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Quem são os Chicago Boys

Apelido surgiu quando chilenos cujos estudos foram bancados por governo americano voltaram dos EUA

15 jan 2021
20h06
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Os Chicago Boys surgiram com essa alcunha apenas após os primeiros estudantes chilenos retornarem dos Estados Unidos. Em 1955, durante a Guerra Fria, a PUC do Chile fechou uma parceria com o governo americano para que seus alunos pudessem estudar em Chicago com bolsas. O convênio durou até 1964 e teria formado cerca de 30 profissionais chilenos, segundo depoimento do professor americano Arnold Harberger registrado no filme Chicago Boys (2015).

Quando os primeiros estudantes chilenos voltaram a seu país de origem e assumiram o papel de professores, passaram a ser chamados de Chicago Boys pelos alunos. O apelido, no entanto, muitas vezes é usado para se referir apenas aos profissionais formados na instituição americana que fizeram parte da equipe econômica da ditadura de Augusto Pinochet.

Economistas chilenos em biblioteca de Chicago; foto é cena do filme 'Chicago Boys', de Carola Fuentes e Rafael Valdeavellano
Economistas chilenos em biblioteca de Chicago; foto é cena do filme 'Chicago Boys', de Carola Fuentes e Rafael Valdeavellano
Foto: Divulgação/Festival É Tudo Verdade / Estadão

Ao menos onze economistas chilenos que foram bolsistas do governo americano participaram do governo Pinochet. Rolf Lüders é um deles. Foi ministro da Economia em 1982 e da Fazendo em 1982 e 1983. Segundo ele, à época, as reformas liberais necessitavam de um governo autoritário para implementá-las.

"Entre os anos 1950 e 1970, os países em desenvolvimento tinham economias centralizadas, com resultados ruins. Apesar dos seus resultados medíocres, essas políticas tinham apoio da população. Foi necessária uma grande crise e um governo autoritário para quebrar o paradigma existente."

Hoje, porém, Lüders já não vê a necessidade de um presidente autoritário para adotar um projeto semelhante ao chileno. "A profissão de economista mudou suas recomendações de política econômica, que antes favoreciam a planificação e o protecionismo e agora favorecem o funcionamento de mercados livres."

O projeto chileno foi escrito por colegas de Lüders, antes mesmo do golpe instalar a ditadura. Reunidos, ex-alunos de Chicago elaboraram um plano econômico que seguia as diretrizes aprendidas na universidade americana e o batizaram de "El ladrillo", o tijolo, em português, dado o tamanho dos manuscritos.

O projeto é até hoje motivo de debate, pois indicaria que os economistas sabiam que havia um golpe em curso e teriam colaborado com ele. No filme Chicago Boys, no entanto, eles negam qualquer participação e destacam que "El ladrillo" foi escrito para quem quisesse adotá-lo, sendo uma colaboração para tentar tirar o Chile da crise econômica que havia se instalado no governo de Salvador Allende.

Por outro lado, alguns Chicago Boys não fizeram parte do governo ditatorial de Pinochet, mas tiveram papel de destaque na economia chilena posteriormente. É o caso de Ricardo Ffrench-Davis, que foi economista-chefe do Banco Central do Chile entre 1964 e 1970 e entre 1990 e 1992. Para quem, o sucesso econômico do Chile nada tem a ver com a cartilha de Chicago.

"O salto (na economia) se deu na democracia, principalmente nos anos 90. Na ditadura, houve grandes quedas e grandes recuperações, com um crescimento médio anual do PIB. No Chile, com a ditadura, a média de investimento foi de 17% do PIB. Na democracia, a taxa de investimento cresceu para 25%, nos anos 90."

As posições divergentes mostram que, apesar de a maioria dos Chicago Boys ter sido liberal, os economistas chilenos não eram um grupo completamente coeso - ao contrário dos Chicago Oldies, como Paulo Guedes apelidou parte de sua equipe econômica que também passou pela universidade americana difusora do pensamento neoliberal.

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