Caso Richthofen: detalhe surpreendente no corpo de Manfred levantou suspeitas e intrigou investigadores
Ex-chefe do DHPP revela diferenças encontradas nos corpos das vítimas e explica como vestígios na mansão ajudaram a desmontar a versão de um suposto assalto
Novos relatos do ex-investigador Robson Feitosa revelam detalhes que desmontaram a tese de latrocínio no caso Richthofen. A constatação de que o rosto de Manfred estava mais limpo do que o de Marísia sugeriu um tratamento diferenciado após os ataques. Além dessa discrepância, a presença de uma toalha na boca da mãe, o reviramento de uma pasta com dinheiro conhecida pelos filhos e contradições nos relatos de Suzane direcionaram as suspeitas para ela e os irmãos Cravinhos, que acabaram condenados.
O assassinato de Manfred e Marísia von Richthofen, ocorrido em 31 de outubro de 2002, permanece entre os crimes de maior repercussão da história brasileira. Passados 24 anos, novos relatos sobre os primeiros momentos da investigação revelam detalhes que chamaram a atenção dos policiais e contribuíram para esclarecer o que realmente aconteceu dentro da residência da família, localizada no Brooklin, na Zona Sul de São Paulo.
No segundo episódio de Investigação AH, programa dedicado a crimes reais do portal Aventuras na História, o ex-investigador Robson Feitosa, que comandava a equipe H-Sul do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), relembrou a chegada dos policiais ao imóvel e as primeiras inconsistências identificadas na cena.
Entre os elementos que despertaram suspeitas estava uma diferença na aparência dos corpos das vítimas. Segundo o ex-investigador, Manfred apresentava o rosto mais limpo do que Marísia, que tinha sinais de agressões mais intensas.
O contraste chamou a atenção da equipe, que começou a questionar se o casal havia realmente sido vítima de um roubo seguido de morte, como se acreditava inicialmente.
Investigador revela detalhe intrigante no corpo de Manfred
Na madrugada do crime, a equipe H-Sul do DHPP foi acionada pela 27ª Delegacia de Polícia, localizada no Campo Belo, para investigar um duplo homicídio na rua Zacarias de Góes.
Robson Feitosa e o delegado Ricardo Guanaes estavam entre os primeiros policiais a chegar à residência.
Ao entrar no quarto do casal, os investigadores encontraram Manfred e Marísia em lados opostos da cama, com marcas de violência na região da cabeça.
"Subimos ao andar superior, onde estavam os quartos. Dava para observar o seguinte: a mãe estava de um lado da cama; e o pai do outro. O braço do pai caído e uma arma ao lado, arma sem munição, caída ali", relembrou Robson.
A disposição dos corpos e a presença de uma arma de fogo sem munição perto de Manfred foram alguns dos elementos analisados pela equipe.
Entretanto, o que mais intrigou o ex-investigador foi a diferença entre as condições em que as vítimas foram encontradas.
"Mas dava para observar que a mãe tinha sido mais agredida do que o pai", afirmou.
Na avaliação de Robson, a aparência do rosto de Manfred sugeria que havia recebido um tratamento diferente após as agressões.
"E dava para observar um certo carinho em cima do pai. Veja, como é que nós podemos falar de carinho com tantas agressões? Mas nós temos que observar o seguinte: o pai estava com a face mais limpa, lavada, certo? E a mãe não. Havia uma agressividade maior", contextualizou.
A observação não significava que o engenheiro tivesse sofrido pouca violência, mas indicava uma diferença na maneira como os corpos haviam sido deixados.
Toalha molhada na boca de Marísia chamou atenção
Outro aspecto considerado importante pelos investigadores foi a situação em que Marísia von Richthofen foi encontrada.
De acordo com Robson Feitosa, havia um recipiente com água próximo à cama e uma toalha molhada colocada na boca da vítima.
"Do lado da mãe, tinha um jarro com água no criado-mudo, uma toalha molhada, enfiada na boca da mãe, e diversas marcas de agressão em ambas as cabeças", descreveu.
O ex-investigador levantou a possibilidade de que Marísia tivesse apresentado alguma reação durante o ataque.
Segundo ele, mesmo quando uma pessoa perde a consciência após sofrer agressões, o organismo pode produzir respostas involuntárias, como gemidos ou outros sons.
Em uma região residencial silenciosa, esses ruídos poderiam chamar a atenção de vizinhos.
A hipótese, entretanto, foi apresentada como uma possibilidade para explicar os vestígios encontrados, e não como uma conclusão definitiva sobre os últimos momentos da vítima.
Pasta com dinheiro levantou as primeiras suspeitas
Além das condições dos corpos, a equipe policial identificou elementos suspeitos em outros ambientes da residência.
Um dos primeiros objetos a despertar a atenção dos investigadores foi uma pasta encontrada aberta no escritório de Manfred.
"Observando o local do crime, nós percebemos que no escritório tinha uma pasta aberta", contou Robson.
Posteriormente, os policiais descobriram que o objeto era utilizado para guardar dinheiro destinado às despesas dos filhos.
"Essa pasta, depois nós viemos a descobrir, ainda naquele mesmo dia, que era uma pasta onde ficava o dinheiro da mesada. Salve engano, oito mil mensais por mês para os dois garotos", explicou.
Segundo o relato do ex-investigador, Manfred mantinha valores em reais, dólares e euros dentro da pasta, repondo o dinheiro conforme os filhos utilizavam as quantias disponíveis.
"Os pais contavam da seguinte maneira: cada vez que o dinheiro diminuía, ou a filha ou o filho falava que estava menos, ou os pais observavam e punham. De forma que sempre tinha oito mil reais naquela mala… Mas estava tudo muito revirado, tudo muito mexido", acrescentou.
A descoberta foi importante porque Suzane von Richthofen conhecia o local em que o dinheiro era guardado.
Posteriormente, a investigação concluiu que parte da quantia havia sido utilizada como pagamento a Cristian Cravinhos pela participação no assassinato do casal.
Compra de motocicleta ajudou a identificar os criminosos
Depois do crime, Cristian Cravinhos adquiriu uma motocicleta, compra que despertou suspeitas por não corresponder à condição financeira que os investigadores conheciam de sua família.
A movimentação passou a ser considerada na apuração sobre a origem do dinheiro retirado da residência dos von Richthofen.
Outro detalhe que comprometeu a versão apresentada por Suzane foi a descrição que ela fez de uma pasta de couro encontrada danificada.
A jovem afirmou que a residência havia sido invadida por assaltantes e mencionou um corte no objeto, utilizado para guardar dinheiro.
Entretanto, os peritos perceberam que o dano estava localizado em uma posição que não poderia ser visualizada do ponto em que Suzane alegava estar quando encontrou a cena.
A inconsistência sugeria que ela já tinha conhecimento do corte antes do momento em que dizia ter descoberto o suposto assalto.
Esses elementos, analisados em conjunto, ajudaram a polícia a abandonar a hipótese inicial de latrocínio e aprofundar as investigações sobre pessoas próximas à família.
Especialista explica como vestígios revelaram contradições
O episódio de Investigação AH também contou com a participação da advogada criminalista e especialista em perícia criminal Roselle Soglio.
Durante a entrevista, ela explicou como os profissionais responsáveis pela análise de uma cena de crime identificam, registram e preservam elementos que podem ser utilizados como provas.
"As plaquinhas que vemos nos filmes são as marcações dos vestígios. Então, para cada vestígio, o perito vai colocando essas marcações, até para não confundir, e vai recolhendo elas. Cada uma dessas, individualmente, deve ser guardada da forma como elas têm que ser guardadas", detalhou.
Roselle ressaltou que um dos maiores desafios da investigação é evitar que a hipótese apresentada inicialmente limite o trabalho dos policiais.
No caso Richthofen, a primeira informação recebida pelas autoridades indicava a possibilidade de roubo seguido de morte.
"Se o perito ou investigador se deixa levar por isso, ele só vai buscar o quê? O crime patrimonial. E os olhos treinados, que são muito importantes dessas pessoas, observam que algumas coisas não se encaixam", explicou.
A especialista destacou que a presença de uma arma de fogo próxima ao corpo de Manfred, contrastando com o uso de outros instrumentos para cometer os assassinatos, também merecia atenção.
"No caso, se eu não me engano, havia, inclusive na mãe, uma sufocação por um saco plástico que havia sido colocado ali. Quer dizer, a crueldade não condiz com que normalmente o latrocida pratica", afirmou.
Para Roselle, a análise cuidadosa dos elementos encontrados permite reconstruir acontecimentos e identificar situações que não correspondem à versão inicialmente apresentada.
"Os olhos treinados dos peritos vão observando isso, o vestígio te conduz", observou.
Vestígios ajudaram a desmontar versão de assalto
Na avaliação da especialista, os sinais encontrados na residência indicavam que o crime poderia envolver pessoas familiarizadas com o imóvel e com os hábitos dos moradores.
"O vestígio, entre aspas, fala com você. Ele vai te levar naquela cena e vai falar: veja, não é um caso simples de um crime patrimonial. Nós estamos diante de uma coisa muito mais complexa e que, naquela casa, naquela circunstância, só quem conhecia muito bem aquele local poderia saber que tinha dinheiro dentro de uma mala; que tinha um armário".
Roselle também enfatizou a importância de preservar integralmente o local de um homicídio, evitando alterações que possam comprometer a identificação de provas.
"Porque, como o vestígio conversa com você, se eu adentrar e estragar aquela cena, ele não tem mais o que dizer", concluiu.
A combinação dos vestígios físicos com as contradições nos depoimentos foi fundamental para esclarecer a dinâmica dos assassinatos.
Suzane e irmãos Cravinhos foram condenados pelo crime
As investigações concluíram que o assassinato de Manfred e Marísia von Richthofen havia sido planejado por Suzane, então com 18 anos, e executado pelos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos.
Daniel era namorado de Suzane na época, enquanto Cristian participou da ação ao lado do irmão.
Em julho de 2006, os três foram condenados pela Justiça por homicídio triplamente qualificado.
Suzane von Richthofen e Daniel Cravinhos receberam penas de 39 anos e seis meses de prisão cada um. Cristian foi condenado a 38 anos e seis meses.
O crime se tornou um dos episódios mais conhecidos da história policial brasileira e continua sendo revisitado em produções audiovisuais, livros e documentários.
No novo relato apresentado por Investigação AH, as lembranças de Robson Feitosa mostram como detalhes aparentemente pequenos, como a aparência do rosto de Manfred, a disposição dos objetos no quarto e uma pasta de dinheiro no escritório, contribuíram para levantar dúvidas sobre a versão inicial do crime.
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