Debandada de ministros de Lula? Entenda o porquê das movimentações pré-eleições e quem deve sair
Até o fim de janeiro, ao menos 17 dos 38 ministros estão em articulação para deixar suas pastas e seguir na busca de outros postos
O primeiro turno das eleições é apenas em outubro, mas o jogo eleitoral já começou e segue a mil. No governo Lula, a previsão é de uma debandada recorde de ministros, que devem deixar suas respectivas pastas nas próximas semanas para seguirem rumo a outros postos. A movimentação não deve ser lida como um sinal de enfraquecimento do governo Lula. Se trata do inverso. As recentes articulações da esquerda revelam uma estratégia para ocupar mais frentes políticas, aumentar a governabilidade e ter mais força no Congresso -- no momento, 'dominado' pela oposição.
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O governo Lula conta com 38 ministérios. Conforme organizado pelo Terra, ao menos 17 deles já sinalizaram que devem deixar o Governo Federal até o prazo de desincompatibilização. Se trata da data limite, prevista pela Justiça Eleitoral para abril, para que pessoas que ocupam cargos públicos se afastem dos mesmos para estarem aptos a disputar as eleições. É uma forma de prevenir abuso de poder.
Em declarações públicas, seis ministros sinalizaram que pretendem tentar uma chance no Senado:
- Marina Silva (REDE/SP), ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, por São Paulo;
- Alexandre Silveira (PSD/MG), ministro de Minas e Energia, por Minas Gerais;
- Gleisi Hoffmann (PT/PR), secretaria de Relações Institucionais, pelo Paraná;
- Waldez Góes (PDT/AP), ministro de Integração e Desenvolvimento Regional, por Amapá;
- Sílvio Costa Filho (Republicanos/PE), ministro de Portos e Aeroportos, por Pernambuco;
- e Rui Costa (PT/BA), Casa Civil: Ministro da Casa Civil, pela Bahia.
Cada estado tem três senadores, e o mandato de cada um dura oito anos. A cada quatro anos há renovação nas cadeiras: alternadamente, mudam um ou dois senadores por eleição. Na Eleição de 2026 é a vez de renovarem dois terços dos senadores. É a oportunidade que Lula busca para aumentar sua influência sobre a maioria das cadeiras.
No momento, a maior bancada do Senado é a do Partido Liberal (PL), partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, com 15 nomes. O segundo maior partido que ocupa o plenário é o Partido Social Democrático (PSD), com 14 cadeiras. O Movimento Democrático Brasileiro (MDB) tem a terceira maior bancada, com 11 pessoas. O Partido dos Trabalhadores (PT), sigla do presidente Lula, tem 9 representantes no Senado.
Além disso, outros seis ministros de Lula já adiantaram ter a Câmara como foco:
- Anielle Franco (PT/RJ), ministra de Igualdade Racial, pelo Rio de Janeiro;
- Sônia Guajajara (PSOL/SP), ministra dos Povos Indígenas, por São Paulo;
- Jader Barbalho Filho (MDB/PA), ministro de Cidades, pelo Pará;
- André Fufuca (PP/MA), ministro do Esporte, pelo Maranhão;
- André de Paula (PSD/PE), ministro de Pesca e Aquicultura, por Pernambuco;
- Wolney Queiroz (PDT/PE), ministro de Previdência Social, também por Pernambuco.
Outras frentes
Este também será um ano de renovação política com relação aos governadores. Isso porque, dos 27 políticos que ocupam esse posto, 18 já foram reeleitos e, por isso, não podem concorrer novamente ao cargo. Até o momento, dois ministros de Lula indicaram que gostariam de seguir esse caminho: Márcio França (PSB/SP), ministro de Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, por São Paulo; e Renan Filho (MDB/AL), ministro de Transportes, por Alagoas.
Simone Tebet (MDB/MS), ministra de Planejamento e Orçamento, também confirmou que deixará a Esplanada dos Ministérios até março, para participar das eleições. Mas seu futuro segue incerto, sem saber para qual cargo deve aplicar. Mas, conforme tem declarado, ela segue de olho no Senado.
A incerteza também paira sobre Fernando Haddad (PT/SP), ministro da Fazenda. Ele confirmou, em coletiva de imprensa, que deve deixar o ministério em fevereiro, mas ainda não se sabe se ele deve disputar algum outro cargo nas eleições de 2026. Ao longo do último ano, ele declarou diversas vezes que não pretende se candidatar, mas seu nome é avaliado como um dos cotados para o Senado ou Governo de São Paulo.
Já Camilo Santana (PT/CE), ministro da Educação, por enquanto é o único que confirmou que deixará sua pasta, mas não irá se candidatar. Ele declarou que deixará o comando do MEC após a apresentação de um balanço das ações da pasta referentes a 2025, que deve ocorrer em março, e que depois se dedicará à agenda eleitoral. No caso, ele irá se dedicar à campanha de reeleição do governador Elmano de Freitas (PT), do Ceará.
Outro é o advogado-Geral da União, Jorge Messias (PT/PE). Seu caso é diferente, pois ele foi indicado pelo presidente Lula ao Supremo Tribunal Federal para ocupar a cadeira de Luis Roberto Barroso, que antecipou sua aposentadoria e deixou o tribunal no ano passado. Por enquanto, teoricamente, ele segue na pasta. Mas, se aprovado, pode ser outro ministro a se despedir.
Quem permanece?
Dezesseis dos ministros de Lula devem seguir ao lado do petista até o fim do ano. Entre eles, há quem buscou colocar um ponto final nos rumores. Como foi o caso de Alexandre Padilha (PT/SP), ministro da Saúde, que afirmou nesta sexta-feira, 30, durante agenda em Mauá, que seguirá até o fim do ano trabalhando na pasta.
E também teve quem desistiu de mudar de rota, como Luiz Marinho (PT/SP), ministro do Trabalho e Emprego, que havia indicado que concorreria à Câmara dos Deputados, mas desistiu em dezembro. No último dia 7, em entrevista ao Bom Dia, Ministro, do CanalGov, ele disse que a decisão de seguir no Governo Federal partiu de um pedido do próprio presidente Lula.
Geraldo Alckmin (PSB/SP), parceiro fiel de Lula, também tem sinalizado que não deixará o posto de vice-presidente. Mesmo assim, é ele projetado como um possível forte candidato para bater de frente com Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo que tentará a reeleição, e também tem favoritismo para o Senado.
Incentivo do governo
O mapa político do país em 2026 será desenhado a partir das urnas estaduais. É o que afirmou o cientista político e professor do Insper, Leandro Consentino, em entrevista ao Terra. Sabendo disso, também na busca por ampliar a base eleitoral no Senado e na Câmara dos Deputados, o governo Lula precisa de concorrentes com apelo para se inserirem nesses pleitos. E, por isso, o incentivo.
“O governo não depende mais tanto só da popularidade do presidente, que já não é tão grande quanto foi no seu segundo mandato. Mas depende também dessas alianças regionais, com nomes fortes para compor as chapas. E, aí, o nome dos ministros aparece como a primeira possibilidade”, avalia o especialista.
Esse movimento é comum, mas Leandro admite que a intensidade atual é uma das maiores registradas nos últimos tempos.
Simultaneamente, o desembarque dos ministros compromete a qualidade da articulação política dentro dos Ministérios. Mas, por ser um ano de eleições, do ponto de vista da legislação eleitoral, as entregas já costumam ser reduzidas. Além disso, como pontua, a maior parte das pastas deve ser assumida por secretários executivos “que vão dar continuidade, em geral, às próprias políticas públicas que já estavam sendo realizadas pelo governo nos últimos anos”.
