Lula é orientado por Itamaraty a não dar corda para Milei e Trump no episódio da fuga de Flávio
Governo aposta em derrota do trumpismo nas eleições de meio de mandato e não quer patrocinar 'palanque para maluco'
O presidente Lula foi orientado pelo Itamaraty a adotar postura pragmática e ignorar provocações de Donald Trump e Javier Milei, que auxiliaram na fuga do senador derrotado Flávio Bolsonaro para os EUA, descumprindo ordem do STF. A diplomacia brasileira avalia que responder aos líderes daria palanque a adversários e prefere tratar o caso na esfera judicial, enquanto aguarda o resultado das eleições de meio de mandato americanas para recalcular os próximos passos da relação bilateral.
BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi orientado pelo Itamaraty a adotar uma estratégia pragmática e não reagir a provocações dos presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Argentina, Javier Milei, que ajudaram na fuga do senador Flávio Bolsonaro para Miami.
Derrotado no segundo turno da disputa, Flávio contou com uma detalhada operação montada pelos governos argentino e americano para chegar a Miami, nos Estados Unidos, onde desembarcou na manhã de quarta-feira.
Dois dias antes, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes havia determinado que Flávio entregasse os seus passaportes à Polícia Federal, proibindo o senador de deixar o País. O senador é alvo de dois inquéritos no STF e perde o foro privilegiado em 31 de janeiro de 2027, quando termina o seu mandato.
Lula se reuniu na manhã desta quinta-feira, 29, com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, horas antes de ele embarcar para Atlanta (EUA), com o objetivo de participar da reunião de chanceleres do G20.
O encontro tem como anfitrião o secretário de Estado americano, Marco Rubio, visto pelo governo brasileiro como o maior aliado da família Bolsonaro nos Estados Unidos e um dos homens que fazem a cabeça de Trump contra Lula. De acordo com o jornal britânico The Guardian, Rubio assinou pessoalmente um memorando para liberar US$ 1 milhão (mais de R$ 5 milhões) a um projeto que financia grupos da sociedade contrários ao que o governo Trump classifica como "censura" por parte do STF.
Sob reserva, um embaixador disse que Vieira provavelmente se encontrará com Rubio, embora não haja nenhuma reunião marcada. Na avaliação do Itamaraty, porém, Lula deve ignorar a fuga de Flávio e deixar esse assunto para a esfera judicial.
Entrar no bate-boca com Trump e Milei, que até agora não reconheceram a vitória do presidente, seria o mesmo que "dar palanque para maluco", disse um dos diplomatas ouvidos pelo Estadão. No domingo, Lula recebeu 64.256.232 votos (51,79% dos válidos). Flávio, por sua vez, obteve 59.826.041 (48,21%)
Em carta divulgada nesta quarta-feira, 28, Flávio se autointitulou como "verdadeiro presidente eleito do Brasil". Na primeira das quatro versões do comunicado, o brasão da República continha a palavra Brasil escrita com "z". Na última, o candidato derrotado do PL recuou e substituiu a expressão "verdadeiro presidente" por "líder do Brasil".
O governo Lula também aposta que o trumpismo sairá enfraquecido das eleições legislativas de meio de mandato, as chamadas midterms, na próxima terça-feira, 3. Há expectativa de perda da maioria parlamentar do Partido Republicano, de Trump, na votação que definirá a composição do Congresso americano, justamente no meio do mandato do presidente dos Estados Unidos.
Nesse cenário, a fuga de Flávio, sob patrocínio de Trump e Milei, é classificada por auxiliares de Lula como um "episódio de perdedores". A orientação do Itamaraty para o presidente, diante de tanta turbulência, é aguardar as eleições americanas de terça-feira para definir os próximos passos. O resultado dessa disputa, porém, não terá qualquer impacto sobre o tarifaço imposto aos produtos brasileiros.
Até agora, nem mesmo declarações de Trump, que chamou as eleições no Brasil de "vergonha", mereceram resposta do presidente. A não ser que haja uma mudança de última hora na estratégia planejada, diante de algum fato novo, a intenção de Lula é deixar Flávio e seus aliados falando sozinhos.
A situação deve atrasar, no entanto, a análise feita pelo governo sobre a concessão do agrément (consentimento oficial) ao deputado estadual Daniel Perez, nome indicado por Trump para assumir a embaixada dos EUA no Brasil.
Em resolução política aprovada nesta quinta-feira, a Executiva Nacional do PT afirma que a posição de Trump sobre o resultado das eleições no Brasil, abrigando Flávio em território americano, merece atenção.
"O Brasil não aceitará que interesses estrangeiros interfiram em sua democracia, nem que disputas políticas sirvam de pretexto para desrespeitar a vontade soberana do povo brasileiro, em eleições amplamente fiscalizadas e reconhecidas por sua lisura", destaca o texto. Para a cúpula do PT, a tentativa de Flávio de conclamar a interferência externa representa "um novo degrau da reação autoritária por parte dos derrotados nas urnas".
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