Como dois soldados norte-coreanos causaram crise diplomática entre Ucrânia e Coreia do Sul
Uma crise diplomática eclodiu entre Ucrânia e Coreia do Sul após o presidente Volodimir Zelenski revelar na ONU que enviou a Seul dois prisioneiros de guerra norte-coreanos capturados lutando pela Rússia. O governo sul-coreano acusou Kiev de violar um acordo de confidencialidade, exigiu desculpas e teme retaliações de Pyongyang. A Ucrânia nega a existência do pacto de sigilo. Acolhidos por Seul a pedido próprio, os dois soldados passarão por interrogatórios antes de receberem proteção legal.
Zelenski diz na ONU que Ucrânia enviou dois prisioneiros de guerra norte-coreanos à Coreia do Sul e irrita governo em Seul, que reclama de quebra de acordo de confidencialidade.A acusação de violação de um acordo de confidencialidade sobre a transferência de dois prisioneiros de guerra norte-coreanos gerou uma crise diplomática entre os governos da Coreia do Sul e da Ucrânia.
O Ministério do Exterior da Coreia do Sul convocou nesta segunda-feira (28/09) o embaixador da Ucrânia em Seul para protestar, e o governo em Seul está exigindo um pedido de desculpas do governo ucraniano. Seul considerou grave "o fato de o lado ucraniano ter violado o acordo de confidencialidade entre os dois países e divulgado [a informação] unilateralmente".
A declaração se refere ao anúncio feito pelo presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, durante seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, de que Kiev havia enviado recentemente dois militares norte-coreanos para território sul-coreano.
Horas depois, o presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, acusou a Ucrânia de violar um acordo de confidencialidade. "Não sei por que o lado ucraniano rompeu o acordo e tornou o caso público, mas isso é muito decepcionante", declarou.
Um assessor de Zelenski, Dmytro Lytvyn, argumentou que a Ucrânia é um "país aberto" e que entregar os soldados em segredo teria sido algo estranho. "De toda a história, que é longa e detalhada, apenas relatamos o fato em si: que eles foram enviados para a República da Coreia", declarou.
O que se sabe sobre os dois soldados
Os dois militares foram capturados em 2025 pelas forças ucranianas e integravam o contingente enviado pela Coreia do Norte para combater ao lado das tropas russas na guerra contra a Ucrânia.
Ainda na Ucrânia, os dois militares disseram em entrevistas à imprensa que desejavam se estabelecer na Coreia do Sul. Numa carta enviada a uma organização não governamental de Seul, manifestaram o desejo de ter uma "vida normal" no país. Um deles disse à imprensa sul-coreana que foi recrutado aos 17 anos e serviu numa unidade de reconhecimento. Seul havia pedido à Ucrânia que não os devolvesse à Coreia do Norte, onde poderiam enfrentar perseguição.
A Coreia do Sul considera legalmente a Coreia do Norte parte de seu território e possui uma política de acolhimento e apoio financeiro a desertores norte-coreanos. A Constituição sul-coreana considera cidadãos do país todos os coreanos, incluindo os residentes na Coreia do Norte, o que também se aplica a esses dois soldados.
O parlamentar da oposição Yu Yong-weon, que se reuniu com os soldados na Ucrânia em fevereiro de 2025, afirmou que ambos serviram em forças especiais norte-coreanas e poderiam fornecer informações sobre treinamento militar, capacidades bélicas e a participação do regime em Pyongyang na guerra.
Havia um acordo de confidencialidade?
O presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, acusou a Ucrânia de violar um acordo de confidencialidade sobre a transferência dos soldados. A Ucrânia negou a existência desse acordo.
Na versão de Seul, havia um claro acordo entre os dois países para manter a questão em sigilo. Por isso, o governo sul-coreano protestou contra o que chamou de declaração falsa do gabinete presidencial ucraniano ao negar a existência desse acordo.
Segundo Seul, a negação do acordo é "um ato que prejudica seriamente a confiança entre os dois governos e causa danos significativos às relações amistosas entre os dois países".
Por isso, a Coreia do Sul exige formalmente "uma explicação e um pedido oficial de desculpas". A presidência acrescentou que está avaliando "medidas adicionais que possam ser necessárias", sem fornecer detalhes.
Seul afirmou que o acordo foi alcançado devido a preocupações com a segurança dos soldados norte-coreanos e de seus familiares na Coreia do Norte, enquanto Kiev temia críticas internas por abrir mão da possibilidade de trocá-los por soldados ucranianos mantidos pela Rússia.
O que Zelenski disse na ONU?
Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU na semana passada, Zelenski afirmou que a Ucrânia havia transferido dois soldados norte-coreanos capturados para a Coreia do Sul. Ele disse que os homens haviam sido capturados recentemente enquanto lutavam pela Rússia na guerra contra a Ucrânia, acrescentando que "não foi fácil capturá-los vivos".
Zelenski não forneceu detalhes sobre a transferência, mas afirmou que "um deles, ao perceber que seria feito prisioneiro, tentou se matar e ficou chocado quando o destino não permitiu que morresse. É assim que as pessoas são educadas no Norte".
Alguns especialistas acreditam que Zelenski provavelmente decidiu tornar o caso público para destacar os riscos do envolvimento norte-coreano na guerra e, assim, obter maior apoio dos países ocidentais.
Como a Coreia do Sul reagiu à guerra na Ucrânia?
Mesmo sendo uma exportadora crescente de armamentos e detentora de uma força militar moderna apoiada pelos Estados Unidos, a Coreia do Sul tem fornecido apenas ajuda humanitária e outras formas de assistência à Ucrânia, além de aderir às sanções econômicas lideradas por Washington contra a Rússia desde a invasão de 2022.
Seul tem resistido aos apelos de Kiev e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para fornecer apoio militar direto. Seguindo sua política de longa data de não fornecer armas a países envolvidos em conflitos ativos, o governo sul-coreano concentrou-se até agora em ajuda não letal, incluindo equipamentos de desminagem.
O presidente Lee Jae-myung anunciou um pacote de apoio de 100 milhões de dólares para a Ucrânia durante uma cúpula da Otan em julho, reiterando que armas letais continuariam excluídas. Seul também prometeu manter a assistência humanitária e o apoio à reconstrução.Mas o governo tem analisado pedidos por armamentos defensivos, especialmente após o envio de tropas norte-coreanas para apoiar a Rússia.
Que processo os soldados irão enfrentar?
Espera-se que os soldados norte-coreanos passem por interrogatórios e verificações de segurança antes que as autoridades sul-coreanas decidam se lhes concederão proteção e iniciem o processo de integração deles à sociedade.
O Ministério da Unificação do país afirmou que os casos serão analisados com base na legislação pertinente e em casos anteriores, indicando que a Lei de Proteção e Apoio ao Reassentamento de Desertores Norte-Coreanos deverá ser aplicada.
Segundo essa lei, o Serviço Nacional de Inteligência (NIS) investiga os requerentes sob custódia protetiva temporária, verificando sua identidade, os motivos para deixarem a Coreia do Norte e questões relacionadas à segurança.
A investigação e a proteção temporária podem durar até 90 dias, com possibilidade de extensão em circunstâncias inevitáveis. Os antecedentes militares dos soldados e seu conhecimento direto sobre o destacamento norte-coreano na Rússia podem resultar em interrogatórios mais aprofundados.
Quem decide se eles receberão proteção?
Normalmente, o ministro da Unificação decide se um norte-coreano recém-chegado tem direito à proteção. Entretanto, o diretor do NIS pode tomar essa decisão por razões de segurança nacional.
O parlamentar Yu Yong-weon afirmou à agência de notícias Reuters que a sensibilidade do caso pode mantê-los longe da exposição pública por mais tempo do que outros desertores norte-coreanos.
A condição física e psicológica dos soldados também deverá ser avaliada. Yu disse que, quando os encontrou, eles estavam mantidos separadamente numa instalação de detenção na Ucrânia e que o prolongado isolamento e a incerteza podem ter afetado sua saúde mental.
A Ucrânia tem o direito de transferi-los?
A Terceira Convenção de Genebra determina que prisioneiros de guerra devem ser libertados e repatriados sem demora após o fim das hostilidades ativas. Isso, porém, não impede necessariamente sua libertação antecipada ou transferência para um terceiro país.
A Coreia do Sul e a Ucrânia não divulgaram a base jurídica da transferência, incluindo se ela encerrou formalmente ou não o status dos militares como prisioneiros de guerra.
O pesquisador Peter Ward, do Instituto Sejong, afirmou que a repatriação é um princípio básico para casos de prisioneiros de guerra, mas não deveria ser aplicada quando puder prejudicar seu bem-estar ou seus direitos humanos.
"Há ampla base no direito humanitário e nos direitos humanos para que esses prisioneiros de guerra sejam transferidos para um terceiro país de sua escolha, desde que esse país esteja disposto a recebê-los", afirmou Ward.
Lee Shin-wha, professora da Universidade da Coreia e especialista em questões de direitos humanos na Coreia do Norte, disse que a transferência pode gerar atritos jurídicos e diplomáticos porque o direito internacional trata a Coreia do Norte como um Estado separado, enquanto a Coreia do Sul considera os norte-coreanos seus cidadãos.
Segundo ela, o desejo manifestado pelos soldados de ir para o Sul e os riscos que poderiam enfrentar no Norte fornecem fundamentos para o Sul aceitá-los.
Eles poderiam ter sido devolvidos à Coreia do Norte?
O direito internacional pesa contra a devolução dos soldados caso exista um risco real de tortura, perseguição ou outros maus-tratos graves. O princípio da não devolução (non-refoulement) proíbe o envio de pessoas para um país onde enfrentem tais riscos.
Lee Shin-wha afirmou que a repatriação é a regra geral para prisioneiros de guerra, mas que a prática internacional também reconhece a repatriação voluntária e proíbe devoluções que possam resultar em perseguição ou tortura. O líder norte-coreano, Kim Jong-un, elogiou soldados que cometeram suicídio quando lutavam contra forças ucranianas na região russa de Kursk, onde os dois militares foram capturados.
Ward afirmou que a Coreia do Norte tem pouca base jurídica no direito internacional para exigir o retorno deles.
Acordo entre Rússia e Coreia do Norte
A Coreia do Norte e a Rússia confirmaram, em abril de 2025, que seus soldados combateram juntos para repelir uma incursão ucraniana na região fronteiriça russa de Kursk. O serviço de inteligência sul-coreano estimou no ano passado que a Coreia do Norte enviou cerca de 15 mil soldados para lutar no conflito na Ucrânia, dos quais aproximadamente 2 mil morreram.
A Coreia do Sul, os Estados Unidos e outros países afirmam que a Coreia do Norte também forneceu artilharia, munições e mísseis à Rússia em troca de assistência econômica e militar.
Qual é o contexto diplomático?
O governo sul-coreano teme que a divulgação da transferência provoque uma reação hostil da Coreia do Norte e prejudique os esforços para retomar a diplomacia entre Pyongyang e Washington.
Desde que assumiu o poder em junho de 2025, o presidente Lee Jae-myung reverteu a postura de seu antecessor conservador, Yoon Suk-yeol, oferecendo negociações sem pré-condições à Coreia do Norte, potência dotada de armas nucleares.
"O presidente sul-coreano parece estar adotando uma abordagem discreta porque está atento a uma possível reação da Coreia do Norte", afirmou o especialista Park Won-gon, em Seul. "A Coreia do Norte tem usado os soldados enviados ao exterior para construir uma narrativa heroica para sua propaganda oficial, e o governo sul-coreano parece preocupado que confirmar o retorno dos prisioneiros ao Sul e divulgar amplamente esse fato possa aumentar ainda mais a hostilidade contra Seul", avaliou.
A ampliação da cooperação com a Rússia ajudou Kim a resistir à pressão liderada pelos Estados Unidos e a acelerar de forma mais assertiva seu programa de armas nucleares.
No mês passado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reduziu a escala de um exercício militar conjunto com a Coreia do Sul numa aparente tentativa de retomar a diplomacia com Kim, mas a Coreia do Norte sinalizou que a medida não foi suficiente para convencê-la a retornar às negociações.
as/cn (Reuters, AP, AFP, DPA, Lusa)
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