Script = https://s1.trrsf.com/update-1768488324/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Polícia

Internautas simulam guerra do tráfico no Orkut

12 jul 2009 - 01h36
(atualizado às 07h12)
Compartilhar

O site de relacionamentos Orkut é usado pelos internautas para organizar um RPG (Role Playing Game, ou jogo de interpretação de Personagens em português) que simula confrontos entre quadrilhas organizadas, semelhante aos das favelas do Rio de Janeiro. As guerras acontecem na internet, entre participantes de jogos chamados RPG Terror ou RPG Favelas.

Uma das guerras entre as facções está prevista para começar por volta do próximo dia 3 de agosto. Os grupos reúnem homens, distribuem forças entre as favelas e compram armas para a batalha no mercado negro.

O curioso jogo foi criado há pelo menos três anos. Em uma reprodução da realidade, os participantes se filiam a facções, escolhem uma favela, invadem outras, compram armas, drogas e carros para "bondes", realizam assaltos e bailes funks e até pagam "arrego" (propina) para a polícia.

Em mensagem no site, o "administrador" convoca os participantes para iniciar uma nova rodada no início de agosto. O jogo "é um RPG baseado em fatos ocorrentes no dia a dia no Estado do Rio". Mas segundo ele, não há qualquer apologia ao crime.

Para participar, o internauta deve enviar depoimentos no Orkut para o "administrador". A cada postagem, ele ganha uma quantia virtual para comprar os itens para a guerra.

Os idealizadores procuram tornar o jogo o mais parecido com o real. Os nomes das facções, por exemplo, são bem parecidos com as verdadeiras: Puro dos Puros (PP), Comando dos Amigos (CDA) e a Falange dos Amigos ou Amigos. A repetição é intencional.

As favelas têm os mesmos nomes e pertencem aos mesmos grupos. Rocinha e Vidigal, por exemplo, que são controladas pela Amigos dos Amigos (ADA) na realidade, ficam na mesma facção.

Após mandar o depoimento ao "administrador" e receber o "dinheiro", o participante entra num tópico chamado de "Mercado Negro". Lá, há uma tabela de preços com os itens (armas, soldados, gerentes, carros, roupas do Bope, entre outros). Cada um custa um valor e recebe uma pontuação. Um fuzil AK-47, por exemplo, custa R$ 1.000 e vale 2 pontos, uma bazuca sai por R$ 12.000 e representa 17 pontos.

Feitas as compras e somados os pontos, os jogadores mandam suas estratégias ao "administrador" pelo Orkut. Dependendo de quanto tiverem em caixa, podem realizar assaltos, bailes funks e até "gatonet" (TV a cabo pirata) para lucrarem e aumentarem a pontuação. Um baile funk, por exemplo, garante um lucro de R$ 20 mil.

Para invadir e dominar uma favela inimiga, é preciso ter mais pontos do que ela. Por isso, quanto mais armas e homens, maiores são as chances de vitória. O jogador, no entanto, pode ser morto durante o ataque e ser eliminado.

As favelas só podem ter quatro pontos de tráfico que custam R$ 10 mil cada. Os participantes podem até cromar suas armas. Existe a possibilidade ainda de o membro de uma facção se rebelar contra o grupo, transferir-se para outra facção ou aplicar um golpe.

Há também polícia no jogo. As favelas que praticam muitos assaltos são visadas e podem ser ocupadas. Para não perderem tudo, os participantes podem praticar "o arrego", jargão usado para o pagamento de propina aos policiais.

Para a polícia, não há crime

A titular da Delegacia de Repressão a Crimes contra a Informática (DRCPI), delegada Helen Sardenberg, disse que ainda não encontrou elementos que pudessem vincular o jogo a práticas criminosas.

"São indivíduos se passando por criminosos, a compra de armas é simulada, o dinheiro é virtual. Ainda não vi crime, mas estamos analisando", afirmou ela.

Para Hellen, trata-se de um jogo de muito "mau gosto", "antiético" e que deveria ser retirado do Orkut por iniciativa do site. Dois especialistas também não consideram que há crime, mas criticaram o jogo.

Rodrigo Nejm, diretor de prevenção da ONG Safernet (que reúne denúncias de crimes na internet), disse que o jogo não tem nenhuma prática criminosa.

"A simulação de jogos de violência não é considerado apologia. Assim como existe este jogo, tem jogo de rituais macabros, terrorismo e de guerra. O crime só ficaria caracterizado se houvesse incitação clara para prática concreta do ato. Neste RPG, não vi isso", declara.

Nejm, entretanto, afirmou que este tipo de jogo causa um grande prejuízo social. "Esse jogo mostra a total banalização e naturalização da violência. Ninguém se beneficia disso", disse.

Ativista de liberdade na internet, o sociólogo e professor da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, Sérgio Amadeu da Silveira, afirmou que é preciso tomar cuidado com grupos que discutem em sites de relacionamento. "Muitos marcam encontros violentos pelo site", alertou ele, que concorda que esses jogos são desaconselháveis. "Mas não existe correlação entre os games violentos e o aumento da violência", disse.

Jornal do Brasil Jornal do Brasil
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra