0

RJ: morte de contraventor pode ter sido motivada por herança

19 set 2011
04h15
atualizado às 04h16
Flávio Araújo e João Antônio Barros

Uma morte anunciada. O assassinato do bicheiro José Luiz de Barros Lopes, o Zé Personal, na sexta-feira, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, pode ter começado a ser escrito há dois anos, quando se iniciou a guerra aberta na família Paes Garcia pelo espólio de Waldomiro Paes Garcia, o Maninho. A disputa vai além dos bens deixados pelo chefão, metralhado em 2004. Está em jogo uma das maiores e mais lucrativas áreas da contravenção. São pontos de apostas do bicho e de máquinas de caça-níquel espalhados pela zona sul e parte de Vila Isabel.

Os mais recentes capítulos da disputa foram registrados em depoimentos na Corregedoria Geral Unificada (CGU), de maio a agosto. Neles, Shanna Harouche Garcia Lopes, filha de Maninho e mulher de Zé Personal, diz que o casal foi ameaçado de morte por Mirinho, irmão dela; Bernardo Bello Pimentel Barbosa, ex-cunhado; e grupo de policiais liderado pelo capitão PM Adriano Magalhães da Nóbrega.

As brigas, até então restritas às Varas de Família, chegaram ao haras da família, em Guapimirim: centro de criação de cavalos e gado, avaliado em R$ 50 milhões. Shanna informou à CGU 5 ataques de homens armados - um com cinturão de munição de fuzil cruzado no peito - e roubos à propriedade que ela administrava.

Invasões em fazenda
Numa das ações do grupo, Shanna afirma que o capitão foi enfático: "É melhor você não se meter se quiser ver seu filho crescer". Em outra, também segundo ela, o irmão e o ex-cunhado avisaram aos empregados da fazenda que "agora era tudo deles". As invasões eram reflexos da briga de Personal com a família ¿ principalmente Alcebíades Paes Garcia, o Bide, irmão de Maninho. Os dois disputavam caça-níqueis. Na guerra, houve mortes e destruição das máquinas em bares de Vila Isabel. O golpe final veio em abril: Bide convenceu os sobrinhos a ficarem contra Personal, para resgatarem o controle dos negócios. Foi quando Personal perdeu recursos, e os seguranças que o protegiam mudaram de lado.

Lucros divididos por quatro
Com a morte de Maninho, a família estabeleceu a divisão dos lucros em quatro partes iguais. Cada um dos três filhos (Shanna, Mirinho e Tamara) ficaria com 25% e, à viúva, caberia a quarta parte restante. Todo esse patrimônio era o território do antigo contraventor Ângelo Maria Longa, o Tio Patinhas, padrinho de Maninho. A Alcebíades restou a participação apenas nos negócios do pai, Valdemir Garcia, o Miro. Como os filhos de Maninho eram jovens, Bide tocou o empreendimento. Mas Shanna se casou com o ex-colaborador da família, Personal, e assumiu os negócios. Com o 'boom' do jogo eletrônico, em 2006, e a queda do lucro do bicho, a divisão criou rixas entre os herdeiros. Personal, ao lado do próprio capitão Adriano Nóbrega, foi acusado da morte, em 2009, de Rogério Mesquita, homem de confiança de Maninho e gerente do haras.

Samba, violência e fortuna
Maninho foi morto em setembro de 2004, aos 42 anos, quando saía de uma academia em Jacarepaguá. Ele sucedera o pai, Waldemir Garcia, o Miro, como patrono da Acadêmicos do Salgueiro. A história da agremiação é marcada por assassinatos, entre eles o do vice-presidente, Guaracy Paes Falcão, em 2007. Acusado pelo crime, o pecuarista Rogério Mesquita foi executado em janeiro de 2009 em Ipanema. Rogério seria administrador do Haras Fazenda Modelo, de Maninho, em Guapimirim.

Como noticiou a coluna Justiça e Cidadania, de O Dia, em 30 de agosto, o haras é um dos alvos da guerra que o clã Paes Garcia trava na 12ª Vara de Órfãos e Sucessões. A propriedade foi avaliada em R$ 50 milhões, pelo menos. A área é de 300 mil hectares e, nela, há 1,8 mil cabeças de gado e cavalos puro-sangue, muitos avaliados em até 300 mil euros (R$ 690 mil).

PM trabalhou em fazenda
Nos depoimentos à CGU, Shanna Garcia listou o nome de oito homens que invadiram o haras em Guapimirim. Além do oficial, outros quatro eram PMs da ativa e um, agente penitenciário. Ela revelou que o capitão Adriano chegou a trabalhar como administrador da fazenda, entre 2008 e o início deste ano, e recebia R$ 5 mil por mês pelo 'bico'.

Zé Personal foi assassinado na sexta-feira quando conversava com o pai de santo Alexandre Avelar, num centro espírita em Jacarepaguá. Ele estava acompanhado de Josemar Soares de Oliveira, também morto a tiros, quando três homens encapuzados invadiram a casa e atiraram nos dois. O caso é investigado pela Divisão de Homicídios.

Fonte: O Dia

compartilhe

publicidade
publicidade