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Tatiana Farah

O bolsonarismo é maior que Bolsonaro porque tem outro nome: ultradireita

3 out 2022 - 14h53
(atualizado às 14h54)
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Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro
Foto: Buda Mendes/Getty Images / BBC News Brasil

O PL, partido de Jair Bolsonaro, que mais fez parlamentares neste domingo, não colocou um centavo na campanha de Nikolas Ferreira, o deputado federal mais votado do país, com 1,3 milhão de votos em Minas. “Combato a esquerda há muitos anos”, diz o novo deputado, de 26 anos. Anos atrás, um de seus vídeos viralizou com sua pergunta a Fernando Haddad, que havia perdido no segundo turno, em 2018, para Bolsonaro. “Por que depois da eleição você não foi mais à missa, Haddad?”

A verdade, se Haddad foi ou não foi à missa, não tem a mínima relevância. O importante ali é marcar que a esquerda não é de Deus, não está abençoada por ele nem é autorizado por ele. 

O negócio é Deus, Pátria e Família. E, nesse conceito de família heteronormativa, o número de casamentos não importa. Haja vista as ex-mulheres do presidente evangélico. O conceito de Deus e de seus princípios também é muito peculiar para esse Brasil que caminha para a extrema direita. Deus zela pelo feto, mas não zela pelo garoto preto morto por bala perdida em mais uma perdida luta entre polícia e traficantes. 

Esse conceito de família também é leniente com os homens acusados de pedofilia porque, afinal, aquela menina de 11 anos deveria saber o que estava fazendo… 

É um país que não se indignou quando a menina de 11 anos apareceu grávida pela segunda vez de um parente estuprador. Ninguém foi às ruas contra o estupro, contra a pedofilia. O país não foi às ruas quando um jornalista britânico foi morto ao lado de um indigenista quando tentavam salvar a Amazônia. Então, qual o espanto com a eleição do ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles?

O Congresso Nacional tem a cara desse Brasil, cuja ideia de Pátria é vender seu patrimônio _ Paulo Guedes citou até a dificuldade de vender aos estrangeiros uma praia brasileira como se fosse um problema de Estado paquidérmico e atrasado. Um país cuja ideia de protagonismo da mulher reside em criar uma lei sobre voluntariado. Sim, este é um papel bonito para a mulher no Brasil conservador. O papel de senhora caridosa. Ou, quem sabe, o papel de parede. 

Nem 690 mil mortes impediram o ex-ministro da Saúde General Pazuello de se eleger como o segundo deputado federal mais votado pelo Rio de Janeiro. Na campanha dele, o PL botou fé. E botou também R$ 900 mil. Rendeu 205 mil votos, quase três vezes o número de mortos pela covid no estado (75 mil). 

Não adianta dizer que essas pessoas se elegeram de carona no bolsonarismo. Elas são o próprio bolsonarismo. Prova disso é a eleição de Damares Silva ao Senado aconteceu apesar do presidente apoiar outro nome.

Pois não é bolsonarismo que chama. É ultradireita ou extrema direita. E é muito a cara do Brasil. 

Fonte: Tatiana Farah Tatiana Farah é jornalista de política há mais de 20 anos. É repórter da Agência Brasília Alta Frequência. Foi gerente de comunicação da Abraji, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Repórter do BuzzFeed News no Brasil de 2016 a 2020.  Responsável por levar os segredos do Wikileaks para O Globo, onde trabalhou por 11 anos. Passou pela Veja, Folha de S. Paulo e outras redações, além de assessorias de imprensa. As opiniões da colunista não representam a visão do Terra. 
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