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Austrália destrói cloroquina doada por bilionário

Clive Palmer é um entusiasta da droga sem comprovação científica e que recentemente passou a espalhar conteúdo antivacinas

14 out 2021 05h48
| atualizado às 07h09
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Milhões de comprimidos de hidroxicloroquina foram destruídos, após governo recusar doação feita pelo bilionário populista Clive Palmer, um entusiasta da droga que recentemente passou a espalhar conteúdo antivacinas.Cerca de cinco milhões de comprimidos de hidroxicloroquina - o equivalente a uma tonelada da droga - que haviam sido adquiridos por um controverso bilionário do país em 2020 foram destruídos na Austrália.

Embalagem com cloroquina
REUTERS/Ueslei Marcelino
Embalagem com cloroquina REUTERS/Ueslei Marcelino
Foto: Reuters

O caso foi revelado nesta quarta-feira (13/10) pelo jornal The Guardian, que apontou que o estoque ficou parado por meses num galpão do aeroporto de Melbourne, após o governo australiano se recusar a receber a doação.

Os comprimidos haviam sido doados por Clive Palmer, um bilionário do ramo da mineração, que abraçou ainda em março de 2020 a hidroxicloroquina como um suposto tratamento contra a covid-19, chegando a pagar anúncios em jornais que chamavam a droga de "cura contra a covid". Palmer chegou a prometer doar um total de 32,9 milhões de comprimidos à Austrália.

Inicialmente, o governo do país manifestou interesse na oferta, mas, conforme testes mostraram que a droga era ineficaz contra a doença, o interesse das autoridades evaporou. O governo já vinha recusando doações em maio de 2020.

A carga que foi destruída chegou ao país em agosto, quando autoridades sanitárias australianas também já haviam emitido alertas para que a população não tomasse a droga para tratar ou "prevenir" a covid-19. Algumas autoridades locais foram mais longe e ameaçaram multar médicos que prescrevessem a droga para doenças não indicadas na bula, como a covid-19.

A hidroxicloroquina nunca chegou a ser usada em larga escala contra a covid-19 na Austrália e seu uso foi majoritariamente limitado a estudos clínicos.

De acordo com The Guardian, o estoque de uma tonelada doado por Palmer ficou parado no aeroporto até abril de 2021, quando foi finalmente destruído.

Ainda segundo o jornal, documentos do governo australiano apontam que Palmer, numa tentativa de autopromoção, chegou a pedir autorização para estampar seu nome e o logo da sua fundação nos comprimidos de hidroxicloroquina doados, o que foi negado pelas autoridades sanitárias.

Um bilionário polêmico

Ao longo da pandemia, Palmer alternou uma postura pública de promoção da hidroxicloroquina com declarações negacionistas e ataques a governadores que haviam decretado medidas de isolamento em seus estados.

Ele já comparou coronavírus a uma "gripe" e disse que as mortes causadas pela doença eram comparáveis às causadas por acidentes de trânsito. Em julho de 2020, ele entrou na Justiça contra as autoridades do estado da Austrália Ocidental, que haviam fechado as fronteiras internas da região para conter a doença. Em resposta, o governador local, Mark McGowan, chamou Palmer de "inimigo do Estado" e o "maior egomaníaco da Austrália".

Mais recentemente, Palmer divulgou anúncios em uma rádio levantando temores infundados sobre riscos envolvendo vacinas e chegou a mandar pelo correio panfletos com conteúdo antivacinas para milhares de cidadãos australianos.

Dono de uma fortuna avaliada em quase US$ 10 bilhões, o empresário Palmer é uma figura conhecida na Austrália por fazer anúncios bombásticos e lançar projetos de vaidade. Em 2013, ele apareceu em reportagens mundo afora ao anunciar que pretendia construir uma réplica do famoso transatlântico Titanic, que naufragou em 2012. O projeto, no entanto, nunca avançou.

Ele também já se lançou na política. Atualmente é líder do Partido Unido da Austrália. Nas eleições de 2019, despejou milhões numa campanha para eleger deputados e usou o slogan "Make Australia Great" (numa alusão à campanha do americano Donald Trump), mas sua legenda não conquistou nenhuma cadeira.

Uma droga ineficaz

A hidroxicloroquina é um remédio indicado para tratamento de malária, lúpus e artrite reumatoide. No entanto, em março de 2020, o remédio despertou brevemente o interesse de alguns governos como um potencial tratamento contra a covid-19, que à época se alastrava com força.

Tudo teve origem em um anúncio do controverso pesquisador francês Didier Raoult, que no dia 17 de março divulgou um estudo preliminar em 24 pacientes, o qual havia apontando que a hidroxicloroquina foi eficaz no tratamento da covid-19. No entanto, o estudo de Raoult foi criticado em círculos científicos por causa da sua amostra limitada e hoje o pesquisador é considerado um pária.

Quase todas as nações do mundo abandonaram o interesse pelo uso da droga no tratamento da covid-19 em poucas semanas, mas o entusiasmo pela hidroxicloroquina ainda persiste em círculos de extrema direita, que promovem teorias conspiratórias contra o establishment científico.

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro hoje é um caso isolado de líder mundial que ainda aposta na droga, mesmo contra todas as evidências científicas. Seu governo chegou a lançar no início de 2021 um aplicativo que indicava hidroxicloroquina até mesmo para bebês e foi acusado de fazer um "pacto" com uma rede de hospitais que usou pacientes como cobaias para um estudo altamente maquiado sobre os efeitos da droga. Bolsonaro também já chamou falsamente a droga de "cura" contra covid-19.

 

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