Postagens desinformam sobre compra de chips de Taiwan para urnas em 2022
TSE ACIONOU DIPLOMATAS PARA GARANTIR QUE BRASIL CONSEGUISSE COMPRAR CHIPS EM MEIO A CRISE DO SETOR DE SEMICONDUTORES
O que estão compartilhando: que o ministro Luís Roberto Barroso, ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), negociou com os Estados Unidos a compra de chips de Taiwan para serem utilizados nas urnas eletrônicas brasileiras. Segundo a postagem, os chips estariam "pré-programados" para "roubar" milhões de votos para Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2022.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Em 2022, diplomatas brasileiros negociaram a prioridade do País na compra de microchips essenciais para a montagem das urnas eletrônicas. O mundo vivia uma crise de produção no setor de semicondutores, agravada pela pandemia. A diplomacia conseguiu que as fábricas dos Estados Unidos e de Taiwan priorizassem a venda para o Brasil. Taiwan é tradicionalmente um dos principais países exportadores de microchips.
Os chips são usados na montagem dos dois processadores que fazem a urna funcionar. Especialista ouvido pelo Verifica explicou que eles, por si só, não são suficientes para realizar uma fraude. Vale destacar que tanto os softwares quando os hardwares utilizados pela justiça eleitoral são fiscalizados por entidades independentes.
A alegação que circula em diferentes vídeos na internet também afirma que Barroso ordenou a destruição de quase 200 mil urnas este ano para apagar os rastros da fraude. Isso é falso, como já mostrou o Verifica. O processo de destruição de urnas eletrônicas é comum e ocorre quando a vida útil delas chega ao fim. Os dados de votação não são perdidos junto com as urnas destruídas.
Saiba mais: postagens com acusações falsas sobre o processo eleitoral brasileira voltaram a viralizar. Mike Benz, funcionário do governo americano no primeiro mandato de Donald Trump, acusou sem provas os Estados Unidos de terem interferido nas eleições brasileiras de 2022. Ele alega que o governo Joe Biden usou uma agência de desenvolvimento internacional (USAID) para financiar veículos de comunicação brasileiros. Confira aqui tudo o que já desmentimos sobre o assunto.
O vídeo checado também acusa o ministro Luis Roberto Barroso de pagar R$ 9 milhões a cada líder e vice-líder partidário para fazerem trocas em uma comissão que discutia o registro impresso do voto. O vídeo diz que parlamentares favoráveis foram trocados por quem derrubaria a medida. Em 2021, Barroso foi convidado por parlamentares para debater a aplicação do voto impresso na Câmara. Não há provas ou indícios de que ele tenha realizado os pagamentos citados.
O TSE foi procurado para falar sobre as alegações, mas não respondeu até a publicação deste texto.
Compra de chips não interfere no resultado das eleições
Os diversos vídeos que viralizaram utilizam linguagem para passar a ideia de uma denúncia nova: a de que o ministro Barroso, quando era presidente do TSE, articulou a compra de chips adulterados em Taiwan para favorecer Lula. Os chips teriam sido inseridos nas urnas eletrônicas para "roubar" votos a favor do petista. Essa alegação carece de fundamentos técnicos, diz Marcos Simplício, professor da Escola Politécnica da USP e atual coordenador da Comissão Especial de Cibersegurança da Sociedade Brasileira de Computação.
Ele explica que as urnas modelo 2020, usadas na eleição de 2022 no Brasil, possuem dois processadores internos. O primeiro faz os cálculos, age como um computador normal. Já o segundo é uma espécie de co-processador criptográfico que garante a segurança da urna. "Assim que a urna liga, ele verifica se tudo que está rodando ali está correto ou não. Para isso, precisa de um chip de processamento e o Brasil não é um grande produtor. Geralmente, quem produz são China e Taiwan", disse.
Em 2024, a consultoria TrendForce apontou que Taiwan era responsável por 43% da capacidade global de produção de chips maduros (os menos avançados), enquanto a China respondia por 34% dessa capacidade. Se considerados os chips avançados, a fatia de Taiwan na produção global é de 92%, como mostra esta reportagem do Estadão.
Simplício diz que uma fraude exigiria a instalação na urna de um software diferenciado para operar junto com os chips modificados. "As coisas não fecham... E falar que o TSE comprou um chip modificado de propósito, aí não faz sentido mesmo. Porque se é o TSE que vai fazer a modificação, que diferença faz o chip? Ele pode fazer no software, independente do hardware", diz.
O código-fonte da urna eletrônica passa por uma auditoria durante sua produção. Posteriormente, o sistema é lacrado para que não possa ser modificado e gera um código chamado hashe. Esse código permite a qualquer pessoa conferir se o programa lacrado no TSE é o mesmo que consta em cada urna.
O TSE informa que as urnas possuem ainda um hardware de segurança. Ele é composto por um chip blindado que faz a leitura dos hashes e assinaturas de todos os sistemas da urna. Se ele detecta qualquer alteração, a urna eletrônica não funciona.
Descarte de urnas eletrônicas é corriqueiro e não impede acesso a registros antigos
Outra alegação presente nos conteúdos investigados é a de que Barroso determinou a destruição de quase 200 mil urnas eletrônicas este ano "para se livrar das provas do crime". O Verifica já mostrou, em março deste ano, que o descarte de urnas eletrônicas antigas é um procedimento adotado pelo TSE desde 2009. Ele não impede auditoria no resultado das eleições nem apaga dados de votação.
As urnas descartadas são aquelas que atingiram a vida útil máxima de dez anos ou seis eleições, em média. Depois de atingido esse prazo, o TSE abre concorrência para contratar uma empresa que ficará responsável por fazer um descarte 100% ecológico do material. O último contrato, firmado em 2023, foi para a destruição de 195 mil urnas, todas do modelo UE 2009.
O descarte das urnas não significa um apagamento de provas, nem impede que auditorias sejam feitas nos dados de eleições passadas. A legislação brasileira determina que, após o término de cada eleição, os dados para totalização dos votos sejam transferidos para uma mídia eletrônica independente, ou seja, eles não ficam armazenados na urna.