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Coronavírus atinge a Venezuela e Maduro aperta repressão aos críticos

25 mar 2020
19h42
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Em 13 de março, Melquiades Ávila, líder indígena e jornalista no remoto Estado venezuelano de Delta Amacuro, perguntou em sua popular conta no Facebook: "Nosso hospital estará pronto para o coronavírus?"

Pessoas empurram carro sem combustível até posto durante quarentena pelo coronavírus em Caracas
23/03/2020
REUTERS/Manaure Quintero
Pessoas empurram carro sem combustível até posto durante quarentena pelo coronavírus em Caracas 23/03/2020 REUTERS/Manaure Quintero
Foto: Reuters

No início daquela semana, quando a Venezuela confirmou suas primeiras infecções pelo novo coronavírus, o Ministério da Saúde do presidente Nicolás Maduro listou em seu site o Hospital Luis Razetti, de Delta Amacuro, como um dos 46 centros médicos "preparados" para receber pacientes com Covid-19.

Ávila enumerou vários motivos, todos confirmados pela Reuters em entrevistas com médicos do hospital, de por que a alegação era falsa: a instalação não possui monitores de pressão arterial, seringas ou reagentes para diagnosticar infecções por coronavírus.

"Que piada", escreveu Ávila.

Um dia depois, Lizeta Hernández, governadora de Delta Amacuro e integrante do governista Partido Socialista, pediu a prisão de Ávila, acusando-o de "incitação ao ódio" e denunciando-o como "criminoso". Ela ordenou que o destacamento do Exército estadual detivesse Ávila "para que eu possa lhe dar uma aula no sentido de dever público".

Em uma mensagem de voz à Reuters, a governadora disse nesta semana que só queria "orientar" Ávila e garantir que ele estivesse sendo "sério e responsável" como jornalista. Ela se recusou a responder perguntas sobre o hospital ou confrontos anteriores com Ávila, que há anos critica os cuidados de saúde no Estado.

Raquel Ruiz, diretora do hospital, negou que as instalações não estejam preparadas. As autoridades estaduais, acrescentou, estão preparando um prédio próximo para tratar pacientes com coronavírus.

A ameaça contra Ávila, que agora está escondido, mas falou com a Reuters por telefone, é um de pelo menos sete episódios recentes em que as autoridades venezuelanas tentaram prender críticos da reação do governo ao coronavírus, segundo entrevistas com três acusados e advogados de quatro outros.

Além de Ávila, a polícia deteve um parlamentar da oposição que tuitou --corretamente, de acordo com os profissionais de saúde da instalação-- que outro hospital da lista "preparada" não tem água corrente. A polícia também prendeu um técnico médico aposentado que, em um vídeo, disse que um hospital no Estado de Monagas não estava preparado.

Autoridades dos ministérios da Saúde, Justiça e Informação da Venezuela não responderam aos pedidos de comentários sobre detenções, condições nos hospitais ou envolvimento da polícia na resposta ao coronavírus.

Mesmo em circunstâncias normais, a dissidência pode submeter cidadãos à prisão, sentenças de prisão ou coisa pior na Venezuela, onde políticas agressivas de segurança levaram democracias ocidentais a sancionar o governo por violações dos direitos humanos. Agora, oponentes do governo dizem que o coronavírus oferece uma nova oportunidade para Maduro reprimir.

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