Site de sadomasoquismo e treino de tiro: a confissão da babá brasileira que participou do assassinato da patroa pelo próprio marido
Juliana Peres Magalhães confessou ter participado de um plano para assassinar a americana Christine Banfield ao lado do seu amante, marido da vítima. Ela também admitiu ter atirado e matado um outro homem, no mesmo dia.
Importante: esta reportagem inclui conteúdo sensível que pode ser perturbador para alguns leitores.
"Eu me ajoelhei e coloquei minhas mãos no carpete, mas, assim que senti o sangue, tirei a mão."
"Por quê? Qual era a sensação do sangue?"
"Quente."
Esse diálogo faz parte do depoimento em que a brasileira Juliana Peres Magalhães confessa ter participado com seu amante de um plano para assassinar a americana Christine Banfield, mulher dele.
Juliana se mudou para os Estados Unidos para trabalhar como babá em Fairfax, no estado da Virgínia. Segundo sua confissão, ela e Brendan Banfield, pai da família que a empregava e com quem estava tendo um caso, teriam assassinado Christine em sua casa em 24 de fevereiro de 2023.
Joseph Ryan, um homem que o casal atraiu até o local usando uma rede social de sadomasoquismo e tentou incriminar pelo assassinato, também foi morto.
Brendan Banfield foi considerado culpado por duas acusações de homicídio qualificado no último dia 2 de fevereiro, após Juliana aceitar um acordo do escritório da Procuradoria do Condado de Fairfax (cuja atuação inclui promotoria criminal) e confessar sua participação na trama. Ele sempre disse ser inocente.
A brasileira de 25 anos falou pela primeira vez publicamente sobre sua versão dos fatos durante uma audiência judicial em janeiro deste ano. Ela confessou ter atirado em Ryan e assistido Brendan esfaquear Christine diversas vezes.
A sentença de Juliana será anunciada nesta sexta-feira (13/2) por um tribunal local.
A BBC News Brasil entrou em contato com as defesas de Brendan Banfield e Juliana Magalhães, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.
Os advogados de Banfield afirmaram, durante o julgamento, que seu cliente era inocente e que o depoimento prestado pela babá brasileira era mentiroso. Eles ainda acusaram os promotores encarregados do caso de se aproveitarem de um momento emocionalmente difícil para convencer Juliana a se voltar contra o namorado (leia mais abaixo).
'O plano para se livrar dela'
A história de Juliana nos Estados Unidos começou em outubro de 2021, quando ela se mudou do interior de São Paulo como parte de um programa de au pair, um intercâmbio cultural que permite que jovens morem com uma família americana por 12 a 24 meses cuidando de crianças em troca de acomodação, alimentação e de uma bolsa semanal.
A brasileira, formada em enfermagem, passou a morar na casa de Brendan e Christine em Fairfax, uma cidade de 25 mil habitantes localizada a cerca de 30 minutos de carro da capital, Washington DC.
Brendan, de 40 anos, era investigador criminal da Receita Federal americana (IRS, na sigla em inglês) e Christine, que morreu aos 37 anos, era enfermeira neonatal.
Juliana cuidava da filha de 3 anos e meio do casal.
Segundo ela, a relação com Christine sempre foi bastante amigável e as duas chegaram, inclusive, a passar algum tempo juntas fora do trabalho, fazendo compras.
Ao mesmo tempo, durante seus primeiros meses na casa, ela afirma que "mal falava" com Brendan.
Aos poucos, porém, a relação dela com o patrão mudou. Em agosto de 2022, o vínculo se tornou "sexual", ainda de acordo com seu depoimento.
Nos meses seguintes, Juliana passou a compartilhar fotos e vídeos ao lado do amante em suas redes sociais. Nas imagens, Brendan sempre aparecia com o rosto coberto.
O "plano" que acabou levando ao assassinato de duas pessoas surgiu nas conversas entre o casal pela primeira vez em outubro daquele mesmo ano, segundo a babá.
Brendan teria dito que divórcio não era uma opção, pois teria que dividir a custódia da filha com Christine, além dos bens da família.
"Ele te disse o que queria fazer?", perguntou a procuradora-adjunta Kelly Sprissler durante o depoimento de Juliana no tribunal.
"Ele mencionou o plano para se livrar dela", respondeu a brasileira.
Segundo Juliana, sua primeira reação foi achar "que ele estava brincando", mas, com o tempo, Brendan compartilhou mais detalhes do que havia planejado.
A busca por um culpado
A presença de Joseph Ryan no momento do crime era parte essencial do plano de Brendan, segundo o depoimento de Juliana e as investigações da polícia. A ideia era incriminar o homem pelo assassinato de Christine.
O casal teria usado uma conta falsa em uma rede social de sadomasoquismo para se passar por Christine e atrair Ryan até a casa da família.
Segundo Juliana, Brendan criou o perfil usando fotos da esposa, além de um email aberto especificamente para isso. Os dois passaram então a trocar mensagens com homens, tentando marcar um encontro, disse a brasileira.
A Procuradoria encontrou registros de diversas conversas. Em várias delas, o perfil que se passava por Christine tentava convencer os homens a realizar o primeiro encontro em sua casa. Vários deles respondem que preferem uma conversa em um local público primeiro, por segurança.
Segundo Juliana, eventualmente Ryan foi escolhido como a pessoa certa. Ele tinha 39 anos quando foi assassinado.
"Ele fez Brendan se sentir confiante o suficiente de que seria a pessoa certa para desempenhar o papel que ele precisava", disse a brasileira em seu depoimento.
Ainda segundo a babá, o homem se mostrou "agressivo" e concordou em levar objetos específicos para o encontro. Os itens, como algemas e cordas, são usados em sessões de sadomasoquismo, mas também serviriam para incriminá-lo pelo assassinato.
Brendan queria garantir que Ryan tivesse ainda uma faca, mas quando o homem enviou uma foto da que levaria, ele ficou desapontado, afirmou Juliana.
"[Ele disse] que aquela não era a faca que ele esperava que a pessoa trouxesse quando pediu uma faca. Ele esperava uma faca com ponta, que seria mais fácil."
Eventualmente, a conversa com Ryan passou a ser realizada pelo aplicativo Telegram, segundo a Procuradoria. Juliana também admitiu ter conversado com o homem por telefone, se passando por Christine.
Segundo o depoimento da brasileira, todas as trocas de mensagem aconteceram usando o computador de Christine, em momentos em que ela estava presente na casa. Tanto Juliana quanto Brendan escreveram as mensagens, segundo a brasileira.
"Ele [Brendan] sempre falava para garantirmos que estávamos acessando a conta quando ela também estivesse em casa para que, ao longo da investigação, ficasse claro que, sempre que ela usava o perfil, ela estava em casa", disse a babá aos promotores.
Treino de tiro e janelas antirruído
Em seu depoimento, a brasileira conta como ela e o amante foram, em mais de uma ocasião, a um clube de tiro para se preparar para os assassinatos.
"Para o caso de eu precisar usar, caso algo desse errado", disse Juliana, quando questionada sobre o porquê dos treinamentos com arma.
Ela também relatou que Brendan trocou as janelas da casa onde eles moravam por janelas antirruído.
Os dois chegaram, inclusive, a testar as novas janelas, para ter certeza de que vizinhos não poderiam ouvir o que acontecia lá dentro. "Ele [Brendan] me falou para ir até a calçada e ele ficaria no quarto principal e gritaria. E eu deveria dizer se podia ouvi-lo ou não", relatou Juliana.
O americano também teria andado pela vizinhança em busca de câmeras e mudado sua rotina nos dias anteriores ao crime, para não despertar suspeitas.
A preparação para o crime também incluiu a troca dos celulares do casal, segundo a brasileira. "Ele me disse para me livrar do meu outro celular, que tinha fotos e nossas coisas, porque mesmo se eu resetasse o celular, [a polícia] ainda conseguiria ver as coisas que eu tinha antes."
Brendan também teria pedido que Juliana estacionasse seu carro em um local diferente do usual, para que Ryan não estranhasse a presença de um segundo veículo na casa, de acordo com o que ela contou em seu depoimento.
O dia do crime
Ainda de acordo com o relato de Juliana, no dia marcado com Ryan ela acordou cedo. Christine estava em seu quarto, dormindo.
A brasileira afirmou que o plano combinado previa que ela saísse de casa com a filha do casal dizendo que iria com ela ao zoológico, mas que ficou com a criança dentro do carro, que estava estacionado perto da residência, e colocou uma pistola no bolso do seu casaco.
Já Brendan sairia para trabalhar, mas pararia em uma lanchonete localizada a 6 minutos da casa. Ele também estaria armado.
Conforme o depoimento de Juliana, a ideia era que, pouco tempo depois de Ryan chegar ao local, ela ligasse para Christine avisando que um estranho havia entrado na casa. O celular da patroa, porém, estaria desligado.
Em seguida, a babá deveria ligar para Brendan, que voltaria correndo para a casa. Ela e a criança então se esconderiam no porão.
De acordo com Juliana, contudo, no dia 24 de fevereiro os fatos se desenrolaram de forma diferente do previsto.
Alguns minutos após fechar no porão, a babá deixou a filha do casal e subiu até o segundo andar da casa, onde encontrou Brendan.
Quando os dois entraram no quarto onde Christine estava dormindo, Juliana diz ter visto Ryan em cima da patroa, segurando-a na cama.
Não está claro, a partir do depoimento da brasileira, porque ele teria feito isso.
"Ela [Christine] gritou para Brendan: 'Brendan, ele tem uma faca'. E foi nesse momento que ele atirou em Joe [Ryan] pela primeira vez", disse a babá em seu depoimento, com a voz embargada.
Christine então pediu que ela ligasse para a emergência. Assim que a babá discou o número 911, Brendan pediu que ela desligasse. Em seguida, ele começou a esfaquear a esposa, segundo Juliana.
"Ele subiu em cima dela e foi aí que eu vi ele esfaqueando ela pela primeira vez", relatou a brasileira.
"Quando vi o que estava acontecendo, corri para o outro lado da cama, me encolhi e tapei os ouvidos e os olhos."
Juliana negou ter usado a faca contra Christine ou tocado no corpo da mulher. "Eu me ajoelhei e coloquei minhas mãos no carpete, mas, assim que senti o sangue, tirei a mão."
Em um depoimento concedido em outubro de 2024, a brasileira contou ainda que Christine chegou a pedir a Brendan que a deixasse morrer.
"Ele estava esfaqueando ela e ela só dizia: 'Me deixa. Eu vou morrer de qualquer jeito. Vou sangrar até morrer'".
"E ele dizia: 'Eu não consigo.'"
Alguns instantes depois, a babá diz ter notado que Ryan ainda estava vivo. "Ele estava se mexendo e o Brendan não teve nenhuma reação. (...) E foi aí que eu disparei também", relatou Juliana durante o interrogatório.
"Você acertou alguém?", questionou, em seguida, a procuradora-adjunta Kelly Sprissler.
"Sim."
"Quem você acertou?"
"O Joe [Ryan]."
"E o que aconteceu depois que você atirou?"
"Eu simplesmente atirei nele, e ele caiu para trás."
Investigações e condenação
Após os assassinatos, Juliana diz que Brendan a teria instruído a ligar para a emergência mais uma vez, mas agora para relatar que um invasor havia entrado na casa.
Nos áudios da ligação, divulgados pela Justiça americana, é possível ouvir a brasileira dizendo, em inglês, que sua amiga havia sido esfaqueada. Juliana parece desesperada e não consegue passar o endereço da residência à telefonista. Brendan então assume a chamada.
Pouco depois, segundo Juliana, a polícia chegou ao local. Ambos foram levados para a delegacia e foram interrogados.
Em seu depoimento aos promotores encarregados do caso, após ter assinado o acordo de confissão, a au pair confessou ter dado uma versão diferente dos fatos aos policiais no dia do crime.
"O que eu contei aos detetives foi a versão que Brendan me pediu para usar caso fosse falar com um advogado ou se acontecesse o que aconteceu", disse Juliana posteriormente. Ela também disse ter mentido aos próprios advogados em um primeiro momento.
A versão contada pela babá inicialmente era que Ryan estava prestes a esfaquear Christine, e que eles estavam tentado defendê-la.
Após 7 meses de investigações, Juliana foi presa em outubro de 2023 por ter atirado e matado uma pessoa.
Quando os policiais chegaram à residência dos Banfield com um mandado de prisão, descobriram que a au pair havia se mudado para o quarto de Brendan, o mesmo em que Christine e Joseph Ryan foram mortos.
Em seu depoimento, Juliana afirmou ainda que a filha, a mãe e a avó de Brendan também estavam morando com eles.
Brendan Banfield foi preso em setembro de 2024, indiciado por quatro acusações de homicídio qualificado e uma acusação de uso de arma de fogo na prática de um crime.
Um mês depois, Juliana assinou um acordo com a Procuradoria e se declarou culpada de homicídio culposo, uma acusação menor do que as que enfrentava originalmente. Em troca da confissão, ela concordou em cooperar com os promotores e testemunhar contra Brendan Banfield em seu julgamento.
O anúncio da sentença da brasileira está marcado para a sexta-feira (13/2).
Como parte do acordo, a Procuradoria concordou em recomendar uma pena equivalente ao tempo de prisão já cumprido, o que significaria que a brasileira seria liberada em breve e provavelmente deportada para o Brasil.
Já Brendan foi condenado no início de fevereiro, após quatro semanas de julgamento. Sua sentença será anunciada em uma audiência marcada para 8 de maio.
Versão 'completamente insana'
Durante seu depoimento, Juliana foi questionada sobre por que decidiu confessar e aceitar o acordo da Procuradoria.
"Acho que foi por achar que estava fazendo a coisa certa", disse ela. "O mundo merecia saber o que realmente aconteceu e eu simplesmente não conseguia guardar isso para mim, a vergonha, a culpa, a tristeza e todos esses sentimentos."
A babá disse também que aceitou as condições para aumentar a possibilidade de conseguir uma pena menor.
A defesa de Brendan Banfield, porém, classificou toda a versão dada pela brasileira como falsa.
"O assassinato de Christine Banfield por Joe Ryan ocorreu em 24 de fevereiro de 2023. A prisão de Juliana Peres Magalhães aconteceu em outubro de 2023. Ela ficou detida por quase um ano antes de prestar as declarações que corroboram integralmente o que a Procuradoria acabou de lhes dizer", afirmou o advogado de Banfield, John Carroll, durante o julgamento.
"E ela fez isso porque os promotores decidiram lhe oferecer algo certo. Iriam oferecer a ela uma confissão de culpa por homicídio culposo, que é um crime menos grave, e tempo cumprido garantido mediante seu depoimento aqui hoje, amanhã ou quando quer que esse depoimento ocorra."
Carroll também contestou as provas e disse não ser possível afirmar com certeza quem estava usando os dispositivos eletrônicos de Christine Banfield para trocar mensagens com homens no site de sadomasoquismo.
Ele criticou a investigação, argumentando que comandantes da polícia de Fairfax pressionaram os investigadores a concordarem com a teoria de que ele teria se passado por Christine. O advogado afirmou ainda que dois detetives que questionaram essa ideia foram realocados.
Durante seu depoimento, Banfield também negou veementemente qualquer plano para ferir sua esposa e classificou a ideia de que teria tentado atrair Ryan até a casa usando uma rede social sadomasoquista como "completamente insana".
"Eu não sabia nada sobre Joe Ryan antes das interações no quarto", disse no julgamento.
Ele afirmou ainda que seu relacionamento com Juliana não era sério, citando casos extraconjugais anteriores como prova de que não mataria sua esposa por uma amante.
Cartas e acordo para documentário
Durante o julgamento de Banfield, seu advogado, John Carroll, também questionou os motivos de Juliana para aceitar o acordo, afirmando que ela estaria em negociação com produtores e editoras sobre potenciais acordos para vender sua história para adaptação em documentário ou livros.
A brasileira reconheceu, em seu depoimento, ter sido contatada por produtores que queriam que ela vendesse sua história. Ela disse que ainda não havia assinado nenhum contrato, mas afirmou que uma produtora com a qual estaria em negociação depositou dinheiro em sua conta no presídio — fundos que ela pode usar para comprar comida e entrar em contato com sua família.
"Eles se tornaram meu sistema de apoio", disse Juliana, referindo-se a alguns dos produtores.
A Procuradoria também publicou comunicações da au pair com sua mãe, que está no Brasil. No texto, de março de 2025, ela discute a possibilidade de um acordo para um documentário produzido pela Netflix.
Na mensagem, enviada da prisão, ela diz que seria uma possibilidade de "pensar no futuro".
"Será dificil pra eu arrumar trabalho e tudo. Pelo menos podemos ter uma vida mais estável. Quero prover isso pra vocês. Vocês merecem. Quero prover e ajudar com o que posso. Tirar algo bom disso tudo. Além de falar a verdade, limpar minha imagem, etc", escreveu Juliana.
A Procuradoria também publicou, entre os documentos relacionados ao caso, cartas enviadas por Juliana à família de Brendan antes de ela assinar o acordo de confissão.
As mensagens mostram sentimentos conflitantes. Em uma delas, endereçada à mãe de Banfield, a brasileira se oferece para assumir a culpa pelos crimes, em uma tentativa de proteger o amante.
"Eu daria minha vida pela dele e jamais faria algo para machucá-lo ou contra ele", escreveu. "Não importa o que digam, o que queiram acreditar. Assumirei a culpa por nós dois."
Em outra carta, porém, a au pair escreveu: "Não estou disposta a passar o resto da minha vida na prisão por algo que não fiz."
Após o julgamento da semana passada, o procurador do Condado de Fairfax, Steve Descano, chamou Brendan Banfield de "monstruoso" em uma coletiva de imprensa.
"Obviamente, havia muitos detalhes sórdidos neste caso que fizeram com que ele atraísse muita atenção", disse Descano.
"Mas, no fim das contas, este caso diz respeito a duas pessoas que foram assassinadas há quase três anos aqui no Condado de Fairfax. Levamos isso muito, muito a sério."
A promotora Jenna Sands afirmou ainda que o depoimento de Brendan Banfield durante o julgamento contribuiu para sua condenação.
"Acho que todos comentaram sobre o que era tão óbvio: que ele não foi sincero, que foi frio, que se comportou de maneira estranha em resposta a perguntas que deveriam ter despertado emoção", disse Sands à imprensa local, afirmando ainda "que ele nunca se referiu a si mesmo como marido de Christine, que não falou com carinho de sua esposa, que não demonstrou absolutamente nenhuma emoção humana que esperamos ver em alguém em sua posição."