longe da capital se o prédio onde mora restringir o acesso às áreas comuns. Sem o colégio, a família vive um déjà-vu do ano passado. "Vai voltar a ficar maçante não ter o convívio com outras crianças, as discussões sadias em sala de aula." Se existe uma vantagem é a de que Paola e Nicholas agora estão mais adaptados ao ensino remoto e têm mais autonomia.

De vez em quando, porém, a mãe tem de interromper uma das várias reuniões de trabalho no dia para dar uma bronca. "Depois, volto para a reunião como se nada estivesse acontecendo", brinca Martha. Durante o tempo em que as crianças foram para a escola, o Agostiniano Mendel, na zona leste, a sensação era de "alívio". "Conseguia trabalhar tranquilamente, fazer reuniões, me concentrar melhor", diz a mãe, que trabalha de casa.

A confeiteira Gisele Cordeiro, de 34 anos, também passou a dividir a atenção entre as encomendas de Páscoa e os filhos, de 6 e 12 anos, agora em casa o dia todo. A caçula Luísa chorou ao ir para a escola nova em fevereiro, depois de ficar quase um ano sem pisar em uma sala de aula. Foi preciso tempo para que se acostumasse com a escola e, quando conseguiu, ficou triste de novo: a rotina seria interrompida com o agravamento da pandemia.

"São umas férias que ninguém mais aguenta", diz a mãe. Antes mesmo do recesso escolar, decretado na rede municipal de São Paulo para conter a disseminação da doença, Gisele parou de mandar as crianças à escola por medo de contaminação. "Ninguém pode ficar doente antes da Páscoa porque eu não posso ficar sem trabalhar. Tem muito dinheiro investido (nas encomendas)." A falta de leitos para qualquer doença também assusta a família.

De olho nas notícias que mostram números cada vez mais altos de mortes e infecções, pais e filhos em casa tentam fazer das restrições um aprendizado. "Todo mundo tem de ir junto nessa para tentar diminuir o contágio. E acho importante entender que o outro não tem acesso a tudo o que elas têm agora", diz a empresária Lorena Akel, de 41 anos, mãe de duas meninas de 11 e 14 anos, alunas do Colégio Porto Seguro, na zona sul. As crianças também voltaram para casa após poucas semanas de aulas.

Agora, as câmeras dos colegas no ensino remoto - mais abertas do que no ano passado - aproximam a turma e dão uma sensação de que a escola, mesmo a distância, pode ser melhor do que foi. "Em 2020, era um desafio grande abrir o áudio, falar, ligar a câmera. Eu ficava com vergonha, mas esse ano os alunos estão todos colaborando", diz Florença Akel, de 14 anos, no 9º ano do fundamental. "E a vacina traz mais esperança de que a gente não vai viver um ano igual a 2020", completa a mãe.

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Estadão
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