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Danilo Bifone criou o Muda Mooca para quebrar calçadas e plantar árvores

Ativista ambiental explica os protocolos que devem ser seguidos e incentiva todos a tirar o concreto de São Paulo e deixar a cidade mais verde

5 jun 2021 23h01
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Deu cupim? Se deu mal. O fundador do Muda Mooca, Danilo Bifone, ouviu essa resposta quando tentou cuidar de uma árvore pela primeira vez. Ele ainda era adolescente, final da década de 80. Mesmo antes do Google, ele descobriu que havia uma maneira de combater o inseto e, não só recuperou sua árvore, como decidiu dedicar sua vida a deixar a capital paulista mais verde.

Há mais de 30 anos ele quebra calçadas, planta mudas, revitaliza áreas degradadas e ajuda os paulistanos a respirar melhor. A iniciativa atrai cada vez mais gente e já inspirou moradores de outras regiões a criar, por exemplo, o Muda Vila Leopoldina, Muda Ipiranga, Muda São Caetano, Muda Santo André e por aí vai.

O projeto de arborizar São Paulo é só um hobby. Danilo é formado em Direito e trabalha como servidor público. Nos finais de semana é que tira o banco do passageiro do seu fusca 1983 e preenche com pá, britadeira, terra, adubo e outros instrumentos necessários para sua missão ambiental.

Passeia todo orgulhoso pela zona leste de São Paulo apontando para as espécies que plantou e enumera todos os benefícios que vai trazer para a região. "A árvore altera o microclima local. Na cidade de São Paulo há diferença de até dez graus entre regiões mais e menos arborizadas. É possível notar essa diferença comparando as temperaturas da Avenida Paulista e do Tremembé, por exemplo", conta.

E o discurso segue como um Fidel Castro do meio ambiente. "A árvore asperge ao seu redor cerca de 400 litros de água por dia. É água que sai do lençol freático e vai para o meio ambiente. É o mesmo princípio daqueles ventiladores em ambiente de grande circulação. As árvores convidam as pessoas a praticar atividade física. É muito agradável sair para caminhar sob a copa das árvores. Elas ajudam na saúde mental de uma cidade", acrescenta.

O Estadão acompanhou Danilo em um dia solitário de quebrar calçadas. Até o início da pandemia, ele promovia ações com mais gente, mobilizava os moradores da rua, oferecia diploma de plantador de árvore para as crianças. Mas o coronavírus atrapalhou a colaboração coletiva.

A lei é clara

Danilo segue os protocolos de saúde e também o manual técnico de arborização urbana, criado pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo. Nele há especificações diversas, como deixar uma largura mínima de 1,20 metros de calçada para a passagem de pedestre. Também há critérios para cavar o "berço" onde será colocada a muda e ainda as espécies permitidas para arborizar São Paulo.

Em frente a uma clínica geriátrica, Danilo optou por um Ipê Amarelo, espécie de médio porte e crescimento lento. No manual da prefeitura não há impedimento para quem quer quebrar uma calçada para plantar uma árvore. Teoricamente, não seria necessário nem a autorização do morador da residência em frente. Por respeito, Danilo pede sempre a autorização dos vizinhos.

"É uma questão moral. Porque a gente aproveita e fala sobre todos os benefícios que uma árvore vai trazer para eles. A gente ensina como cuidar e tenta inspirar para que mais pessoas tenham atitude como essa. Porque se a pessoa não quiser e eu plantar escondido, quando virar as costas, essa pessoa vai lá e destrói a árvore."

Quando recebeu aquela resposta irônica, Danilo ainda nem pensava em estudar Direito e nada conhecia sobre a legislação do meio ambiente. Sem muita noção, tentou buscar ajuda para socorrer sua árvore em um Centro Acadêmico da Faculdade de Biologia da USP. "Achei na minha ingenuidade que centro acadêmico era o lugar que estariam os grandes cérebros da universidade. Mas só tinha um pessoal tomando cerveja e jogando truco."

Deixou a sala dos estudantes e encontrou pelos corredores com um professor. Este sim um especialista, que contou o que seria necessário para fazer a recuperação da árvore. Ainda convidou Danilo a participar de uma ação de plantio dentro da USP.

Foi quando tudo começou. Ele saiu de lá, plantou no mesmo dia mais duas árvores na rua de sua casa e seguiu a missão. Fazia tudo à noite, com medo de ser reprimido. Ainda não existia internet e a ação envolvia um pequeno grupos de amigos. Um grupo que deu origem também a sua banda de rock chamada Os Ervas Daninhas.

A música, como é possível acompanhar em alguns vídeos no Youtube, não é o forte de Danilo. Mas ele não liga para as críticas. Enquanto esmiralha o concreto, canta uma de suas letras: "O cimento rudimentar é a brecha pra germinar/ ela é a praga urbana / ressuscita de forma bacana."

Além de procurar espaço para plantio nas calçadas, o bandlíder se preocupa também com a revitalização de espaços públicos. No início do ano passado, ele e mais uma centena de colaboradores conseguiram transformar um terreno baldio na Praça Daniel Bifone. O nome é uma homenagem ao pai de Danilo, que morreu quando ele tinha cinco anos.

Os ativistas descobriram que no terreno havia diversas nascentes de água e conseguiram autorização da Prefeitura para revitalizar. O projeto contou com investimento privado e ainda não terminou. Mas, diferentemente das calçadas, para revitalizar praças e parques é necessária autorização da Prefeitura. O local fica no Parque da Mooca. "Tiramos 12 caminhões de entulho. Já plantamos 200 árvores. O projeto é retomar os plantios e continuar as obras. A ideia é ter mais de mil árvores por aqui."

"O Muda vem não só das mudas que a gente planta, mas de uma mudança de paradigma, uma mudança de pensamento em ter uma cidade sustentável saudável, saudável, com um ar que todos possam respirar. Uma cidade que todos vão poder se orgulhar em chamar de nossa."

Estadão
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