Com escolas fechadas de novo, pais de alunos da rede pública veem piora no ensino online

Famílias da rede estadual paulista criticam falta de interação com professores, o que ocorria no ano passado; estudantes de colégios municipais também enfrentam problemas

4 abr 2021
13h01
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Durante a aula pela TV, Isabella dorme. A explicação das professoras pela tela, feita para todas as turmas do 4.º ano ao mesmo tempo, não faz sentido para a menina, de 9 anos. "Explicam para o mundo inteiro, ela não entende", diz a mãe Jane Cabral, de 34 anos, auxiliar de serviços gerais.

O modelo de aulas remotas na rede estadual paulista vem recebendo críticas de pais, que dizem faltar interações mais diretas dos alunos com professores da turma. No ano passado, segundo as famílias, havia suporte para lições pelo WhatsApp e até chamadas de vídeo, o que não ocorre mais.

Para o ensino remoto, o governo criou em 2020 o Centro de Mídias, online, com aulas de professores selecionados pela Secretaria Estadual da Educação. Os vídeos podem ser vistos por celular, TV ou computador.

Mãe de Isabella e Edson, de 11 anos, alunos de duas escolas estaduais, Jane diz que o problema atinge ambos e que o retorno presencial, em fevereiro, dificultou o ensino para quem ficou em casa. "Meu filho fica perdidinho. Falo para perguntar ao professor, mas ele diz que não tem como porque o professor está na sala, dando aula a outros alunos", diz Jane, sobre o início do ano, quando parte das classes presenciais foi retomada.

Em fevereiro, eram permitidos até 35% dos alunos nas escolas, em rodízio. Mas no meio de março, colégios foram fechados outra vez com a piora da covid-19. As medidas de isolamento do Estado valem até dia 11, mas pode haver renovação.

Se a fase emergencial não for renovada, a Prefeitura da capital prevê liberar escolas públicas e privadas no dia 12, mas ainda com limite de 35%. Com alta de infecções e vacinação lenta, a retomada total de aulas presenciais pode levar meses. Por isso, especialistas defendem aprimorar o ensino remoto, para evitar defasagens de aprendizagem e desigualdades.

Pais de crianças em fase de alfabetização também se queixam. Mãe de Richard, de 7, aluno do 2.º ano, a motorista de aplicativo Pâmela Gomes diz que pensou até em contratar professor particular. A criança não foi alfabetizada ano passado e tem dificuldades de entender aulas online. "Escrevem um texto no Centro de Mídias como se a criança já tivesse noção do que está escrito", reclama a mãe, de 34 anos. O medo é que o menino desanime. "Ele tem dúvidas. Gostava de fazer exercício e o professor elogiar."

A diarista Luciana da Silva, de 41 anos, também relata dificuldades. "No ano passado, os professores davam assistência via WhatsApp, se tinha dúvida. E, agora, não estão podendo fazer isso", conta a mãe de Sophia, de 7 anos. A criança não aprendeu a ler e agora está no 2.º ano. Em casa com uma cuidadora que não sabe ler, a menina não entende comandos de atividades.

Bruna Waitman, coordenadora do Centro de Mídias, diz que o ensino remoto da rede abrange aulas na plataforma e atividades enviadas pelos docentes de cada turma. "A orientação é que haja essa combinação." Para suprir a ausência de docentes escalados para aulas presenciais, escolas podem envolver professores do grupo de risco nas classes online. Ou fazer outros arranjos, como juntar turmas presenciais e liberar um professor para acompanhar estudantes online. Bruna também afirma que escolas recebem dinheiro para instalar câmeras e fazer transmissão simultânea das aulas presenciais a quem ficar em casa - esse modelo, porém, ainda não está em operação em todas as escolas.

Para Lúcia Dellagnelo, diretora-presidente do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb), é preciso mesclar múltiplas estratégias. "Nenhuma plataforma dá conta de todo o processo de ensino e aprendizagem, por isso a importância da mediação do professor, principalmente para crianças muito novas, ainda sem autonomia." Para isso, diz, é preciso investir na formação digital docente.

Na rede muncipal de SP, tablets ainda não foram entregues

Pais de crianças matriculadas na rede municipal também veem dificuldade e desestímulo no ensino online. Segundo a agente comunitária Fabiana Carvalho, faltam explicações dos professores sobre as matérias e a filha Isabella, de 9 anos, matriculada no 4º ano em uma escola municipal na zona sul, acaba sem saber fazer as lições.

"Se eu souber a matéria, bem. Se não, paciência. Vou fazer 36 anos e tem muita coisa que não lembro mais. De 50 matérias no ano passado, ela deve ter feito 20 porque desanimou também." Segundo Fabiana, o ano passado foi "perdido" para a aprendizagem da menina. "E creio que esse ano também vai ser."

Isabella tem um tablet próprio, mas dificuldades de acessar tarefas no aparelho. Apesar dos percalços com as aulas remotas, a mãe tem medo de mandar a criança para a escola, se as aulas forem retomadas, por causa do agravamento da pandemia. O posto de saúde onde trabalha, ao lado do colégio, está cheio de casos da covid-19, diz.

No ano passado, a Prefeitura havia prometido entregar 465 mil tablets aos alunos, para facilitar o ensino remoto, mas até agora não distribuiu todos os equipamentos. Ao Estadão, afirmou que o cronograma de entrega "está em andamento". Segundo a Prefeitura, a escola de Isabella é acompanhada pela Diretoria Regional, que faz "reuniões e formações para aulas remotas e presenciais, além de buscar soluções para eventuais dificuldades".

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Estadão
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