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Por que Carl Jung provavelmente se horrorizaria com a interpretação atual de conceitos que criou?

Foi o psiquiatra suíço que popularizou os termos introversão e extroversão, mas não com a intenção de que fossem usados ​​da forma polarizada como são hoje.

16 jan 2021
16h00
atualizado às 16h12
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Jung não contrapunha a extroversão e a introversão como se faz hoje em dia
Jung não contrapunha a extroversão e a introversão como se faz hoje em dia
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Se perguntassem se você é introvertido ou extrovertido, o que você responderia?

A maioria das pessoas se identifica como um adjetivo ou outro sem pensar duas vezes.

Afinal de contas, são características totalmente opostas.

Uma pessoa introvertida, por exemplo, pode desejar passar seu tempo livre na tranquilidade de sua própria companhia, algo que para um indivíduo mais extrovertido pode parecer um inferno.

Mas você pode realmente ser extrovertido ou introvertido? E será que há algum benefício em nos identificar como um, e não como o outro?

Intro e extra

O psiquiatra suíço Carl Jung foi quem popularizou os termos introversão e extroversão (ou "extraversão", como ele escrevia) quando fundou seu corpus teórico e clínico que chamou de psicologia analítica em 1913.

A premissa básica é que os introvertidos buscam energia internamente, enquanto os extrovertidos a obtêm das pessoas ao seu redor.

No entanto, de acordo com o psicoterapeuta e escritor Mark Vernon, Jung ficaria "horrorizado" com a maneira como esses termos são adotados hoje.

Embora muitos de nós nos descrevamos veementemente como "extrovertidos" ou "introvertidos" e vejamos esses traços como partes essenciais de nossa identidade, as definições de Jung não eram tão polarizadas.

Precisamos ser os dois para alcançar a plenitude
Precisamos ser os dois para alcançar a plenitude
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Na visão de Jung, precisávamos buscar "energia" tanto fora quanto dentro para sermos "pessoas plenas".

Longe de ser "o que somos", Jung considerava a introversão e a extroversão como tipos de consciência que podemos experimentar de maneiras diferentes em situações distintas.

Tanto a introversão quanto a extroversão podem dominar nosso comportamento, mas também podemos nos beneficiar da outra que está em algum lugar dentro de nós.

Aproveitando ambas as fontes de "energia", podemos realmente expandir nossa experiência de vida.

Nas profundezas

O que é exatamente isso que temos em algum lugar profundo?

Jung se refere ao que chama de "sombra".

Embora pareça perturbador, é simplesmente uma metáfora para o lado da nossa personalidade que supostamente reprimimos porque não reflete a maneira como nos apresentamos ao mundo.

Alguém que pula de festa em festa, por exemplo, pode descobrir que passar um tempo sozinho não é tão insuportável quanto temia; pode ser uma forma eficaz de se reabastecer.

A vida é mais fácil para os extrovertidos?

Ver a introversão e a extroversão de uma forma binária pode nos levar a tomar decisões com base no tipo de personalidade com a qual nos identificamos.

Os rótulos podem nos impedir de fazer coisas que gostaríamos
Os rótulos podem nos impedir de fazer coisas que gostaríamos
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Por exemplo, há estudos que indicam que os "introvertidos" (como os testes de personalidade rotulam) acham que não teriam sucesso ou tampouco desfrutariam de cargos de liderança.

Isso pode dissuadi-los completamente de concorrer a esses tipos de vagas no trabalho.

Em contrapartida, os extrovertidos, que se apresentam como confiantes e dominantes, são vistos convencionalmente como mais adequados para essas funções de alto poder.

Assim, é provável que os "extrovertidos" ganhem mais do que os 'introvertidos'.

Os benefícios da introversão

No entanto, as pessoas não se restringem a apenas um tipo de personalidade, e aqueles com tendências introvertidas podem se beneficiar profissionalmente por se comportar de maneira extrovertida de vez em quando.

Pesquisas mostram que indivíduos com traços de introversão tendem a superestimar os sentimentos negativos que vivenciam quando agem de forma extrovertida, o que os desencoraja a fazê-lo.

Mas estudos também sugerem que essas preocupações são infundadas e, quando os introvertidos exploram um lado diferente de sua personalidade, eles na verdade gostam de agir de forma extrovertida (tanto quanto aqueles com uma disposição extrovertida!).

Isso parece confirmar a teoria de Jung de que podemos nos beneficiar ao resgatar nossa 'sombra' (neste caso, a extroversão).

Temos ambos os lados, então por que não aproveitar os dois?
Temos ambos os lados, então por que não aproveitar os dois?
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Como diz Vernon, se aproveitarmos cada vez mais essas formas de contradição, "aos poucos as reforçamos, e elas deixam de ser uma sombra para se tornar parte de nós".

Finja até conseguir

As qualidades associadas à introversão também podem ser benéficas para situações de liderança.

Pesquisas mostram que enquanto líderes extrovertidos obtêm melhores resultados ao trabalhar com uma equipe passiva, as mais proativas respondem melhor a líderes introvertidos.

Abraçar a qualidade extrovertida da confiança ajudará as pessoas introvertidas a acreditar e colocar em prática suas habilidades de liderança.

Depois de terem alcançado essas posições de poder, os líderes introvertidos podem se beneficiar do comportamento que lhes é mais natural, como uma boa capacidade de ouvir e pensar.

O problema com os rótulos

Há algo mais, explica Vernon, que faz com que definir as pessoas por tipos de personalidade não seja particularmente útil: o fato de que nossas personalidades mudam com o tempo, mesmo quando somos adultos.

A linguagem é um fator importante em jogo: descrever a nós mesmos ou aos outros usando um adjetivo como "introvertido" ou "extrovertido" implica que isso é o que somos, e com isso vêm as conotações de permanência.

Mas os seres humanos são mais maleáveis do que pensamos, e nosso fascínio por rótulos pode nos impedir de ver que podemos mudar e crescer.

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