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Poder de Bolsonaro diminui a cada crise que ele próprio cria

Presidente produziu o que não desejava ao demitir ministro da Defesa e os comandantes das três Forças: coesão do alto escalão militar contra qualquer aventura autoritária

1 abr 2021 05h10
| atualizado às 07h24
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A principal característica política do mandato do presidente Bolsonaro é sua incapacidade de lidar com as instituições democráticas do país. Eleito com um discurso antissistema, imaginava que poderia moldar todos os Poderes, níveis de governo e instituições públicas às suas preferências. No fundo, a crítica que o bolsonarismo fazia ao sistema político carcomido tinha como objetivo criar uma autocracia, com todos se subordinando à Presidência e à família Bolsonaro.

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, tira a máscara antes de falar à mídia sobre a ajuda financeira emergencial do governo federal durante a crise do coronavírus (COVID-19) no Palácio do Planalto, em Brasília
O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, tira a máscara antes de falar à mídia sobre a ajuda financeira emergencial do governo federal durante a crise do coronavírus (COVID-19) no Palácio do Planalto, em Brasília
Foto: Ueslei Marcelino / Reuters

O estrago causado por esse tipo de comportamento presidencial não é pequeno. Bolsonaro conseguiu reduzir o poder e a autonomia do Ministério Público Federal, da Polícia Federal e de outros órgãos de Estado, sendo que alguns deles foram quase destruídos, como o IBGE e o Ibama. Tudo isso custará muito para o país. Só que o bolsonarismo fracassou, ainda bem, na subordinação de outras instâncias democráticas. O STF, o Congresso Nacional, a Federação e várias organizações da sociedade civil, como universidades e a mídia, não aceitaram ser comandados por um homem só e seus filhos. Nestes casos, Bolsonaro perdeu, mas é evidente que os confrontos da Presidência com todas essas estruturas de poder tiveram efeitos negativos sobre a qualidade da democracia brasileira.

O novo capítulo do projeto autoritário do presidente ocorreu na tentativa de controlar completamente as Forças Armadas, que seriam suas e não mais do povo brasileiro. A demissão do ministro da Defesa e dos comandantes das três Forças foi uma ação autocrata de quem queria expandir seu projeto unipessoal de poder. Porém, Bolsonaro produziu o que não desejava: o aumento da coesão do alto escalão militar contra qualquer aventura autoritária do bolsonarismo. Foi assim que teve de engolir um novo comandante do Exército que no final de semana passado dera uma receita contra a pandemia contrária ao negacionismo de Bolsonaro.

Na tentativa de destruir o sistema, Bolsonaro tem conseguido reduzir a qualidade da democracia - não estamos funcionando de um modo normal -, mas ao final tem gerado mais resistências do que aceitação. Ou seja, seu poder está diminuindo a cada crise que ele próprio cria. Mesmo assim, quando o presidente joga regularmente contra o sistema democrático, sempre há a possibilidade de mais um ato golpista. O "basta" final contra esse modo autoritário do bolsonarismo, infelizmente, ainda não foi dado pelas principais instituições do País.

*DOUTOR EM CIÊNCIA POLÍTICA PELA USP E PROFESSOR DA FGV-EAESP

Estadão
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