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Novo coronavírus e HIV: a resposta da ciência

Infectologista Marcia Rachid, referência no tratamento de pacientes com HIV no Brasil, explica diferenças no enfrentamento dos dois vírus

27 jun 2020
11h17
atualizado às 11h52
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Os primeiros casos de aids identificados no mundo são datados de 1981 e o HIV foi detectado somente em 1983. Foram dois anos sem saber o agente responsável. Esse tempo seria ainda mais catastrófico se hoje, diante da covid-19, o novo coronavírus (SARSCov2) não tivesse sido rapidamente relacionado à nova doença. São muitas as diferenças com as quais médicos e cientistas tiveram – e têm – que se defrontar no embate com os dois vírus causadores de pandemias

Lá atrás, o Brasil teve de esperar vários anos até fazer uso do primeiro medicamento para tentar combater o HIV – o antiviral AZT aportou por aqui em 1990/1991, apesar de as primeiras publicações mostrando bons resultados nos EUA já datarem de 1987. Além disso, não há até hoje nenhuma vacina contra o vírus da aids.

A infectologista Marcia Rachid atende pacientes portadores do HIV há mais de 35 anos
A infectologista Marcia Rachid atende pacientes portadores do HIV há mais de 35 anos
Foto: Divulgação

Essas circunstâncias, diante do que se vê hoje com a pandemia da covid-19, mostram o quanto a ciência evoluiu nas últimas décadas. Em poucos meses da nova infecção, já se conhecia o agente causal, sua forma de transmissão e medidas preventivas. Acrescente-se a isso a possibilidade real de surgirem vacinas em breve.

Para a infectologista Marcia Rachid, que trabalha há quase 40 anos com pacientes infectados pelo HIV, é possível verificar, no entanto, uma comparação especifica relacionada ao comportamento dos que conviveram próximos a pessoas com o HIV e os que atualmente tentam se proteger do novo coronavírus. Em ambos os casos, ela diz, reações despropositadas podem ser destacadas.

“Mesmo com a ciência avalizando em 1983 que não havia transmissão do HIV por aperto de mãos, abraço, uso compartilhado de talheres, os pacientes, muitos deles, eram abandonados, ninguém ia visitá-los. O estigma que os acompanhava matou tanto quanto a própria aids.”

 “Agora, o novo coronavírus, por ter transmissão aérea, impõe o distanciamento e pacientes internados não podem receber visitas. Há real restrição ao contato físico. Mas o que me chama mais a atenção são os exageros de alguns ao lavar sacolas plásticas e depois pendurá-las no varal, ao acionar o spray de álcool líquido e sair borrifando tudo que veem pela frente e até a lavar ovos e frutas em potes com água sanitária. Perdem a lógica por causa do medo. Basta lavar bem as mãos com água e sabão após tocar objetos. Pronto. Pra que tudo isso?”

Uma das fundadoras, em 1989, do Grupo Pela Vidda-RJ – entidade que se notabilizou pela luta contra o isolamento dos que vivem com HIV e aids e pela desconstrução do estigma relacionado à doença -, Marcia Rachid lançou recentemente o livro ‘Sentença de Vida’ (Editora Máquina de Livros), no qual destrincha com leveza e emoção seu convívio profissional com portadores daquele vírus desde os anos 80.

A obra traz relatos comoventes de quem fazia o papel de parente dos que carregavam a pecha de doentes por causa da orientação sexual (inicialmente, o HIV esteve bastante associado à homossexualidade masculina). “Eu via as pessoas morrendo e ficava ao lado delas porque sabia que ninguém ia aparecer.”

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Fonte: Silvio Alves Barsetti
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