Sem provas, Trump acusa FBI de instigar ataque ao Capitólio; relatório oficial desmente teoria
PRESIDENTE AMERICANO DISSE QUE AGENTES TERIAM ATUADO COMO 'AGITADORES' NO 6 DE JANEIRO, MAS NÃO HÁ EVIDÊNCIAS DISSO; AFIRMAÇÃO REVERBEROU NO BRASIL, COM POSTS QUE APONTAM 'INFILTRADOS' NO 8 DE JANEIRO
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou neste sábado, 27, que agentes do FBI, a polícia federal norte-americana, teriam participado da invasão ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021 como "agitadores". Mas não existe nenhuma evidência de que essa afirmação seja verdade.
A alegação foi feita em sua rede social Truth Social, e reverberou no Brasil, com o ressurgimento de conteúdos que apontam que a depredação do 8 de Janeiro teria sido feita por infiltrados do governo Lula. Ambas as teorias de "infiltrados" já foram desbancadas.
Nos Estados Unidos, um relatório publicado ano passado pelo Departamento de Justiça americano descartou a existência de agentes que teriam instigado as depredações no Capitólio. Já no Brasil, imagens e investigações da Polícia Federal mostram que os atos foram premeditados e organizados por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
O que disse Trump?
Trump escreveu em sua rede social Truth Social que o FBI teria colocado secretamente "274 agentes no meio da multidão" que estariam atuando como "agitadores e insurrectos" durante a invasão de 6 de janeiro que tentou interromper a certificação da vitória de Joe Biden em 2021.
Ele também criticou os dois ex-diretores do FBI Christopher Wray e James Comey, afirmando que os dois "mentiram" sobre o evento, e que "muitos grandes patriotas americanos foram obrigados a pagar um preço muito alto apenas pelo amor ao seu país".
Boato de 'infiltrados' voltou a circular após publicação em site
A afirmação de Trump não é inédita; o boato já vinha sendo disseminado entre os apoiadores dele nas redes sociais. Mas houve uma nova escalada de teorias de conspiração, que surgiu com uma publicação em um site de notícias, o Just The News. O portal afirmou ter um "relatório secreto" do FBI, que detalharia o envio de 274 agentes à paisana ao motim.
O site diz ter reclamações anônimas de dezenas de agentes que se sentiram como "peões". Mas no próprio texto do Just the News não há explicitamente a informação de que os agentes teriam sido orientados a iniciar a invasão ao Capitólio. O portal diz que eles foram mandados apenas para se posicionarem atrás da polícia e não receberam "nenhuma outra orientação".
FBI já desmentiu teoria de agentes infiltrados
Um órgão de fiscalização do Departamento de Justiça americano não encontrou evidências de que o FBI tenha enviado agentes disfarçados com o intuito de instigar as depredações no Capitólio. O relatório foi publicado em dezembro do ano passado e mostrou não haver evidências de que o departamento tenha autorizado ou instigado comportamentos ilegais de agentes contra membros da multidão.
"Não encontramos evidências nos materiais examinados, nem nos depoimentos recebidos, que indiquem ou sugiram que o FBI tinha funcionários disfarçados nos diversos grupos de protesto ou no Capitólio em 6 de janeiro", afirmou o então inspetor-geral do Departamento de Justiça, Michael Horowitz.
Relembre o ataque ao Capitólio
Uma multidão atacou o Capitólio, a sede do Congresso americano, em 6 de janeiro de 2021. A invasão aconteceu durante a sessão de certificação formal da vitória de Biden. Os invasores eram apoiadores de Trump, que perdera a eleição e contestava o resultado, alegando sem provas a existência de fraude. Manifestantes entraram no prédio causando destruição resultando na morte de cinco pessoas e mais de 100 policiais feridos.
Logo nos primeiros dias de volta à Casa Branca, Trump concedeu clemência para os acusados e condenados pela invasão. Ele também permitiu que o Departamento de Justiça demitisse agentes federais e promotores que lutaram pela responsabilização dos infratores.
Fala de Trump reacendeu boatos no Brasil
O discurso falso de Trump reacendeu os boatos no Brasil de que o 8 de Janeiro teria contado com a participação de infiltrados do governo Lula, o que também não é verdade. É mais um reflexo da inspiração dos modelos americanos, que se manifestou tanto nos atos antidemocráticos, como afirmam especialistas, quanto nas narrativas de desinformação que tentam retirar a culpa pelos ataques.
Como já mostrou o Verifica, após o 8 de Janeiro, o Estadão analisou horas de transmissões ao vivo, listas de passageiros de ônibus, postagens em redes sociais e centenas de imagens que comprovam que os atos foram premeditados e organizados nos mínimos detalhes por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e não foram uma ação espontânea.
A Polícia Federal, o Ministério Público Federal (MPF) e o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceram que os participantes do 8 de Janeiro, insatisfeitos com o resultado das eleições, tentaram um golpe de Estado para que Bolsonaro voltasse ao poder.