Não há comprovação de que bicarbonato de sódio mate células cancerígenas
ESTUDOS EM MODELOS ANIMAIS SUGEREM QUE A SUBSTÂNCIA PODE AJUDAR A REDUZIR A FORMAÇÃO DE METÁSTASES, MAS FALTAM PESQUISAS EM SERES HUMANOS
O que estão compartilhando: que pesquisas teriam mostrado que o bicarbonato de sódio mata células cancerígenas e que pode retardar declínio renal precoce.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. A afirmação de que o bicarbonato poderia ter algum efeito contra o câncer é de um estudo pré-clínico, feito em animais - ou seja, ainda faltam pesquisas científicas com seres humanos para ter certeza de que haveria algum efeito contra células cancerígenas. Quanto a problemas nos rins, o bicarbonato pode ser indicado por médicos para alguns pacientes renais, mas não deve ser usado de forma preventiva por quem tem rins saudáveis. O excesso da substância no organismo pode gerar problemas de saúde, como hipertensão.
Efeito contra câncer foi observado em estudos com modelos animais
Estudos pré-clínicos em modelos animais sugerem que o bicarbonato de sódio pode elevar o pH da região em volta das células do tumor. Em tese, isso poderia reduzir a formação de metástase, que acontece quando as células do câncer se desprendem do tumor principal e se alojam em outras partes do corpo, formando novos tumores.
O médico Fernando de Moura, oncologista clínico da Beneficência Portuguesa de São Paulo e integrante do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer, explica que os estudos pré-clínicos são úteis apenas como prova de conceito.
Conforme o especialista, a tradução disso em efeito prático para humanos precisaria ser demonstrada em estudos clínicos, o que nunca ocorreu.
"Existe uma enorme distância entre algo que tenha efeito em animais em laboratório e algo que de fato se comprove seguro e eficaz em humanos", disse.
O especialista alerta que tratamentos alternativos sem comprovação científica não trazem benefícios para os pacientes e podem acarretar em efeitos colaterais e sintomas potencialmente prejudiciais.
Segundo ele, um dos efeitos prejudiciais pode ser a sobrecarga de sódio em pessoas que ingerem bicarbonato em altas doses e de forma indiscriminada. Isso pode levar a hipertensão arterial, retenção de líquido, inchaços pelo corpo e prejuízo às funções dos rins e do coração.
A orientação para toda pessoa diagnosticada com câncer é procurar um oncologista para guiar o tratamento, baseado nas melhores evidências científicas.
Moura afirma que as terapias atuais são capazes de curar a maioria dos tumores. Para estágios avançados, há estratégias de tratamentos seguras e eficazes para controle da doença que foram submetidas a estudos clínicos rigorosos e aprovadas pelas agências reguladoras mundo afora.
Em 2019, o Verifica desmentiu o boato de que câncer é um fungo e que o bicarbonato de sódio poderia ajudar a curá-lo.
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Não é aconselhável usar bicarbonato de sódio para prevenção de doenças renais porque o excesso de sódio na dieta favorece o aparecimento de problemas como a hipertensão arterial, um dos fatores de risco para doença renal crônica.
De acordo com o médico Eduardo Rocha, professor de Nefrologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e consultor do Grupo Valsa, a estimativa é de que até 10% da população mundial tenha doença renal crônica e o bicarbonato pode ser indicado para algumas pessoas nessas condições.
No entanto, é necessária avaliação médica adequada, com dosagem sanguínea de creatinina e pesquisa de perda de proteína na urina, exames que podem apontar questões nos rins. "Nem todos os pacientes com problemas renais se beneficiam do uso do bicarbonato", explicou.
O especialista explica que a alimentação e o metabolismo celular geram, no dia-a-dia, produtos ácidos que são jogados no sangue em maior ou menor quantidade, dependendo do tipo de alimentos ingeridos. Vegetais, por exemplo, geram menor quantidade de ácidos que carnes vermelhas.
O trabalho dos rins, 24 horas por dia, é eliminar produtos ácidos e gerar bicarbonato, que ajuda a controlar a carga ácida do organismo. Assim, para haver equilíbrio adequado do meio interno, é necessário manter uma saúde adequada dos rins, controlando fatores de risco, principalmente diabetes e hipertensão.