Despedida de Messi deixa Argentina "órfã" no futebol
A despedida de Lionel Messi encerra uma era na seleção argentina, gerando comoção e um sentimento de orfandade futebolística. Diferente de Diego Maradona, ícone nacional rebelde e politizado, Messi construiu sua idolatria de forma tardia e discreta, focada estritamente no talento esportivo e na resiliência diante de frustrações e críticas. Sua saída voluntária e sem alarde consagra uma trajetória extraordinária, deixando aberta a disputa pelo legado e pela mítica camisa 10 da Albiceleste.
Herdeiro de Maradona conquistou torcedores sem teatralidade. Frustrações, quedas e tropeços acabaram por fazer dele um herói tardio.A despedida de Lionel Messi encerra uma era da Albiceleste, a seleção de futebol da Argentina. O jogador, que recebeu a camisa 10 das mãos de Diego Maradona em 2009, começou sendo comparado ao mito da Copa do Mundo de 1986. Hoje, ele deixa para trás uma carreira reconhecida como extraordinária.
Mas há discordâncias sobre o quanto ele pode ser, de fato, chamado de ídolo popular argentino, tal qual foi Maradona. Para o cientista político Vicente Palermo, Messi é "muito querido" no país, mas lhe faltam as características para cravar o título, já que ele manteve uma personalidade mais reservada.
"É uma pessoa tranquila, não politiza nem partidariza, leva uma vida normal," diz Palermo, fundador do Clube Político Argentino.
A antítese entre Maradona e Messi
Maradona era diferente. "Nele havia toda uma série de simbolismos nacionais, populares, rebeldes, resistentes, questionadores. No caso de Messi, porém, o valor que se destaca é sua qualidade futebolística", diz Pablo Alabarces, professor da Universidade de Buenos Aires (UBA) e um dos pioneiros da sociologia do esporte na América Latina.
"Messi não é um símbolo de identidade coletiva, mas é alguém muito admirado. É uma figura muito poderosa, que não substitui Maradona, e sim o complementa", acrescenta.
Palermo descreve o craque morto em 2020 como, ao mesmo tempo, um ídolo nacional e divisivo. Sua personalidade permitia que se tornasse uma figura política, cultural e identitária. Messi, em contrapartida, nunca pareceu interessado em representar nada além do futebol.
Isso pode até uma virtude, diz Palermo: "Ainda que em pequena medida, isso é bom para quem não compartilha do nacionalismo argentino, embora também se emocione quando a seleção vence".
Um herói tardio
A ausência de teatralidade foi durante anos justamente o problema de Messi para conquistar aceitação popular. Diante do campeão Maradona, "aquele astro, aquele Deus", era difícil competir, explica à DW Alejandro Wall, jornalista e coautor de um livro sobre o jogador que agora se aposenta.
Ele precisou medir forças com uma figura que não era apenas um jogador de futebol, mas uma construção coletiva da Argentina. Mas Messi acabou conquistando seu espaço não por imitar Maradona, mas sendo simplesmente ele mesmo.
Sua maior virtude, acrescenta Wall, foi construir sua trajetória suportando frustrações, quedas e tropeços. Perdeu finais, recebeu críticas, chegou a anunciar sua aposentadoria da seleção e voltou atrás. As vitórias posteriores não apagaram esse percurso, mas lhe deram um novo status.
"Messi não é um símbolo de identidade coletiva, mas é um herói, alguém muito admirado", ressalta Pablo Alabarces. "Tardiamente, porque demorou muito para se impor, pelo menos até a Copa de 2014 e, eu diria, principalmente até seu primeiro grande título, a Copa América de 2021. Ele era muito contestado pelos torcedores mais tradicionais. A admiração por ele cresceu impulsionada pelo peso de torcidas menos tradicionais, ou seja, mulheres e jovens."
Adeus sem alarde
Messi se despede por vontade própria, de forma discreta, sem se proclamar símbolo de nada. A carta que publicou em 31 de agosto de 2026 foi escrita, na verdade, em 21 de julho, dois dias depois da derrota para a Espanha na final da Copa do Mundo.
A recente morte de seu pai, explica o jogador, influenciou uma decisão que já havia amadurecido. "Doeu e dói na alma", escreve Messi na carta, na qual afirma sentir-se "vazio", garante que já não tem mais nada a oferecer e agradece pelos vinte anos vividos com a seleção. Ele encerra a mensagem agradecendo a Deus "por ter me feito argentino" e com um último "Vamos, Argentina!".
A relação com o país de origem ajuda a entender por que Messi acabou sendo aceito como um dos seus, apesar de ter deixado a Argentina aos 13 anos. "Ele jamais perdeu o sotaque", recorda Wall," e fala como alguém de Rosário até hoje."
O luto público foi intenso: políticos, atores, jornalistas, filósofos e personalidades da televisão argentina vieram a público para se despedir do jogador. Wall percebe "uma espécie de orfandade futebolística", em que Messi já faz parte de uma memória compartilhada por milhões de pessoas.
A pergunta que fica agora, diz o especialista, é quem vestirá a camisa 10, quem herdará a braçadeira de capitão e quem ocupará em campo um espaço que durante anos pareceu pertencer exclusivamente a Messi.
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