Falsa psicóloga diz que não se formou por déficit de atenção
Ré em um processo por estelionato, propaganda enganosa e falsidade ideológica, Beatriz da Silva Cunha, que se passava por psicóloga para tratar crianças e jovens autistas, afirmou nesta quarta-feira que não concluiu o curso de Psicologia, interrompido no 8º período, por sofrer de déficit de atenção, de acordo com o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Proprietária de uma clínica, ela foi denunciada após uma delegada que buscou os serviços desconfiar da fraude.
Ao juiz Alcides da Fonseca Neto, da 11ª Vara Criminal da capital, Beatriz afirmou que o distúrbio não prejudicou a sua capacidade intelectual para atender crianças e que se habilitou para tratar pacientes com necessidades especiais ao estagiar e trabalhar no Centro de Desenvolvimento Humaitá. Ela disse ainda ter feito treinamentos e cursos com especialistas brasileiros e estrangeiros, e que participou de congressos nos Estados Unidos e México. A ré sustenta, ainda, que o delito no qual deveria ser autuada é exercício ilegal da profissão.
Beatriz afirmou que a ausência do diploma sempre a incomodava. "Eu dizia que era psicóloga, mas continuo incomodada com o fato de não ter conseguido concluir o curso. Ninguém sabia que eu não era psicóloga. Eu escondia esta informação de todas as pessoas, inclusive de mim mesma", disse.
De acordo com a denúncia, ela se intitulava psicóloga e terapeuta comportamental, pós-graduada em Psicologia Médica pela Santa Casa. Beatriz chegou a ministrar palestras e cursos e tinha convênios com a Marinha e a Universidade da Força Aérea.
Entre as testemunhas que acompanharam a audiência hoje, estava a delegada Candisa Andrea Mandim. No ano passado, ela levou o filho de 8 anos à clínica e, quando pediu recibo para a declaração do imposto de renda, o documento foi emitido com registro de outra pessoa. A delegada disse que pagou R$ 800 apenas pela primeira avaliação comportamental do filho e mais R$ 50 mil pelo período de dez meses referentes às três horas diárias de atendimento da criança. Segundo ela, ao invés de evoluir, o menino regrediu. Beatriz negou que não emitia recibos pelos serviços.
Ao final da audiência, o juiz determinou que os autos sejam encaminhados ao Ministério Público para as alegações finais e, em seguida, para a defesa dos réus. Após esta fase, ele vai proferir a sentença. O marido de Beatriz, Nelson Antunes de Farias, também é réu no processo e nega as acusações.