"Democracia na Venezuela não é prioridade para os EUA"
Em entrevista à DW, cientista político Stefan Peters critica quem considera captura de Maduro um triunfo da liberdade, tendo em vista que foi alcançada com a violação do direito internacional.As incertezas sobre o futuro da Venezuela depois da ação militar dos EUA e a captura do presidente Nicolás Maduro têm consequências geopolíticas para a América Latina e o mundo e desafiam o direito internacional.
À medida que os planos do presidente americano, Donald Trump , para o país sul-americano se tornam mais claros, forças internas do regime e a oposição buscam se posicionar em meio à crise. Há, ainda, a pressão internacional para que os motivos da ação sejam esclarecidos, enquanto especialistas apontam para uma violação do direito internacional.
Em entrevista à DW, o cientista político Stefan Peters afirma ser possível vislumbrar um cenário que combina continuidade e mudança na Venezuela. Diretor do Instituto Alemão-Colombiano para a Paz (Capaz) e professor de relações internacionais e estudos da paz na Universidade Justus Liebig, em Giessen, na Alemanha, ele é cético quanto aos reais objetivos dos EUA e acha ingênuo comemorar a captura de Maduro pelas forças americanas como uma vitória da liberdade.
"É equivocado pensar que a liberdade pode ser alcançada ou as situações resolvidas infringindo a lei e as normas legais. Essa forma de promover mudanças políticas, especialmente de fora, não leva a circunstâncias positivas para o país", disse.
Confira a entrevista completa.
DW: O que se pode esperar na Venezuela?
Stefan Peters: Ainda existem muitas incertezas. Certamente também existem divisões internas e lutas pelo poder. No entanto, até agora, tudo indica que haverá uma continuidade significativa, mas também uma mudança significativa no país. Continuidade do governo venezuelano com as mesmas inclinações políticas, e mudança, sobretudo, em duas questões em que os Estados Unidos querem que esse governo atue.
Uma delas é o acesso das empresas americanas ao petróleo, vinculado à transferência de recursos para os Estados Unidos, e a segunda está certamente relacionada ao narcotráfico. O resto - democracia, direitos humanos, justiça social e presos políticos - não é prioridade, o que é surpreendente. Os governos alinhados com Trump e os venezuelanos no exterior comemoraram isso como uma vitória para a liberdade.
É uma reação ingênua?
Acho que é equivocada. Vimos que Trump descartou a opção de Corina Machado [líder oposicionista premiada com o Nobel da Paz de 2025]. Por outro lado, é equivocado pensar que a liberdade pode ser alcançada ou as situações resolvidas infringindo a lei e as normas legais. Essa forma de promover mudanças políticas, especialmente de fora, não leva a circunstâncias positivas para o país.
É possível que a Venezuela se organize de maneira autônoma, livre da tutela dos EUA?
Ainda precisamos ver como isso vai se desenrolar. De acordo com as declarações de Delcy Rodríguez [vice de Maduro que assumiu como presidente interina], ela parece disposta a fazer o que exigem os Estados Unidos, que buscam impor sua dominação através da ameaça de outro ataque militar. Também vimos que o Exército venezuelano não tem capacidade de reação. Sua força provavelmente reside na repressão e na corrupção, mas não na defesa da soberania do país.
O que essa ação militar significa para a América Latina como um todo?
A América Latina está dividida em linhas políticas, como demonstraram as reações. Também não há consenso sobre a busca de soluções pacíficas para o conflito. Isso também é uma mensagem para toda a região, e especialmente para alguns dos países mencionados por Trump.
[O secretário de Estado americano] Marco Rubio disse que este é um presidente que cumpre o que promete. Essas são mensagens para os diversos governos, mas também para toda a população latino-americana, porque os Estados Unidos veem a região como sua esfera de influência e exigem que não haja oposição às suas políticas. É preocupante, e se continuar nesse caminho, coloca em risco toda a ordem que existe na região.
Quais as implicações disso para Cuba?
Uma parcela significativa dos mortos nessa operação era cubana, o que também demonstra a forte aliança entre os governos de Cuba e da Venezuela, especialmente na área de segurança. Isso certamente mudará se os Estados Unidos conseguirem alterar a direção da política venezuelana. Além disso, existem as ameaças contra Cuba. Claramente, a maior pressão exercida pelos Estados Unidos na região, além da Venezuela, é direcionada a Cuba.
Uma ação contra a ilha também é esperada?
Não é algo que eu possa imaginar, é especulação, e não há evidências de que estejamos perto de um ataque. Mas a política mudou rapidamente, e muitas coisas que eram impensáveis acabaram acontecendo.
O que isso significa para a Colômbia, que também recebeu advertências de Trump?
Para a Colômbia, no contexto da campanha eleitoral [visando as eleições presidenciais em maio de 2026], este é mais um ponto que aumenta a polarização. A relação com a Venezuela fornece outro elemento, assim como as relações com os Estados Unidos e a questão do narcotráfico.
Uma hipótese era que um ataque à Venezuela e uma intervenção militar significariam outra migração em massa para a Colômbia, mas isso não parece muito provável no momento. No entanto, há a questão de como o regime na Venezuela se reorganizará e o que isso significa para os grupos armados que operam à margem da lei, especialmente na fronteira entre Colômbia e Venezuela.
São países com fortes laços sociais, com venezuelanos na Colômbia e colombianos que estiveram ou ainda estão na Venezuela.
O governo de Gustavo Petro se sente ameaçado?
Sim, se sente ameaçado. As reações demonstraram isso. Embora não pareça provável que se concretize, é uma ameaça.
As condições são favoráveis para o retorno dos venezuelanos a seu país?
Não acredito que haverá um retorno dos venezuelanos ao seu país agora. Precisamente por causa das incertezas, mas também pelo que Trump afirmou sobre "administrar o país". Ele disse que haverá muitos investimentos e que os venezuelanos ganharão dinheiro, o que, segundo ele, significaria uma melhora na situação.
No entanto, o estado da infraestrutura de extração de petróleo é bastante precário. Em outras palavras, mais extração de petróleo, mais exportações e mais dinheiro não acontecerão da noite para o dia. Ainda não sabemos se os investimentos virão; há muita incerteza e não haverá um retorno significativo nos próximos meses.
Qual a responsabilidade da comunidade internacional por não ter orientado ou apoiado uma solução pacífica e juridicamente sólida para a crise venezuelana?
A responsabilidade pelo ocorrido recai sobre o governo dos Estados Unidos, por violar o direito internacional. Contudo, quando há um ataque militar, é sempre uma derrota para a diplomacia. Falta força por parte da comunidade internacional, embora eu ache difícil usar esse termo. Quem é a comunidade internacional?
Neste momento, as grandes potências - Estados Unidos, Rússia e China - dizem: temos esferas de influência e agimos como bem entendemos nelas. Ignoram a comunidade internacional, o multilateralismo e o direito internacional. Apesar do consenso sobre a importância de respeitar o direito internacional, as reações têm sido bastante tímidas. Não houve uma forte condenação das ações dos EUA na Venezuela.
Isso seria por medo ou por concordarem com o que os Estados Unidos fizeram?
Essa é a questão central. Em primeiro lugar, do ponto de vista jurídico e da opinião de especialistas, trata-se de uma violação do direito internacional. Nesse sentido, a complexidade não é jurídica, mas política, e isso explica a falta de uma reação clara da comunidade internacional.
Ao mesmo tempo, essa falta de uma reação clara está contribuindo, provavelmente sem intenção, para o enfraquecimento do direito internacional. Esses princípios precisam ser defendidos e, se ninguém o fizer, eles morrerão.
A política poderá ser guiada pelos mais fortes?
Esse é um perigo real que enfrentamos: o colapso da ordem internacional. Portanto, no melhor interesse dos países - especialmente daqueles que não são grandes potências militares -, devemos enfatizar a importância do direito internacional, mesmo que haja situações com as quais discordemos.
Discute-se como essa decisão afetará Taiwan e a Groenlândia, mas também sobre o que acontecerá com os países do Leste Europeu ameaçados pela Rússia, por exemplo, os Estados Bálticos. Claramente, a Rússia está observando o que está acontecendo e usaria o argumento da segurança nacional. Isso mostra o quão perigoso é dizer que "quem tem mais poder e força dita as regras". Isso tornaria o mundo muito mais perigoso, especialmente para os países que não têm esse poder.
Mas se não houver mecanismos ou ferramentas para colocar os princípios em prática e garantir que sejam respeitados, tudo ficará apenas na base da declaração. Essa é a grande questão nas relações internacionais: quais são as ferramentas em uma situação em que vários países poderosos se recusam a aceitar as regras? Se as violarem, o que acontecerá? Não há força policial.
É verdade, mas não devemos subestimar a importância de se tomar uma posição, mesmo que isso não impeça ações que violem o direito internacional, mas garanta que permaneçamos firmes em nossa posição. É importante afirmar claramente que o que os Estados Unidos fizeram viola o direito internacional, independentemente do tipo de regime que Maduro tenha e de gostarmos ou não dele.