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É falso que suplemento à base de canela seja capaz de curar diabetes tipo 2 em 25 dias

ESPECIALISTAS APONTAM QUE DIABETES NÃO TEM CURA E DESMENTEM QUE ESPECIARIA BAIXE GLICEMIA; PRODUTO VENDIDO ONLINE NÃO TEM REGISTRO NA ANVISA

1 jul 2025 - 17h22
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O que estão compartilhando: vídeo afirma que o diabetes seria causado por um "parasita diabético" que se alojaria no pâncreas. Um suplemento feito a partir de uma substância presente na canela curaria o diabetes tipo 2 em 25 dias, dispensando a necessidade de seguir uma dieta sem carboidratos, fazer exercícios físicos e outros tratamentos com medicamentos convencionais.

Foto: Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. O diabetes não é causado por um parasita e não tem cura, embora tenha tratamento. Especialistas ouvidos pelo Verifica apontam que não há comprovação de que a canela realmente traga benefícios às pessoas com diabetes. Os quatro componentes anunciados no suplemento vendido no vídeo não produzem qualquer efeito contra a doença.

O Verifica não conseguiu localizar o autor do vídeo. O nome dele não aparece entre a lista de endocrinologistas cadastrados pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), nem no Conselho Federal de Medicina (CFM).

Saiba mais: Há dois vídeos sobre o mesmo assunto circulando na internet. No Facebook, um post mostra um homem, que diz já ter sido processado 13 vezes por farmacêuticas, anunciando a liberação gratuita de um vídeo em que ele vai ensinar a usar a "planta proibida" - a canela - para baixar a glicemia por meio do combate a um "parasita diabético".

O post leva a um site em que é vendido um suplemento que teria sido desenvolvido pelo autor do conteúdo. O produto conteria uma substância presente na canela, o polifenol. A página exibe um vídeo com 58 minutos de duração em que o mesmo homem dá uma entrevista sobre sua trajetória e sobre como ele teria desenvolvido o produto que será vendido.

Ao final, o produto é comercializado com desconto para quem adquiri-lo ainda durante a transmissão. O autor afirma que o suplemento conseguiria curar a diabetes em 25 dias, mas que seria necessário fazer um tratamento de cinco meses. Ele diz que o paciente correria o risco de ser infectado novamente pelo "parasita".

Veja a seguir a checagem do Verifica sobre o tema:

Existe um "parasita diabético" que afeta a produção de insulina?

Não. No vídeo, o autor do conteúdo diz que pesquisadores da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, teriam descoberto a verdadeira causa da diabetes tipo 2, um "parasita diabético" que se alojaria no pâncreas e bloquearia a produção da insulina e a entrada de glicose nas células. Especialistas ouvidos pelo Verifica negaram a existência do tal parasita.

Na realidade, o diabetes tipo 2, que afeta 90% dos pacientes no Brasil, ocorre quando o corpo não aproveita adequadamente a insulina produzida ou, em alguns casos, quando o pâncreas produz insulina insuficiente. A insulina é o hormônio responsável por regular os níveis de glicose no sangue, permitindo que a glicose seja usada pelas células como energia.

A causa da diabetes tipo 2 está diretamente relacionada a fatores como sobrepeso, sedentarismo, triglicerídeos elevados, hipertensão e hábitos alimentares inadequados.

O médico Izidoro de Hiroki Flumignan, diretor científico da Associação Carioca dos Diabéticos (ACD), disse que não existe na história da medicina registro de um "parasita diabético", como cita o vídeo. "Isso não faz nenhum sentido, é completamente uma ilusão", apontou.

O endocrinologista Saulo Cavalcanti da Silva, subcoordenador do Departamento de Diabetes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), reforçou que a tese do parasita é infundada. "Não tem nenhum nexo, nenhuma base científica", afirmou.

O suplemento citado no vídeo é capaz de curar o diabetes em 25 dias?

Isso também é falso. O diabetes não tem cura, apesar de poder ser controlado com orientações específicas para cada caso. O tratamento para idosos, por exemplo, é diferente daquele para mais jovens. Há diretrizes distintas para diabéticos que têm problemas renais, cardiovasculares, pré-diabético, entre outros.

"Vamos deixar claro de início que diabetes não tem cura, tem remissão. O aspecto clínico melhora, os índices melhoram, mas a pessoa não deixa de ser diabética", afirmou Saulo.

O endocrinologista destaca que não faria sentido que a descoberta de uma cura para a diabetes fosse anunciada em um vídeo como o analisado pelo Verifica.

"Quando foi descoberta a insulina em 1922, as pessoas que a descobriram ganharam o Prêmio Nobel", afirmou. "Ele está falando em cura. Se isso realmente existe, porque ele não divulga para curar 600 milhões de pessoas no mundo?".

No vídeo, o autor diz que o suplemento é feito com apenas quatro ingredientes: polifenol, trans-resveratrol, fibra de beterraba e extrato concentrado de magnésio. Os polifenóis são substâncias antioxidantes. Já o trans-resveratrol é um tipo de polifenol que também tem propriedades anti-inflamatórias. A fibra de beterraba tem as mesmas propriedades e ainda pode ajudar a manter os índices de glicemia estáveis. Mas ela não atua isoladamente: é preciso manter uma dieta balanceada como um todo. Por fim, o magnésio ajuda nas funções musculares e nervosas.

O endocrinologista Saulo explicou que a canela, citada como a grande responsável por baixar a glicemia, não tem qualquer relação com o controle desse índice. "Desde os primeiros tratamentos de diabetes, há 1.500 anos antes de Cristo, não tem nenhuma menção à canela", disse.

O médico Izidoro também afirma que não há comprovação científica de que a especiaria seja benéfica para diabéticos. "É seguro consumir a canela, não tem qualquer problema, não tem toxicidade. A princípio, também não tem um limite, a não ser o bom senso. Mas não tem qualquer relação entre canela e queda de glicemia", disse.

Quais os riscos de trocar o tratamento convencional por suplementos?

Hoje, segundo o endocrinologista Saulo, existem 600 milhões de diabéticos no mundo, e 20 milhões deles estão no Brasil. Metade desse contingente é de idosos. Trocar um tratamento que segue diretrizes estudadas e estabelecidas por profissionais por uma cura milagrosa é muito arriscado, disse o médico.

"Os idosos são muito mais frágeis. É muito perigoso mexer no tratamento deles porque o diabetes tem várias complicações e você pode piorar", afirmou.

Segundo ele, é raro que diabéticos do tipo 2 tomem um medicamento só. "O perigo é a pessoa estar tomando a medicação, parar para usar esse suplemento milagroso e ter complicações, até fatais", completou.

A publicação analisada pelo Verifica chega a desencorajar as pessoas a praticarem atividades físicas e tomar remédios. O anúncio até mesmo promete emagrecimento apenas com o consumo do suplemento.

Isso também é perigoso, segundo apontam os especialistas. O tratamento dos diabéticos costuma unir o trabalho de vários especialistas, como endocrinologistas, nutricionistas, nefrologistas e cardiologistas.

Saulo explica que os diabéticos precisam seguir uma dieta balanceada e orientada por um profissional. Em idosos, por exemplo, é preciso ter um consumo maior de proteínas. Em pacientes mais magros, a alimentação precisa ser feita de modo que ele ganhe peso.

"Não tem uma receita de bolo para tratar todos os diabéticos", disse Saulo.

O suplemento vendido no vídeo tem registro na Anvisa?

Não. O responsável pela venda do produto chega a dizer que apresentou a fórmula do suplemento ao Comitê Brasileiro de Endocrinologia e acrescenta que ele é 100% aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). As duas afirmações são falsas.

Não existe um "Comitê Brasileiro de Endocrinologia", apenas a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e a Sociedade Brasileira de Diabetes. A Anvisa disse ao Verifica que não encontrou em seu banco de dados nenhum medicamento ou suplemento alimentar regularizado com o nome "Glicopill", como foi batizado o produto.

A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 843/2024 determina que todos os suplementos alimentares precisam ser regularizados na Anvisa. Para aqueles que já estavam no mercado antes da resolução nacional entrar em vigor, há um prazo para regularização: 1º de setembro de 2025.

A Anvisa alerta a população sobre produtos que prometem curas milagrosas. "Suplemento alimentar não é medicamento, deve conter rotulagem ou alerta de que o produto não é um medicamento", comunicou.

A agência faz recomendações aos consumidores:

Desconfie ao se deparar com propagandas que fazem promessas milagrosas ou apenas exaltam os benefícios do medicamento, sem veicular nenhum tipo de alerta quanto a contraindicações ou automedicação. Provavelmente trata-se de um anúncio irregular;Ao se deparar com anúncios que relacionam um suplemento alimentar a promessas de cura ou efeitos terapêuticos, desconfie: os suplementos são destinados à suplementação alimentar de pessoas saudáveis. Não pode haver indicações de cura, tratamento e prevenção de doenças e outros malefícios à saúde;Tome cuidado com propagandas que encaminham para a compra do produto em canais como WhatsApp, Telegram e outras redes sociais. Medicamentos só podem ser vendidos em farmácias e drogarias devidamente regularizadas, seja fisicamente ou por seus sites. Remédios não podem ser vendidos em sites em geral, vendedores ambulantes e carros. Os medicamentos vendidos nestes locais têm procedência incerta e podem ser falsificados;Desde 2019 são proibidos pela resolução 3211 da Anvisa a comercialização e a propaganda de quaisquer medicamentos por meio das plataformas Facebook e Mercado Livre;Procure auxílio dos conselhos profissionais, como os conselhos regionais de Medicina ou Odontologia ou sociedades médicas, por exemplo, para verificar as credenciais profissionais (nome, registro profissional etc.) de alguém que apareça protagonizando anúncios de um produto do âmbito da saúde;Suspeite de produtos recebidos fora da embalagem original. Todos os medicamentos são fornecidos dentro de caixinhas de papel (embalagem secundária).

Estadão
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