Caso Orelha: Como ensinar crianças e adolescentes a terem respeito pelos animais?
A prevenção da violência começa no exemplo. Seja alimentando um cão comunitário de forma supervisionada ou adotando um pet de maneira planejada, o envolvimento da família é o que sustenta a mudança cultural
Passei um tempo sem conseguir abrir notícias sobre o espancamento do cão comunitário Orelha, em Santa Catarina. Senti vontade de chorar várias vezes. Era só assistir a uma chamada na TV sobre o caso, ou ver alguém indignado nas redes sociais pra sentir um aperto no peito. Saber que o crime cruel foi cometido por adolescentes me fez lembrar do assassinato do índio Galdino Jesus dos Santos, em Brasília.
Jovens ricos atearam fogo em Galdino enquanto ele dormia em um ponto de ônibus na W3 Sul, avenida em um bairro nobre da capital federal. Onde estão hoje? Já deram um Google? Vou poupar o trabalho de vocês: Atualmente, os cinco assassinos fazem parte da elite do funcionalismo público. Recebem altos salários e uma série de privilégios.
Caso Orelha e a violência contra animais
Indignações à parte, hoje, o crime bárbaro contra o cão Orelha chocou a sociedade e reacendeu um debate urgente sobre a banalização da violência contra animais no Brasil. Para além da punição, organizações não governamentais e gestores públicos defendem que a solução definitiva passa pela educação humanitária e pela quebra de uma visão antropocêntrica do mundo. Entidades como o Instituto Ampara Animal alertam que a agressividade contra bichos é, frequentemente, um "indicador de risco" para outras formas de violência, funcionando como um reflexo de abusos sofridos ou presenciados pelo próprio agressor no ambiente doméstico.
A campanha "Quebre o Elo", lançada pela Ampara, sustenta que o contato gradual e gentil com os animais ajuda crianças e adolescentes a desenvolverem a empatia. Assim, reconhecem os bichos como seres sencientes — capazes de sentir medo, dor e alegria. Esse processo de sensibilização é reforçado por iniciativas práticas, como as da ONG Toca Segura, que atua no Distrito Federal e em Goiás. Em relato à Agência Brasil, organizadores afirmam que, ao permitir que jovens voluntários cuidem de animais resgatados, o medo se transforma em responsabilidade.
Por meio destas ações, eles aprendem que o respeito ao tempo e ao comportamento de cada espécie é fundamental para a formação de cidadãos mais tolerantes e pacíficos.
No setor público, vale mencionar que a Prefeitura de São Paulo tem obtido resultados expressivos com programas que utilizam a interação direta para educar. Existem projetos onde crianças em fase de alfabetização leem histórias para cães e gatos em abrigos municipais — não apenas auxiliam no letramento e na docilização dos animais para adoção, mas tornam os pequenos multiplicadores de consciência em suas famílias. Segundo gestores municipais, essa aproximação desmistifica a ideia do animal como objeto e fortalece a noção de guarda responsável.
Especialistas e voluntários coincidem em um ponto fundamental: a prevenção da violência começa no exemplo. Seja alimentando um cão comunitário de forma supervisionada ou adotando um pet de maneira planejada, o envolvimento da família é o que sustenta a mudança cultural. Afinal, o combate aos maus-tratos não se faz apenas com leis mais rigorosas, mas com a construção de uma sociedade que compreenda o cuidado como um valor inegociável.
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