SP: polícia ouvirá dentistas para apurar contaminação por mercúrio
- Cícero Afonso
- Direto de Primavera
A polícia irá ouvir todos os dentistas do município de Rosana e de cidades vizinhas para apurar as condições de descarte de mercúrio utilizado nos consultórios. A decisão do delegado Antenor Brolezzi da Trindade, da Polícia Civil de Primavera, no extremo oeste do Estado de São Paulo, é motivada por indícios de que a contaminação de 60 pessoas por mercúrio em Rosana teria se originado de resíduos de clínicas odontológicas jogados em terreno baldio. O mercúrio é utilizado em obturações dentárias.
Os 15 frascos do metal pesado foram encontrados no dia 21 de junho por crianças que brincavam no terreno, utilizado sem licença ambiental pela Prefeitura para o descarte de entulho. A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) multou a Prefeitura em R$ 82 mil e interditou a residência de duas famílias.
Os 15 dentistas do distrito de Primavera no município de Rosana serão ouvidos pela polícia em data a ser marcada. De acordo com o delegado, as intimações já começaram.
Além dos dentistas da região, o policial não descarta a possibilidade de também ouvir profissionais do Mato Grosso do Sul e do Paraná, que trabalham em cidades próximas à divisa com o Estado de São Paulo. "Essa hipótese também será investigada. Mas, por enquanto, não temos suspeitos".
Contaminados seguem em tratamento
Desde o dia 15 deste mês, 58 das 60 vítimas detectadas estão tomando o medicamento Acetilsisteína. O tratamento terá a duração de dez dias.
"De um grupo de 106 pessoas entrevistadas para ver se necessitavam de exames, foram confirmados 60 pacientes com a presença de mercúrio no sangue. Esses pacientes apresentaram uma taxa acima de cinco microgramas de mercúrio por grama de creatinina. Não chega a ser uma taxa absurda. Com o remédio, vários deles já apresentaram uma queda acentuada na taxa", explica o enfermeiro e secretário municipal de Saúde da cidade David Rodrigues. Ele classifica de "criminoso" o descarte do mercúrio.
As vítimas em estado mais grave são as irmãs Setefani Monteiro, 3 anos, e Ketlin Monteiro, 2 anos, que, junto a outros quatro irmãos, encontraram os frascos de mercúrio. Elas apresentaram uma taxa de mercúrio superior a 10 microgramas e permaneceram internadas por oito dias no Hospital da Unicamp, em Campinas. As irmãs foram medicadas com DMSA, uma droga importada, e voltaram para Primavera no começo de outubro. "A Lolô (Ketlin) tem infecção nos rins", queixa-se a agricultora Eva Monteiro, 61 anos, avó das meninas.
A avó afirma que sua família e a de seu filho, pai das seis crianças, vivem agora em uma casa que era sede do Corpo de Bombeiros de Primavera. "A minha família inteira foi contaminada, são 14 pessoas. Eu sinto dores de cabeça, o tratamento não é o ideal", reclama.