Jovem enfrentou chamas para salvar namorada em ônibus no Rio
Internado em quarto isolado no Hospital Naval Marcílio Dias, no Lins, o montador de móveis Gabriel Lima, 21 anos, só tem um desejo: rever a namorada, a estudante Anne Andrade, 18. Por pouco, o fogo não separa o jovem casal. Gabriel teve a face e as mãos queimadas ao tentar resgatar a amada das chamas. Ao conseguir deixar o ônibus, ele percebeu que Anne não o acompanhava e correu de volta para o veículo.
"Foi tudo reflexo, não pensei em mais nada. Vi que ela não estava comigo e voltei. Estávamos sentados atrás do trocador, um lugar complicado para sair. Os bandidos vieram de becos com pedras e coquetel molotov e, em poucos segundos, as saídas estavam bloqueadas pelo fogo. Queriam fazer um massacre mesmo", lembrou ele, que não consegue atender as ligações de amigos e depende da mãe para comer.
Anne havia fugido segundos antes, ao se jogar pela janela, com parte do corpo tomada pelo fogo. "A saída de emergência não funcionava, e todos entraram em pânico. Ao sentir que o fogo já estava no meu corpo, me atirei pela janela e caí. Comecei a me debater para apagar, mas desmaiei sobre o pneu do ônibus, que também estava em chamas", relatou a jovem por e-mail. Ela foi salva por moradora que a arrastou para a calçada. Anne perdeu dois dentes, levou pontos na boca e não consegue falar.
"A gente sabe que o Rio está violento, mas olha como se fosse um filme. Se seu parente foi preso contra lei, não é isso que você tem que fazer para ajudar. Quando penso nisso, tenho vontade de ir embora da cidade. A palavra que vem à minha cabeça é ignorância", desabafou Rosângela Andrade, mãe da moça.
Outras vítimas
Sentada perto da roleta, a secretária Cristiane Maciel, 26, foi a primeira passageira a perceber a movimentação dos bandidos. "As pessoas estavam deitadas no chão, achando que eles iam atirar. Eu saí com o corpo pegando fogo, era muita dor, mas consegui me jogar numa poça de água", contou ela, que está internada com queimaduras graves.
"São pessoas muito más. Não queriam apenas assustar, queriam matar quem estava ali. Não nos deram chance", lembrou. Cristiane disse que foi o pensamento no filho, de 7 anos, que lhe deu forças para fugir das labaredas: "Tinha que sair dali para cuidar dele, senão não sei o que teria acontecido".
Trauma de voltar a passar pela comunidade
"Pensava que a Cidade de Deus estava tranquila, mas não. Nunca mais quero passar por lá". Do leito do hospital, a promotora de vendas Carina Minguta, 25, não consegue esquecer o que viveu.
O trauma provocado pela barbárie está nas pernas e nas mãos de Carina, que viu seus planos de vida serem queimados junto com o ônibus. "Ia viajar para o Nordeste. Trabalhei um ano para isso. Você vê que sua vida não vale nada. Uma pessoa foi presa, mas 20 pagaram com seus corpos. Não acredito que quem faz isso consiga dormir em paz", disse a moça, que vai processar o estado.
Polícia teria identificado cinco suspeitos do atentado
A polícia já teria identificado cinco pessoas suspeitas de participação no ataque ao ônibus, entre elas duas mulheres. Os investigadores ouviram o depoimento de testemunhas na última quinta-feira, que detalharam a atuação de cada um e ajudaram na confecção dos retratos falados de outros dois suspeitos. Cerca de 30 pessoas teriam participado do atentado, mas apenas quatro teriam ateado fogo ao coletivo.
O delegado da 32ª DP, João Luiz Garcia, pretende concluir o inquérito na próxima semana e pedir a prisão dos suspeitos. "Já sabemos quem carregou os galões de gasolina, quem jogou pedras no ônibus, quem estimulou aquela ação", afirmou o delegado.
A polícia recebeu a informação de que um dos suspeitos estaria refugiado na Favela da Chatuba, no Complexo da Penha, onde supostos integrantes da quadrilha estariam escondidos desde a instalação da UPP. Na última quinta-feira, policiais do 16º BPM receberam a informação de que dois homens teriam sido mortos no morro, a mando do tráfico, por envolvimento no ataque ao ônibus, mas os corpos não foram encontrados.