‘Faz-tudo’ do PCC: suspeito conectou facção com máfia italiana e facilitava o envio de drogas para a Europa
Willian Barile, de 38 anos, apontado pela PF como membro do PCC que fazia elo com máfia ‘Ndrangheta
Um empresário que vivia em área nobre de São Paulo é suspeito de integrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e aproximar a facção com a máfia italiana Ndrangheta. Willian Barile, de 38 anos, está preso desde janeiro, e é acusado de movimentar R$ 2 milhões no sistema financeiro brasileiro entre 2018 e 2022. As informações foram reveladas pelo Fantástico, da TV Globo.
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O homem, que se apresenta como um empresário de sucesso e fala várias línguas, segundo a investigação, mantinha uma rede internacional onde tratava do tráfico de cocaína, transportados do Porto de Paranaguá (PR) para vários lugares do mundo. Era considerado o ‘faz-tudo’ da facção e fornecia contatos e logísticas para os membros.
Barile tem várias empresas, mas conforme o delegado da Polícia Federal, Eduardo Versa, as autoridades encontraram vários indicativos do uso delas para lavagem de dinheiro. Ele tinha como sócio Edmilson de Menezes, vulgo Grilo, membro do PCC. Juntos, eles mandavam a droga para a Europa.
Conforme a PF, o empresário tinha acesso a área interna do Porto de Paranaguá, onde conseguia informações privilegiadas sobre as operações. Com isso, homens contratados por ele levavam a droga até o porto em caminhões, abriam contêineres já escaneados e colocavam a colocavam a cocaína junto da carga.
Para evitar de serem pegos, os contêineres eram escolhidos a dedos, e sempre de empresas idôneas, com ótima reputação, que não seriam verificadas fisicamente. A estratégia permitiu o envio de grandes quantidades da substância ilícita.
“Eles necessariamente precisam de informações privilegiadas de funcionários do terminal de contêineres. Então, quando o caminhoneiro ingressa no porto, ele já tem uma informação pré-estabelecida de onde ele deve deixar a carga da droga", disse o delegado.
Aliança dentro do porto
Jefferson Barcelos de Oliveira, atravessador e guarda civil de Paranaguá, foi contratado por Barile em 2019. Ele corrompia funcionários do porto e coordenava os carregamentos das drogas. O primeiro registro de negócios entre eles foi em junho de 2019, em uma reunião em um apartamento da máfia italiana, em Praia Grande, no litoral paulista.
O mafioso italiano Nicola Assissi, que vivia foragido no Brasil, foi quem o recebeu. "Nicola Assisi era conhecido como o fantasma da Calábria. Ele era o responsável pelo escritório latino-americano da Ndrangueta, e estava no Brasil há um tempo", diz a procuradora da República, Raíssa Kyrie Jardim.
Segundo as autoridades, a máfia da Calábria enviava as drogas da América do Sul para a Europa com o grupo de Barille. Embora Assissi tenha sido preso pela PF em julho de 2019, os negócios entre o empresário e o guarda seguiram até 2020, quando dois carregamentos de 770 kg de cocaína que seriam encaminhados para a Europa foram roubados.
Após o roubo, homens do megatraficante foram até a casa de Barcelos para intimidá-lo. Um comparsa dele que estava no imóvel ligou para o irmão, e a Polícia Militar foi acionada. Minutos depois, a PM chegou ao local, encontrou armas e prendeu todos em flagrante.
A polícia interceptou uma conversa em que Grilo, sócio de Barile, disse que se vingaria do atravessador. “Eles vão pagar pelo que estão fazendo com a gente aí, cara. Tudo o que eu tenho de ódio eu vou descontar tudo neles", declarou em um áudio.
Em maio de 2020, ele foi executado a tiros. A investigação encontrou uma mensagem de Barile para os comparsas da Europa. “O guarda caiu. Nós fomos roubados e matamos quem nos roubou”, disse com uma foto do corpo da vítima. O grupo ainda teria assassinado outras três pessoas ligadas a Barcelos.
Montou outro grupo
Após a execução do guarda, o ‘faz-tudo’ do PCC montou uma nova equipe e seguiu com os envios de droga pelo Porto de Paranaguá. Em dezembro de 2020, dois carregamentos de cocaína foram apreendidos pela polícia aduaneira, sendo um de meio tonelada e outro de 322 kg.
Além do transporte via porto, a quadrilha também usava aviões particulares para fazer o narcotráfico. A polícia diz que em um único voo, uma das aeronaves apreendidas levou quase uma tonelada de cocaína para Bruxelas, na Bélgica. A droga foi colocada no bagageiro e escondida no assoalho, embaixo da poltrona e em compartimentos secretos, os chamados mocós.
Esse carregamento saiu de São Luís, no Maranhão. O piloto informou ao empresário que foi difícil fazer a decolagem, devido ao peso, mas “Deus decolou ele”, como “um sopro divino”. “E a consciência dos que tão dentro. Pesa quanto?", brincou Barile na ocasião.
Os passos do empresário são monitorados pelo Ministério Público Federal e PF desde 2020 juntamente com autoridades italianas. A cooperação permitiu acesso a mensagens trocadas no SkyECC, um aplicativo secreto.
"A França detectou, conseguiu monitorar esse aplicativo, junto também com a Bélgica, e detectou ali a atuação de vários agentes criminosos espalhados pelo mundo inteiro", explica Anamara Osório e Silva, procuradora-chefe da unidade de cooperação internacional da PGR.
Outros elos com o PCC
Autoridades apontam que as mensagens revelaram um plano de Barile para ajudar Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, a fugir da cadeia onde está, em Moçambique, na África. Fuminho é braço direito de Marcos Camacho, o Marcola.
Ele pagaria US$ 2,5 milhões em propina para os policiais o soltarem e, depois, iria escondê-lo na região dos Balcãs, onde o empresário mantinham relações com grupos criminosos. Inclusive, o empresário contratou um cônsul honorário de Moçambique para ajudar no plano de fuga. A tentativa não foi colocada em prática, e Fuminho retornou ao Brasil, onde está em um presídio federal.
Barile está preso desde janeiro, depois de se entregar à Polícia. Um mês antes, a Polícia Federal fez uma operação em 31 endereços ligados a ele, como a mansão em que vivia em um condomínio de luxo em Alphaville, além da sua casa em Florianópolis, em Santa Catarina. Grilo, morreu dois meses antes da operação.
Após a prisão, o empresário afirmou que se coloca à disposição da Justiça, e a defesa dele nega ligação de seu cliente com práticas ilícitas. "Willian Barile desconhece o SKYECC, ele nunca utilizou esse telefone criptografado, e nunca praticou nenhum ato ilícito, muito menos tráfico de drogas", afirmou ao Fantástico a defesa dele, representada por Eduardo Maurício. Mas para a PF, não há dúvidas de sua ligação com o PCC.