Não, diretor de 'O Agente Secreto' não é dono de banco nem da Havaianas
KLEBER MENDONÇA FILHO É SÓCIO DE PRODUTORA INDEPENDENTE PERNAMBUCANA; PRODUÇÃO DO FILME GANHADOR DO GLOBO DE OURO CONTOU COM RECURSOS INTERNACIONAIS E NACIONAIS
O que estão compartilhando: vídeo afirma que o diretor do filme O Agente Secreto, o cineasta Kleber Mendonça Filho, seria dono de um banco e da marca Havaianas, que faria "propagandas" para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O conteúdo diz que o longa-metragem foi "bancado" com R$ 7,5 milhões de recursos públicos em troca do apoio político.
O Estadão Verifica checou e concluiu que: é falso. O diretor Kleber Mendonça Filho não é dono de banco ou da marca de sandálias Havaianas. Ele é sócio da CinemaScópio, uma produtora independente de Recife (PE). O filme O Agente Secreto foi produzido com aportes de dinheiro privado e público. O longa recebeu investimento internacional no valor total de R$ 28 milhões. A participação brasileira nos recursos foi de R$ 13,5 milhões, sendo R$ 7,5 milhões por meio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e o restante de aportes privados.
O FSA é uma categoria específica do Fundo Nacional de Cultura (FNC) criado para fomentar a cadeia cinematográfica no Brasil. Os projetos são selecionados mediante a inscrição em edital público e a partir de uma análise técnica por pontuação, estabelecida pela Agência Nacional de Cinema (Ancine).
O Verifica procurou o autor do vídeo analisado, mas não recebeu retorno até a publicação da checagem.
Kleber Mendonça Filho não é dono de banco, nem da Havaianas
O Verifica consultou a ferramenta CruzaGrafos, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que reúne dados sobre sócios de empresas. O nome de Kleber de Mendonça Vasconcellos Filho é vinculado apenas à empresa Cinemascópio Produções Cinematográficas e Artísticas.
O diretor pernambucano fundou a produtora independente em 2007. Os sócios da Cinemascópio são Emilie Lesclaux, mulher de Kleber e produtora de O Agente Secreto, e Winston Araújo. A CinemaScópio produziu filmes como O Som ao Redor, Aquarius e Bacurau, todos dirigidos por Kleber.
O vídeo analisado foi publicado pelo influenciador Thiago Asmar no Instagram. Diferentemente do que ele diz, Kleber não é dono de banco, nem da Havaianas.
É possível que ele tenha se confundido com outro diretor brasileiro: Walter Salles Jr. Ele é herdeiro da família Moreira Salles, responsável pela criação do Unibanco, que se tornou Itaú Unibanco em 2008. Os Moreira Salles também são sócios da marca Havaianas, que pertence à companhia Alpargatas.
A marca de sandálias foi alvo de uma campanha de boicote devido a um comercial. A atriz Fernanda Torres, que estrelou o vídeo, aparece incentivando brasileiros a não começarem o Ano Novo "com o pé direito", fazendo um trocadilho com uma expressão popular de boa sorte. Pessoas de direita interpretaram a publicidade como um ataque político.
Salles dirigiu o longa Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar, que não recebeu incentivos públicos federais.
'O Agente Secreto' recebeu R$ 7,5 milhões do FSA
A Ancine explicou, em nota enviada ao Verifica, que o longa-metragem O Agente Secreto teve um orçamento de R$ 28 milhões, em regime de cooperação internacional entre Brasil, França, Alemanha e Holanda.
O orçamento brasileiro destinado à produção do filme foi de R$ 13,5 milhões, sendo R$ 7,5 milhões do FSA. Segundo a Ancine, o restante do valor foi de aportes privados.
O longa foi aprovado no FSA na Chamada Pública de Produção de Cinema Via Distribuidora 2023, do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE). O fundo foi criado pela Lei Federal nº 11.437 para fomentar o desenvolvimento audiovisual no Brasil.
Já para a comercialização do filme, a agência informou que foi aprovado o valor de R$ 4 milhões, com uma previsão de investimento de R$ 750 mil do FSA.
A informação pode ser consultada no portal de projetos audiovisuais da Ancine.
O Agente Secreto, que levou o prêmio de Melhor Filme de Língua Não Inglesa no Globo de Ouro 2026, não recebeu recursos da Lei Rouanet. O incentivo fiscal é destinado apenas a filmes de curta e média metragem ou documentários.
Wagner Moura criticou governo Bolsonaro em discurso
Após vencer o Globo de Ouro 2026 na categoria de Melhor Ator, Wagner Moura comentou, em coletiva de imprensa, a importância do cinema brasileiro abordar a ditadura, como publicou o Estadão.
O ator frisou que a produção de filmes sobre o período segue sendo necessária para reflexão e memória. "Precisamos continua fazendo filmes sobre a ditadura. A ditadura ainda é uma cicatriz aberta em nossa vida brasileira. Aconteceu há apenas 50 anos", disse.
Moura também relacionou o tema ao cenário político recente do país. "Recentemente, tivemos, de 2018 a 2022, um presidente de extrema-direita/fascista no Brasil, que é uma manifestação física dos ecos da ditadura", disse, em referência ao governo de Jair Bolsonaro.