Mais de 300 ônibus foram queimados no Rio desde 2000
Como em nenhuma outra cidade do Brasil, a frota de ônibus do Rio de Janeiro agoniza com a depredação e a prática de incendiar coletivos ¿ um vandalismo que, em nove anos, consumiu mais de R$ 74 milhões e deixou 753 veículos inutilizados ¿ dos quais 372 foram queimados. Só este mês já foram 11 (oito deles incendiados), média de um a cada dois dias e meio. Além de tornar-se até uma prática exportada ¿ semana passada em Macaé, foram quatro ônibus queimados ¿ as ações retiram carros da rua por até quatro meses, obrigam empresas a contratar psicólogos e acumulam processos contra o Estado.
"Incendiar ônibus é forma de protesto comum em outras cidades, como São Paulo e Belo Horizonte, principalmente em casos de greve", conta Octacílio Monteiro, vice-presidente Sindicato das Empresas de Ônibus do Rio (Rio Ônibus), que representa 47 empresas. "Mas, da forma e com a freqüência com que acontece no Rio, não há paralelo no Brasil. A constância aqui é maior em virtude do nível de violência em que vivemos", disse.
Apesar da curva descendente ao longo dos últimos nove anos, janeiro de 2009 já registra o segundo maior índice desde 2000, quando os protestos viraram moda no Rio. A cada dois dias e meio, um coletivo saiu das ruas - oito foram incendiados e três depredados. A reposição dos veículos ¿ feitos sob encomenda ¿ leva em média quatro meses, deixando passageiros à deriva e à mercê do transporte irregular. Cerca de R$ 2 milhões já sumiram em meio à fumaça só neste mês.
O maior pico de ônibus incendiados foi registrado em 2002, com 95 veículos, seguido do ano seguinte, com 87. Em nove anos, foram gastos mais de R$ 74 milhões com reposição da frota ¿ dos quais R$ 61 milhões só com incendiados.
Sequer há seguradora que aceite arcar com os riscos de um ônibus ser incendiado ao dobrar uma esquina da cidade. Segundo a Rio Ônibus, cada novo veículo ¿ que inevitavelmente tem perda total, além de ainda ser saqueado por moradores após as chamas ¿ custa em torno de R$ 200 mil, mas pode chegar a R$ 500 mil. Procurada, a Secretaria Municipal de Transportes informou que o problema é um risco que a própria empresa deve assumir.
Mais de 700 processos
O advogado Max Fontes representa os mais de 700 processos que cerca de 100 empresas moveram contra o Estado. Apenas no ano passado, o Judiciário passou a reconhecer que o Estado deve ser o responsável por ressarcir a empresa.
"A média é de um ônibus queimado a cada dois dias, o número de assentos de boeing por semana, um absurdo", disse. "Só no ano passado ganhamos o primeiro processo daquele 11 setembro de 2002, quando o Rio parou e mais de 40 ônibus foram incendiados. A Justiça já reconhece que o Estado tem de fornecer condições de segurança", afirmou.
Outro problema é com os funcionários, que se recusam a atuar em alguns itinerários. Psicólogos tiveram de ser contratados, e o custo com recursos humanos aumentou ainda mais, já que muitos motoristas ficam afastados ¿ não só por conta dos incêndios como também depois de serem vítimas de assalto.
"Quando determinado trajeto acarreta risco operacional, a empresa pode alterar o itinerário ou até cancelar a linha. Na Zona Oeste, já tivemos oito cancelamentos, mas não podemos revelar detalhes por segurança", contou Octacílio.
"Por tudo isso, temos até dificuldades em conseguir pessoas que aceitem trabalhar em determinadas regiões", disse.
A depredação é outro problema recorrente. Segundo Octacílio, a situação é mais comum com os ônibus que passam pela orla. Nos últimos nove anos, foram gastos R$ 13 milhões ¿ R$ 150 mil só este ano.
O sociólogo José Augusto Rodrigues, professor da Uerj, argumentou que os casos são maiores no Rio em virtude da ousadia dos bandidos diante das autoridades.
"Os bandidos do Rio se acostumaram, ao longo do tempo, a serem ousados com a polícia" disse. "Temos esse histórico em virtude da ausência do poder público", afirmou.