Rio: bicheiros usam milicianos para matar adversários, diz polícia
Investigações da Polícia Civil do Rio de Janeiro nos últimos dois anos apontam relações criminosas entre a cúpula do jogo do bicho e policiais ligados às milícias. Pistoleiros recrutados pelos bicheiros para matar seus adversários ou ajudar na destruição dos pontos concorrentes partem das comunidades controladas pelos paramilitares, segundo apurações policiais.
A batalha travada entre os contraventores Rogério Andrade e Fernando de Iggnácio de Miranda é alimentada com a contratação de pessoas ligadas a milicianos. Na manhã da última quinta-feira, Rogério foi alvo de um atentado no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio. Na ação, investigada pela polícia, seu filho morreu.
Um dos crimes que comprova a relação próxima entre milicianos e contraventores, segundo a Polícia Civil, é a execução do bicheiro Valdemir Paes Garcia, o Maninho, em setembro de 2004. O contraventor saía de uma academia em Jacarepaguá quando foi morto com tiros de fuzil e pistola. Como ocorreu quinta-feira com Rogério Andrade, Maninho estava acompanhado do filho Waldomiro Paes Garcia Júnior, 15 anos, no momento do crime. O rapaz foi ferido, mas sobreviveu.
As investigações da Subsecretaria de Inteligência de Segurança apontaram para o envolvimento no assassinato de um policial miliciano, ligado a uma comunidade de Jacarepaguá. Ele teria agido a mando de um dos chefes do bicho, motivado pela invasão de Maninho e seus caça-níqueis a bares e restaurantes da Barra da Tijuca.
Outro exemplo de como a contravenção recruta seus homens, segundo a investigação, é o cabo reformado da Marinha Marcos Paulo Moreira da Silva, o Marquinhos Sem Cérebro. Supostamente ligado a milícias que controlam as vans na zona oeste da capital fluminense, ele teria sido o principal responsável pelo ataque às máquinas de caça-níquel de Rogério Andrade em 2004. Seu trabalho, conforme apuraram os detetives da Delegacia de Homicídios, era remunerado pelo bicheiro Fernando Iggnácio, inimigo de Rogério.
Aliança por lucro
A milícia também atua em parceria com o jogo do bicho na administração de máquinas de caça-níqueis em áreas carentes, conforme a polícia. Lucram com uma parcela das apostas e repassam a maior parte para os bicheiros. Outra forma de colaboração é na segurança das máquinas instaladas em bares e padarias.
De acordo com o delegado Cláudio Ferraz, da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado, há casos onde traficantes são expulsos do controle das máquinas por milicianos para entregá-las aos bicheiros. "Em algumas áreas, onde máquinas eram exploradas pelo tráfico, a milícia expulsa o bandido e chama os bicheiros para uma nova parceria", afirmou.