Congo inicia testes de vacina em meio ao surto da espécie mais letal já registrado do Ebola
O teste com o imunizante começa quando o Ebola Bundibugyo já tem 10.060 casos confirmados e 4.887 mortes. A vacina usada foi desenvolvida para outro subtipo do vírus
A República Democrática do Congo enfrenta o maior surto da espécie Bundibugyo do vírus Ebola, com mais de 10 mil casos e quase 5 mil mortes. Diante da alta letalidade e da dispersão regional, o país iniciou o estudo Tumaini para testar a vacina Ervebo e outras fórmulas em desenvolvimento. O ensaio clínico adota a vacinação em anel, mas enfrenta desafios como rastreamento deficiente, conflitos armados e riscos de contaminação hospitalar na triagem e no uso inadequado de equipamentos de proteção.
A República Democrática do Congo, na África Central, enfrenta o maior surto da espécie Bundibugyo do vírus Ebola já registrado. Até 25 de outubro, foram confirmados 10.060 casos e 4.887 mortes, segundo autoridades de saúde congolesas. De cada dois diagnósticos confirmados, um terminou em morte. Até o momento, é o segundo maior surto de Ebola em número de casos. Os casos se concentram no leste do país, perto das fronteiras com Uganda e Ruanda.
Na tentativa de obter novas ferramentas para conter o avanço da doença, na sexta-feira, 23 de outubro, começaram os testes com a vacina Ervebo, do laboratório farmacêutico Merck. Trata-se de uma vacina licenciada para prevenir a doença causada pelo vírus Ebola da espécie Zaire e sua eficácia contra Bundibugyo ainda é desconhecida.
Essa vacinação é o ponto de partida do estudo Tumaini, o primeiro ensaio clínico que avalia vacinas candidatas contra o vírus Bundibugyo. Se a Ervebo não proteger contra a espécie que está causando o surto, duas candidatas inéditas serão testadas em seguida.
O primeiro participante do novo ensaio recebeu uma dose dessa vacina em Bunia. Até 27 de outubro, quatro pessoas haviam tomado a vacina. Todos tiveram contato com pacientes infectados pelo vírus Ebola.
Variedades de ebola
Existem seis espécies de ebolavírus. A espécie Zaire causou as epidemias da África Ocidental (2014-2016) e de Kivu (2018-2020). O imunizante Ervebo foi usado em Kivu, que registrou cerca de 3.500 casos, e foi decisivo para a contenção da epidemia.
Ainda não há vacina ou tratamento específico para a variedade Bundibugyo, identificada em Uganda em 2007. Antivirais e anticorpos monoclonais candidatos estão sendo avaliados em estudos clínicos.
As proteínas de superfície das duas espécies (Bundibugyo e Zaire), que são o alvo da resposta imune, possuem diferenças suficientes para que ninguém possa afirmar que a proteção contra uma vale para a outra. Estudos em macacos sugerem proteção parcial. É isso que o ensaio precisa confirmar ou descartar.
A escolha de começar pela vacina Ervebo é pragmática. Ela já está disponível em estoque e tem perfil de segurança conhecido após uso em dezenas de milhares de pessoas. No surto atual, porém, ainda não se sabe se protege contra o vírus Bundibugyo; por isso, seu uso ocorre dentro de um protocolo de pesquisa.
Duas candidatas específicas para o Bundibugyo, selecionadas por um processo de priorização conduzido por um grupo técnico da OMS, devem entrar no estudo TUMAINI nas próximas semanas. Uma delas, a ChAdOx1 BDBV, desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com o Serum Institute of India, usa um vetor adenoviral. A outra, a mRNA-1469, da farmacêutica Moderna, usa tecnologia de RNA mensageiro. As duas já começaram a ser testadas em humanos em estudos de fase 1, embora ainda devam ser incorporadas ao TUMAINI.
Como será o teste
O estudo Tumaini usa o esquema de vacinação em anel, o mesmo desenho que provou a eficácia da vacina Ervebo na Guiné em 2015. Quando um caso é confirmado, os contatos do paciente e os contatos desses contatos formam um "anel" de pessoas que serão vacinadas.
No Tumaini, a comparação será feita entre participantes que receberão vacinas candidatas diferentes, conforme o protocolo. Dois anéis já estão em funcionamento e outros estão sendo criados. O estudo inclui gestantes e crianças a partir de 12 anos, grupos que ficaram de fora dos primeiros ensaios de 2015 e que hoje representam parte importante dos casos.
O desenho é adaptativo: uma plataforma única, conduzida pelas autoridades congolesas, permite incluir ou retirar vacinas conforme os dados chegam, sem recomeçar o estudo. É o mesmo princípio dos ensaios de tratamento da COVID-19, que compararam vários medicamentos dentro de um só protocolo. Os primeiros resultados deverão sair em alguns meses.
Existe, porém, um obstáculo que nenhum desenho de ensaio resolve. Vacinar em anel exige encontrar os contatos. No Congo, o seguimento de contatos está em 79,7%, ou seja, abaixo dos 95% que a OMS considera mínimo. Em Kivu do Norte, província com conflito armado ativo, o seguimento atinge 73% das pessoas vacinadas.
Na semana anterior ao início do estudo, foram 976 casos e 482 mortes, e 64% dessas mortes aconteceram na comunidade, fora de qualquer centro de tratamento. Pessoas que morrem sem diagnóstico não participam do anel de testes.
Além do Congo
Enquanto o ensaio começava, o surto já tinha a maior dispersão geográfica de um evento de Ebola na África. No Quênia, um homem que trabalhava no Congo chegou a Nairóbi de avião em 3 de outubro e morreu dois dias depois. Dos oito casos secundários ligados a ele, quatro são profissionais de saúde.
Na Nigéria, um caso importado foi confirmado em Abuja em 20 de outubro, em um paciente vindo de Uganda. O caso queniano chegou a um hospital de capital, em um sistema muito mais estruturado que o do leste congolês, e ainda assim metade da transmissão secundária aconteceu dentro do serviço de saúde. É o padrão do Ebola desde 1976: o profissional atende o paciente antes de qualquer suspeita, porque nas primeiras horas a doença parece malária ou sepse comum. Na doença pelo vírus Bundibugyo, o sangramento, que acionaria um alerta, é menos frequente do que na doença causada pelo vírus Ebola da espécie Zaire.
Uma revisão publicada em junho no Journal of Hospital Infection examinou como proteger quem cuida de pacientes com Ebola em zona de conflito sem equipamentos médicos para pressão negativa, sem respirador motorizado e sem equipe suficiente. Essa é a situação de Ituri, província do nordeste da República Democrática do Congo.
A conclusão do conjunto de estudos contraria a expectativa de que o problema se resolveria com equipamento melhor. Em estudos de simulação, os resultados sobre uso de equipamentos de proteção individual (EPIsTodos tiveram contato de pacientes) mais elaborados e o risco de autocontaminação durante a retirada foram limitados e heterogêneos.
O momento de maior risco, segundo a revisão, é a retirada dos EPIs por profissionais de saúde, com mais de 50 tipos de erro catalogados. O que reduz esse risco é um observador treinado acompanhando cada retirada com uma lista de verificação.
A revisão propõe oito medidas, organizadas por prioridade de implementação. Entre elas, está a recomendação de que nas primeiras 72 horas seja feita uma triagem na entrada da unidade, com separação física das áreas de atendimento (lona plástica serve), retirada supervisionada dos EPI e escala restrita de quem entra na zona de isolamento.
Nas duas primeiras semanas, é necessário fornecer equipamentos de proteção compatíveis com as condições locais, organizar equipes de sepultamento seguro em diálogo com a comunidade e estabelecer rotinas de limpeza, manejo de resíduos e monitoramento dos profissionais expostos.
Depois, é preciso oferecer treinamento modular às equipes comunitárias. O conjunto de medidas prioriza ações adaptáveis a contextos com recursos limitados. Em publicação feita em maio, a OMS afirmou que a prioridade é interromper a transmissão com ferramentas já usadas em outros surtos, enquanto vacinas e tratamentos específicos são avaliados.
As lições para o Brasil
O risco de um caso importado existe, e o Ministério da Saúde brasileiro publicou orientações para identificar e manejar casos suspeitos e contatos. O país também ativou o plano nacional de contingência.
A lição a ser aproveitada e colocada em prática é a estrutura do risco: em quase todo hospital do Congo, o primeiro contato com o paciente infeccioso aconteceu antes da suspeita. Além disso, a retirada do EPI do profissional de saúde foi feita sem ninguém olhando.
A COVID-19 mostrou isso em 2020, quando hospitais compraram máscaras muito mais rápido do que treinaram as equipes para usá-las. Ainda que o estudo Tumaini traga novos dados sobre as vacinas, é necessário ter clareza de que a transmissão dentro dos serviços de saúde, no Congo ou aqui, se mantém por causa de medidas além da imunização.
Klinger Soares Faíco Filho é fundador e editor-chefe da InfectoCast, plataforma de educação médica em doenças infecciosas que oferece podcast, cursos, aplicativo por assinatura, eventos e conteúdos voltados a profissionais de saúde. A InfectoCast não teve participação neste artigo.
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