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Política

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Checamos o discurso de Lula na Assembleia-Geral da ONU; veja o resultado

Presidente citou dados sobre conflitos armados e investimentos estrangeiro; equipe de fact-checking analisou veracidade das informações

22 set 2026 - 12h55
(atualizado às 13h27)
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Resumo
Checagem do Estadão Verifica sobre o discurso de Lula na Assembleia-Geral da ONU confirmou a veracidade da maioria de suas afirmações, incluindo o recorde de conflitos armados, a saída do Brasil do Mapa da Fome, a queda de 50% no desmatamento amazônico e a posição do país como 3º destino de investimentos externos. Apenas duas declarações tiveram ressalvas: a alegação sobre o impacto do cerco energético a Cuba foi considerada imprecisa, e a menção à ausência do debate climático no G20 carece de contexto.
Presidente Lula em discurso na ONU 22 de setembro de 2026
Presidente Lula em discurso na ONU 22 de setembro de 2026
Foto: REUTERS/MIKE SEGAR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu os discursos da 81ª Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) nesta terça-feira, 22. Ele citou dados sobre conflitos armados, desmatamento e investimentos estrangeiros.

O Estadão Verifica, equipe de checagem de fatos do jornal, analisou as alegações feitas pelo presidente e conferiu a veracidade delas. Foram consideradas apenas afirmações factuais, como números, datas, comparações de grandeza e outras. Após a apuração, atribuímos as etiquetas "falso", "enganoso", "exagerado", "subestimado", "falta contexto", "impreciso" e "verdadeiro".

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Leia checagens anteriores de Lula na ONU

Poder de veto

O que Lula disse: que em 1946, na primeira sessão da Assembleia-Geral da ONU, o Brasil alertava para o preço que a comunidade internacional pagaria pelo poder de veto.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é verdadeiro. Estudos acadêmicos explicam que, desde o princípio da ONU, o Brasil apresenta questões a respeito do Conselho de Segurança. Até 1953, essas críticas tinham como tema principal a questão do veto. O País considerava que o poder era muito grande e dado somente aos países desenvolvidos.

O Brasil aceitou a inclusão da prerrogativa na Carta das Nações Unidas, assinada na Conferência de São Francisco, em 1945, no ano anterior à primeira Assembleia-Geral, mas o posicionamento foi condicionado ao acréscimo de um dispositivo no próprio documento que tratasse da sua revisão.

Na segunda parte da Primeira Assembleia-Geral, que transcorreu em Nova York em 1946, o embaixador Pedro Leão Velloso Netto afirmou, em discurso, que, "se considerado à luz do princípio da igualdade de todos os Estados perante a lei, o Artigo 27 (que estabelece o poder de veto dos membros permanentes) foi um preço muito alto pago por pequenos e médios países pela obtenção da Carta".

Em seguida, disse que o Brasil, "embora seja em tese contrário ao veto, aceitou-o dentro de espírito construtivo, em nome da obtenção de resultados práticos".

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Conflitos armados

O que Lula disse: que o ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é verdadeiro. Dois índices diferentes mostram que o ano passado registrou o maior número de conflitos armados desde o fim da Segunda Guerra Mundial. De acordo com levantamento do Uppsala Conflict Data Program (UCDP), da Universidade de Uppsala, na Suécia, o ano de 2025 registrou oito conflitos entre Estados, o número mais alto desde o início da coleta de dados, em 1946. Os conflitos incluem as guerras entre Rússia e Ucrânia e entre Irã e Israel, bem como os conflitos entre Índia e Paquistão e entre Israel e Síria. O levantamento da UCDP também registrou 65 conflitos armados com o envolvimento de Estados em apenas um ou nos dois lados do conflito armado. O número também é o mais alto desde o início da coleta dos dados, em 1946. Desses, 13 foram classificados como guerras. Já o Global Peace índex de 2026, produzido pelo Institute for Economics & Peace, aponta 61 conflitos ativos envolvendo Estados no ano de 2025. Segundo o órgão, este é o maior número desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Mapa da Fome

O que Lula disse: que, como presidente, retirou o Brasil do Mapa da Fome.

O Estadão apurou e concluiu que: é verdadeiro. Em julho do ano passado, durante o terceiro mandato de Lula, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ONU) anunciou que o Brasil havia saído do Mapa da Fome. Isso significa que o País ficou fora da zona de insegurança alimentar grave no triênio 2022/2023/2024. Ou seja, ficou abaixo do patamar de 2,5% da população em risco de subnutrição ou de falta de acesso a alimentação suficiente. Apesar da melhora, os dados apontam 7 milhões de brasileiros em insegurança alimentar severa, ou 3,4% da população. A classificação se refere à incerteza sobre a capacidade de uma família ter renda para três refeições por dia.

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Escravidão

O que Lula disse: que a Assembleia-Geral da ONU reconheceu o tráfico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é verdadeiro. Em 25 de março, a ONU declarou que o tráfico de africanos para a escravidão foi o "mais grave crime contra a humanidade". A resolução apela por reparações como "um passo concreto para corrigir injustiças históricas". O documento foi aprovado por 123 membros, com 3 votos contrários - dos Estados Unidos, Israel e Argentina - e 52 abstenções.

Cuba

O que Lula disse: que o "cerco energético" a Cuba atinge 10 milhões de pessoas.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é impreciso. A população de Cuba era de 10,9 milhões de pessoas em 2025, de acordo com o Banco Mundial. Os habitantes da ilha têm sofrido com apagões constantes devido ao estado obsoleto das usinas termelétricas e a falta de combustíveis. Segundo a AFP, a situação se agravou em janeiro, com restrições à compra de combustível por parte dos Estados Unidos. No apagão mais recente, registrado no dia 18 de setembro, o sétimo deste ano, apenas 5% da população continuou com energia.

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Desmatamento

O que Lula disse: que o desmatamento caiu pela metade na Amazônia e chegou ao menor nível em 11 anos.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é verdadeiro. A Amazônia registrou uma redução de 50% de área desmatada em comparação com 2022, segundo dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes) e do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) divulgados em fevereiro deste ano. Foi a menor taxa de desmatamento em 11 anos.

Em agosto deste ano, houve um aumento de 10,8% na área sob alerta de desmatamento na Amazônia, em comparação com o mesmo mês de 2025, segundo dados divulgados em setembro pelo Deter. Contudo, considerando o período acumulado de janeiro a agosto, foi registrada uma diminuição de 30,7% nos alertas de desmatamento em relação ao mesmo período de 2025.

Investimentos estrangeiros

O que Lula disse: que o Brasil é o terceiro maior destino de investimentos estrangeiros diretos.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é verdadeiro. Em 2025, o Brasil recebeu US$ 77 bilhões em investimentos estrangeiros diretos, ficando em terceiro lugar entre os países que mais receberam esse tipo de investimento, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. Os dados são da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Vacinas

O que Lula disse: que campanhas contra vacinas estão trazendo de volta doenças erradicadas.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é verdadeiro. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou, em abril de 2025, que doenças controladas ou que haviam sido praticamente eliminadas no mundo devido à vacinação, como sarampo, febre amarela e meningite, registraram tendência de alta. A nota da entidade afirmou que os esforços de imunização estão sob pressão devido a uma "combinação de desinformação, crescimento populacional, crises humanitárias e cortes de financiamento".

Dados da OMS e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) apontam que, apesar dos indicadores de 2025 terem apresentado leve melhora em relação ao ano anterior, a cobertura global de vacinação infantil ficou abaixo dos níveis registrados em 2019, que servem de referência para as metas da Agenda de Imunização 2030. O relatório aponta que há 19,6 milhões de crianças não vacinadas ou com vacinação incompleta no mundo.

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Discussão ambiental no G20

O que Lula disse: que, até recentemente, a resposta à mudança do clima estava consolidada no centro da agenda internacional, mas, neste ano, o tema desapareceu dos debates do G7 e do G20.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: falta contexto. No encontro do G20 do ano passado, na África do Sul, a cúpula do bloco aprovou uma declaração mencionando a crise climática, sem a participação dos Estados Unidos, que boicotou o evento.

O encontro do G20 deste ano vai acontecer em dezembro, em Miami, nos Estados Unidos. Não consta na agenda divulgada até o momento menção a debates relacionados à crise climática. O governo de Donald Trump é marcado por um viés de negacionismo climático.

Em 2026, a discussão climática também ficou de fora da Cúpula do G7, realizada na França. Segundo a imprensa internacional, o assunto foi excluído para evitar conflitos com Trump.

Estadão
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