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Como as políticas sociais generosas da Dinamarca cortam em 80% o "custo-maternidade"

Duas pesquisadoras descobriram que os benefícios do governo dinamarquês não compensam totalmente a perda de rendimentos das mães, mas ajudam em muito as mulheres trabalhadoras com filhos.

20 fev 2026 - 09h59
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Uma mãe dinamarquesa deixa seu filho pequeno em uma escola em Copenhague: forte apoio financeiro do governo às mães pode tornar a maternidade mais acessível e promover a igualdade de gênero em termos de recursos econômicos. Sergei Gapon/AFP via Getty Images
Uma mãe dinamarquesa deixa seu filho pequeno em uma escola em Copenhague: forte apoio financeiro do governo às mães pode tornar a maternidade mais acessível e promover a igualdade de gênero em termos de recursos econômicos. Sergei Gapon/AFP via Getty Images
Foto: The Conversation

Para muitas mulheres em todo o mundo, a maternidade acarreta custos profissionais.

Criar filhos tende a levar a salários mais baixos e menos horas de trabalho para as mães — mas não para os pais — em países ao redor do mundo.

Como socióloga, estudo como as relações familiares podem moldar suas circunstâncias econômicas. No passado, estudei como a maternidade tende a reduzir os salários das mulheres, algo que os cientistas sociais chamam de "custo-maternidade (motherhood penalty, no original em inglês)".

Eu me perguntei: os programas governamentais que oferecem apoio financeiro aos pais podem compensar o custo-maternidade nos rendimentos?

O "custo-maternidade"

Juntei-me a Therese Christensen, uma socióloga dinamarquesa, para responder a essa pergunta para as mães na Dinamarca — um país escandinavo com um dos melhores sistemas de bem-estar social do mundo e mais fortes redes de segurança social.

Várias políticas dinamarquesas têm como objetivo ajudar as mães a permanecerem empregadas.

Por exemplo, creches subsidiadas estão disponíveis para todas as crianças a partir dos 6 meses de idade até que possam frequentar a escola primária. Os pais pagam não mais do que 25% do custo.

Mas mesmo as mães dinamarquesas veem seus rendimentos caírem vertiginosamente, em parte porque trabalham menos horas.

Perda de US$ 9.000 no primeiro ano

Em um artigo a ser publicado na próxima edição da revista científica European Sociological Review, Christensen e eu mostramos que o aumento da renda das mães proveniente do Estado — como benefícios infantis e licença parental remunerada — compensou cerca de 80% das perdas salariais médias das mães dinamarquesas.

Usando dados administrativos da Statistics Denmark, uma agência governamental que coleta e compila estatísticas nacionais dinamarquesas, estudamos os efeitos de longo prazo da maternidade sobre a renda de 104.361 mulheres dinamarquesas. Elas nasceram no início da década de 1960 e se tornaram mães pela primeira vez quando tinham entre 20 e 35 anos.

Todas elas se tornaram mães até 2000, o que tornou possível observar como seus rendimentos se desenvolveram nas décadas após o nascimento do primeiro filho. Embora as políticas do governo dinamarquês tenham mudado ao longo desses anos, a licença parental remunerada, os abonos por filho e outros benefícios permaneceram em vigor durante todo o período. As mulheres tinham, em média, 26 anos quando se tornaram mães pela primeira vez, e 85% delas tiveram mais de um filho.

Estimamos que a maternidade levou a uma perda de cerca de US$ 9.000 nos rendimentos das mulheres — que medimos em dólares americanos de 2022 ajustados pela inflação — no ano em que deram à luz ou adotaram seu primeiro filho, em comparação com o que esperaríamos se elas tivessem permanecido sem filhos. Embora o custo-maternidade tenha diminuído à medida que seus filhos cresceram, ele foi duradouro.

O custo só desapareceu completamente 19 anos depois que as mulheres se tornaram mães. A maternidade também levou a uma redução de longo prazo no número de horas que elas trabalhavam.

Uma mulher empurra um carrinho com um bebê passando por um cartaz eleitoral, enquanto outra mulher cruza seu caminho carregando objetos de forma desajeitada.
Uma mulher empurra um carrinho com um bebê passando por um cartaz eleitoral, enquanto outra mulher cruza seu caminho carregando objetos de forma desajeitada.
Foto: The Conversation
O 'custo-maternidade' é maior no primeiro ano após o primeiro parto ou adoção de uma mãe.Kristian Tuxen Ladegaard Berg/NurPhoto via Getty Images

Estudando se o governo pode resolver isso

Esses custos anuais se acumulam.

Estimamos que a maternidade custou à mulher dinamarquesa média um total de cerca de US$ 120.000 em rendimentos nos primeiros 20 anos após terem seus primeiros filhos — cerca de 12% do dinheiro que teriam ganho nessas duas décadas se tivessem permanecido sem filhos.

A maioria das mães em nosso estudo que estavam empregadas antes do parto tinham direito a quatro semanas de licença remunerada antes do parto e 24 semanas após o parto. Elas podiam compartilhar até 10 semanas de sua licença remunerada com o pai do bebê. A duração e o valor desse benefício mudaram ao longo dos anos.

O governo dinamarquês também oferece benefícios para crianças - pagamentos feitos aos pais de crianças menores de 18 anos. Esses benefícios são às vezes chamados de "auxílio-criança".

A Dinamarca tem outras políticas, como subsídios de moradia, que estão disponíveis para todos os dinamarqueses, mas são mais generosos para pais com filhos morando em casa.

Usando os mesmos dados, Christensen e eu estimamos em seguida como a maternidade afeta a quantia que as mães dinamarquesas recebem do governo. Queríamos saber se elas recebem renda suficiente do governo para compensar a perda de renda de seu trabalho remunerado.

Descobrimos que a maternidade leva a aumentos imediatos nos benefícios governamentais das mães dinamarquesas. No ano em que deram à luz ou adotaram um filho pela primeira vez, as mulheres receberam mais de US$ 7.000 do governo do que se tivessem permanecido sem filhos. Esse dinheiro não compensou totalmente seus rendimentos perdidos, mas fez uma diferença substancial.

A diferença entre o dinheiro que as mães receberam do governo e o que teriam recebido se não tivessem filhos diminuiu nos anos seguintes ao primeiro nascimento ou adoção. Mas detectamos um aumento de longo prazo na renda proveniente dos benefícios governamentais para as mães, mesmo 20 anos após se tornarem mães pela primeira vez.

Cumulativamente, determinamos que o governo dinamarquês compensou cerca de 80% da penalidade salarial pela maternidade para as mulheres que estudamos. Embora as mães tenham perdido cerca de US$ 120.000 em rendimentos em comparação com mulheres sem filhos nas duas décadas após se tornarem mães, elas ganharam cerca de US$ 100.000 em benefícios do governo, de modo que sua perda total de renda foi de apenas cerca de US$ 20.000.

Benefícios para pais de crianças mais velhas

Nossas descobertas mostram que os benefícios do governo não compensam totalmente as perdas de rendimentos das mães dinamarquesas. Mas eles ajudam muito.

Como a maioria dos países oferece benefícios parentais menos generosos, a Dinamarca não é um caso representativo. Em vez disso, é um caso de teste que mostra o que é possível quando os governos tornam o apoio financeiro aos pais uma alta prioridade.

Ou seja, um forte apoio financeiro do governo às mães pode tornar a maternidade mais acessível e promover a igualdade de gênero em termos de recursos econômicos.

Como o custo-maternidade é maior no início, os benefícios governamentais direcionados a mães com bebês, como licença parental remunerada, podem ser especialmente valiosos.

Os subsídios para cuidados infantis também podem ajudar as mães a retornarem ao trabalho mais rapidamente.

A natureza de longo prazo do custo-maternidade, no entanto, indica que esses benefícios de curto prazo não são suficientes para eliminá-lo completamente. Benefícios disponíveis para todas as mães de crianças menores de 18 anos, como abonos por filho, podem ajudar a compensar os custos de longo prazo da maternidade para mães de crianças mais velhas.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Alexandra Killewald não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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