Crise no Enem aumenta pressão sobre ministro Weintraub

Na cúpula do governo, avaliação é de que ele lidou com o problema de forma 'desastrosa', mas que decisão judicial favorável deu 'sobrevida' ao ministro

28 jan 2020
22h19
atualizado em 29/1/2020 às 12h47
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SÃO PAULO - A repercussão da falha na correção das provas do Enem aumentou a pressão para que o presidente Jair Bolsonaro demita o ministro da Educação, Abraham Weintraub. Na cúpula do governo, a avaliação é de que a decisão favorável ao governo, obtida nesta terça-feira, 28, deu apenas uma "sobrevida" ao ministro.

O presidente teve uma conversa com Weintraub na tarde desta terça para que ele explicasse sua versão da falha na prova. A decisão favorável do Superior Tribunal de Justiça (STJ) foi divulgada durante o encontro dos dois. Bolsonaro chegou a dizer pela manhã que o exame poderia ter sido alvo de "sabotagem", sem, no entanto, apresentar qualquer evidência.

Apesar dos conselhos de aliados e pressão para a substituição, o presidente e os filhos, principalmente o deputado federal Eduardo Bolsonaro, gostam do ministro e de seu estilo "polêmico nas redes sociais". Em um evento oficial em outubro do ano passado, o deputado elogiou Weintraub por ter "inaugurado um novo estilo de ministro, que não se preocupa tanto com os modos e liturgia do cargo".

A pressão para que o presidente substituta o ministro vem em uma crescente nos últimos meses, mas ficou ainda maior na última semana por causa da falha no Enem, que levou à suspensão do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), a principal forma de acesso ao ensino superior público do País. Nos últimos dias, pedidos pela demissão de Weintraub ficaram entre os tópicos mais comentados das redes sociais.

Na terça, o Movimento Brasil Livre (MBL), que apoiou Bolsonaro durante a eleição, pediu a demissão do ministro. "A presença do ministro Weintraub é incompatível com um governo que, durante a campanha eleitoral, prometeu um ministério de notáveis", diz nota do grupo.

A avaliação de aliados do presidente é que a falha no Enem poderia ter tido uma repercussão e impacto menores se o ministro tivesse mais habilidade para lidar com a crise. Um dos erros cometidos apontados é o de que o Palácio do Planalto não foi informado oficialmente sobre os problemas na prova - os auxiliares do presidente só souberam do caso pela imprensa.

Também se avalia que Weintraub não soube dimensionar as graves consequências do problema, que interferiu na vida de 3,9 milhões de estudantes. O erro só foi identificado pelo ministério após reclamação dos alunos. Weintraub admitiu o erro depois de afirmar diversas vezes que a gestão Bolsonaro havia feito o "melhor Enem da história", e logo no primeiro dia em que foi confirmada a falha, o ministro já minimizou o problema dizendo que prejudicou um "número muito pequeno" de estudantes e que se tratava apenas de um "susto".

Poucos dias depois, após estudantes questionarem um possível erro no Sisu, o ministro acusou os autores dos relatos de erros de "serem ligados a um partido radical de esquerda" e disse que há "muita gente maldosa, que tem interesse em fazer terrorismo, espalhando mentira".

Insatisfação

Há meses os ministros mais próximos de Bolsonaro vem reforçando os pedidos para que Bolsonaro substitua o chefe do MEC. Em dezembro, os principais cargos do ministério ficaram vagos ao mesmo tempo e se acreditava que Weintraub não voltaria do recesso de fim de ano para o cargo. Há tempos ele é malvisto tanto pelas polêmicas, consideradas desnecessárias e prejudiciais ao governo, como pela falta de projetos e dificuldade de implementação de políticas públicas.

Desconhecido na área da Educação, Weintraub se isolou ainda mais ao longo dos meses que passou à frente do ministério. Com uma série de ataques contra organizações estudantis, de educadores e até mesmo contras as universidades federais, ele ficou conhecido como o "ministro da educação que não gosta de educação".

Programas e ações anunciados por Weintraub também desgastaram a relação dele com outros nomes do alto escalão do governo. Ele era malvisto, por exemplo, pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, por ter apresentado o Future-se, programa que previa a criação de fundos com bens da União, sem comunicar a área econômica. Também entrou em um embate com o ministro da Ciência, Marcos Pontes, para incorporar o CNPq ao MEC.

Em 23 de dezembro, uma decisão tomada por Weintraub também o colocou em atrito com Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara dos Deputados. O ministro demitiu o presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), Rodrigo Dias, que havia sido indicado por Maia.

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