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Variante Delta impulsiona planos sobre aplicação de 3ª dose

Cepa circula em 98 países e tem causado preocupação principalmente na Europa. Nova dose visa a fortalecer a resposta imunológica, mas prioridade no Brasil deve ser acelerar aplicação e completar esquema vacinal

10 jul 2021 05h10
| atualizado às 09h52
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Apontada como causa do agravamento da pandemia na Índia, a variante Delta do novo coronavírus é considerada "uma variante de preocupação" pela Organização Mundial de Saúde (OMS), da mesma forma que a Gama, originalmente detectada no Brasil. Segundo a organização, a Delta já circula em 98 países e já seria causadora da maioria das novas infecções em Reino Unido, Portugal, Alemanha, França e Espanha.

Foto: Estadão Conteúdo

Esse cenário já faz alguns países da Europa adiarem os planos de reabertura das atividades econômicas. Também leva a Europa a discutir a hipótese de aplicação de doses de reforço. No caso da AstraZeneca, estudos da própria Universidade de Oxford, que desenvolveu o imunizante, apontaram uma resposta imune mais robusta com a terceira dose.

Na França, a dose extra já é aplicada em pessoas com problemas imunológicos. O Reino Unido pretende aplicar o reforço a partir de setembro, especialmente em idosos. O país decidiu também reduzir o intervalo entre a primeira e a segunda dose das vacinas como estratégia de combate à Delta.

A Indonésia, país onde a maior parte da população recebeu vacinas chinesas, já se estuda a aplicação de uma dose a mais em profissionais de saúde. O reforço seria com o imunizante da Moderna, doado pelos EUA.

No Brasil, a Pfizer já recebeu autorização da Anvisa para conduzir um estudo clínico sobre a efetividade da aplicação de uma dose de reforço da vacina contra a covid-19 para maior proteção contra a infecção, sobretudo contra novas variantes. O imunizante da Pfizer é aplicado no País em duas doses, separadas por intervalo de noventa dias. A ideia agora é aplicar uma dose extra, de reforço, seis meses depois da segunda dose.

Na última quinta-feira, a farmacêutica pediu ao FDA, a agência de drogas e alimentos dos EUA, autorização para aplicar uma terceira dose, por causa do avanço da variante Delta no país. Dados de estudo conduzido pela Pfizer EUA mostram que a dose extra gera níveis de anticorpos cinco a dez vezes maiores do que os adquiridos com apenas duas.

Nos EUA, a variante Delta, que é mais transmissível e pode se espalhar rapidamente, provoca 25% dos casos. No Brasil, a prevalência é, em larga escala, da variante Gama, detectada originalmente em Manaus. De 70% a 100% dos casos nos Estados são desse tipo. Já se sabe que a Delta circula em São Paulo e, possivelmente, no Rio.

"A gente sabe que a resposta imunológica contra qualquer antígeno tende a cair depois de um tempo", explica o virologista Flávio Guimarães, pesquisador do Centro de Tecnologia de Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). "Para isso, temos a dose de reforço. Isso acontece com a pólio, com o sarampo. No caso da covid-19 é tudo muito recente, ainda estamos entendendo como essa queda acontece, depois de quantos meses, para quais variantes."

O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou na última quarta-feira que estudos conduzidos na China indicam que a Coronavac apresenta resultados positivos contra a Delta, ainda que mais baixos do que contra as demais variantes. Na quinta, 8, o instituto informou que estuda "a possibilidade de um reforço anual da vacina (que não deve ser confundido com uma terceira dose)" para ampliar sua eficiência.

Especialistas brasileiros dizem que prioridade no País deve ser para acelerar vacinação e dar a segunda dose

Pelo menos cinco Estados brasileiros pretendem reduzir os intervalos de doses das vacinas da Pfizer e da AstraZeneca (de três meses) com o objetivo de acelerar a imunização. A decisão já foi anunciada por Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Santa Catarina. São Paulo também estuda a redução.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que "acompanha a evolução das diferentes variantes do Sars-CoV-2 no território nacional e está atento à possibilidade de alterações no intervalo recomendado entre doses das vacinas covid-19 em uso no Brasil". Ainda segundo o comunicado, o tema foi discutido em reunião da câmara técnica realizada no último dia 2, e a recomendação foi de manutenção dos intervalos atuais.

Cientistas brasileiros ouvidos pelo Estado dizem que a prioridade hoje no País é acelerar a vacinação contra a covid e reforçar a importância de que as pessoas compareçam para tomar a segunda dose. Segundo os especialistas, quanto mais gente estiver protegida, menor a chance de circulação do vírus e menor o risco de surgimento de novas variantes.

Além disso, lembram, a variante Gama segue predominante no Brasil. Por enquanto, não há indícios concretos de que a Delta vá tomar o seu lugar.

"A Delta já foi registrada no País, mas não se tornou epidêmica", constata Guimarães. "Nem sabemos se vai se tornar."

A diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim) Flávia Bravo concorda com o colega. "Agora não é a hora de a gente pensar em terceira dose", afirma a especialista.

"É natural que países que estão muito avançados na imunização comecem a se preocupar com isso. Mas não é o nosso caso. O que a gente tem que fazer agora é garantir que as pessoas tomem o esquema completo (de uma ou duas doses, dependendo da vacina). Porque o que estamos vendo é justamente o aumento do número de casos nas faixas ainda não vacinadas. O que temos que fazer é vacinar todo mundo rapidamente para reduzir a circulação do vírus."

Estadão
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